Câmara renova 35,6% das cadeiras e amplia bancada feminina
Por Laís Gouveia — Brasil 247
247 – A Câmara dos Deputados terá renovação de 35,67% na legislatura que começa em fevereiro de 2027. Dos 513 parlamentares eleitos no domingo (4), 183 exercerão o primeiro mandato, enquanto 301 conseguiram a reeleição e outros 29 ex-deputados retornarão à Casa.
Os dados foram divulgados pela Agência Brasil, com base em informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e da própria Câmara dos Deputados. A nova composição valerá para a 58ª legislatura, entre 1º de fevereiro de 2027 e 31 de janeiro de 2031.
A proporção de novos deputados ficou próxima à registrada na eleição de 2022, quando a renovação atingiu 39,3%. Segundo a Câmara, o resultado mantém o padrão recente de substituição de parte significativa dos integrantes da Casa a cada eleição.
Ao mesmo tempo, 58,6% das vagas ficaram com deputados que já exerciam mandato como titulares, seja por terem sido eleitos em 2022, seja por terem assumido definitivamente ao longo da atual legislatura.
Bancada feminina atinge recorde
Uma das principais mudanças na composição da Câmara será o crescimento da representação feminina.
Foram eleitas 108 mulheres, maior número já registrado na história da Casa. O resultado representa aumento de 18,68% em relação a 2022, quando 91 deputadas conquistaram mandato.
Na comparação com o pleito anterior, são 17 mulheres a mais na Câmara a partir de 2027.
A advogada e professora de Direito Constitucional Damares Medina avaliou positivamente o aumento da presença feminina, independentemente das diferenças ideológicas entre as eleitas.
“Porque não importa, cada uma a seu modo e à sua forma, traz a mensagem de que lugar de mulher é onde é ela quiser. Não vou submeter uma representante popular eleita a um escrutínio hermenêutico que o homem não é submetido.”
A expansão da bancada feminina contrasta com a redução da representação de pessoas negras e indígenas no Legislativo federal.
Representação negra recua
Os candidatos autodeclarados pretos e pardos conquistaram 135 cadeiras, equivalentes a 26,3% do total da Câmara.
Em 2022, foram eleitos 139 deputados pretos e pardos. A nova composição, portanto, representa uma redução de 2,9% nesse grupo.
Segundo os dