Observatório Econômico: Alta de preços e consumo fraco colocam autoridades japonesas em situação difícil

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Por Brasil 247 — Brasil 247

Tóquio, 4 out (Xinhua) — Em uma rede de lojas de Tóquio, a capital japonesa, é impossível não notar um aviso sobre reajustes de preços em determinados itens.

Atualmente, as altas de preços não apenas figuram entre os assuntos mais comentados na mídia japonesa, mas também são sentidas intensamente no dia a dia, desde produtos para o lar até alimentos, e de supermercados a restaurantes.

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Pessoas descansam em bancos em Tóquio, Japão, em 18 de maio de 2026. (Xinhua/Jia Haocheng)

ALTA DE PREÇOS E CONSUMO FRACO

Segundo uma pesquisa divulgada pela empresa japonesa de pesquisa Teikoku Databank Ltd., mais de 3.000 itens de alimentos e bebidas no país sofrerão aumentos de preços em outubro, com a previsão de que o total acumulado em 2026 ultrapasse 20.000 itens.

Dados divulgados recentemente pelo Banco do Japão (BOJ, na sigla em inglês) mostraram que o índice de preços ao consumidor, excluindo alimentos frescos e fatores institucionais, subiu 2,6% em agosto na comparação anual, superando a meta de estabilidade de preços de 2% do banco central.

Com a alta generalizada dos preços, os gastos mostram sinais de desaceleração.

O consumo privado, que representa mais da metade da economia do Japão, manteve-se praticamente estagnado no segundo trimestre.

Até julho, os gastos das famílias ajustados pela inflação haviam registrado queda na comparação anual por oito meses consecutivos.

“A alta dos preços está corroendo o poder de compra real, e é provável que o consumo privado estagne ainda mais daqui para a frente”, disse Taro Saito, economista do NLI Research Institute.

A demanda fraca dos consumidores também está pesando sobre os lucros das empresas. Shingo Ide, estrategista-chefe de ações do NLI Research Institute, observou que, com os custos subindo de forma generalizada, as empresas que não conseguem repassá-los aos clientes por meio de preços mais altos enfrentarão uma pressão persistente sobre suas margens de lucro, colocando as empresas sob forte pressão.

Grandes empresas japonesas com forte poder de precificação ainda têm alguma margem para compensar o aumento dos custos por meio de reajustes de preços. No entanto, para o grande número de pequenas e médias empresas do país, aumentar os preços está longe de ser uma tarefa fácil.

Tomemos como exemplo os restaurantes de lámen, um elemento essencial da cena gastronômica do Japão. Segundo a Tokyo Shoko Research, as falências entre esses estabelecimentos saltaram 44,4% em relação ao ano anterior no primeiro semestre de 2026, elevando o número de quebras a um recorde para o período.

A alta persistente nos custos de ingredientes e serviços básicos forçou muitos proprietários de restaurantes de lámen a aumentar os preços. Contudo, com os consumidores cada vez mais cautelosos em relação aos gastos, preços mais altos correm o risco de afastar a clientela.

Para muitos pequenos operadores de restaurantes no Japão, encontrar um equilíbrio entre cobrir os custos elevados e manter o fluxo de clientes se tornou uma grande dor de cabeça.

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Pessoas caminham por uma rua em Tóquio, Japão, em 18 de maio de 2026. (Xinhua/Jia Haocheng)

INSTRUMENTOS DE POLÍTICA LIMITADOS

Com a alta dos preços corroendo o poder de compra das famílias e os custos empresariais continuando a subir, os formuladores de políticas econômicas do Japão enfrentam um dilema cada vez mais crítico.

No que diz respeito à política monetária, o BOJ encontra-se em uma situação difícil. O risco de que um iene mais fraco e custos de importação inflacionados impulsionem ainda mais os preços não desapareceu, dando ao banco central motivos para prosseguir com seu ciclo de aperto monetário.

Ao mesmo tempo, com sinais de desaceleração do consumo já surgindo, elevar as taxas de juros muito rapidamente poderia esfriar a atividade econômica.

Movimentações recentes do iene tornaram mais complexa a avaliação da política do BOJ. Mesmo após uma intervenção conjunta do Japão e dos Estados Unidos no mercado cambial, o iene continuou sob pressão de venda.

Uma pesquisa recente da Reuters revelou que mais de dois terços dos economistas consultados acreditam que a intervenção conjunta teve efeito limitado, apenas adiando, em vez de resolver, os problemas mais profundos que afetam o iene. Nesse contexto, as expectativas do mercado quanto a um aumento das taxas de juros pelo BOJ ganharam força significativa.

Em sua reunião de política monetária de setembro, o banco central elevou sua taxa básica de juros para 1,25%. No entanto, como o Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) também aumentou sua meta para a taxa dos fundos federais, a diferença de taxas de juros entre o Japão e os Estados Unidos diminuiu apenas modestamente, e o iene não conseguiu sustentar uma recuperação expressiva.

Segundo diversas reportagens da mídia japonesa, o presidente dos EUA, Donald Trump, manifestou recentemente preocupação com a fraqueza do iene.

O BOJ, por sua vez, monitora atentamente o impacto inflacionário de uma moeda mais fraca.

“Se o iene se enfraquecer ainda mais e os indicadores econômicos apontarem para pressões crescentes sobre os preços, a probabilidade de um aumento das taxas pelo BOJ em outubro aumentará”, disse Eiji Maeda, presidente do Chibagin Research Institute e ex-diretor-executivo do BOJ.

Kyohei Morita, economista-chefe da Nomura Securities, disse que a política fiscal do governo da primeira-ministra Sanae Takaichi elevou as expectativas de inflação, intensificando a preocupação do mercado de que o BOJ esteja ficando atrás da curva.

No âmbito fiscal, a estratégia do governo Takaichi de finanças públicas “responsáveis ​​e proativas” esbarra na limitada margem de manobra fiscal.

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Pessoas em uma escada rolante de um shopping center em Tóquio, Japão, em 18 de maio de 2026. (Xinhua/Jia Haocheng)

Uma pesquisa da Reuters revelou que 89% dos economistas consultados esperam que a política fiscal do governo provoque uma desvalorização do iene, com os mercados atentos, em particular, à forma como serão financiadas medidas como o corte de impostos sobre alimentos e o aumento dos investimentos.

Em meio a preocupações crescentes com a sustentabilidade fiscal, o rendimento do título público japonês de referência com vencimento em 10 anos, um termômetro das taxas de juros de longo prazo, chegou a atingir 3,115% em 25 de setembro, seu nível mais alto desde agosto de 1996.

A dívida pública do Japão é elevada em relação ao PIB há muito tempo e, com a alta das taxas de juros, esse endividamento está se transformando em um encargo de juros cada vez mais imediato.

Segundo o jornal Nikkei, a proposta orçamentária do Ministério das Finanças para o ano fiscal de 2027 (que vai de abril de 2027 a março de 2028) estima os custos do serviço da dívida em 36,64 trilhões de ienes (cerca de 232 bilhões de dólares), incluindo 16,59 trilhões de ienes em pagamentos de juros, ambos valores recordes.

Em última análise, os atuais problemas econômicos do Japão vão além de uma simples alta de preços. Eles decorrem da interação entre a redução do poder de compra das famílias, o aumento dos custos empresariais e a crescente pressão fiscal, fatores que se contrapõem. Ao tentar conciliar estabilidade de preços, crescimento e controle da dívida, os formuladores de políticas do Japão dispõem de pouca margem de manobra.

Fonte: Agência Xinhua — https://portuguese.news.cn/20261006/8273efcb0c324c3083839ca322c22d05/c.html

Fonte: Brasil 247

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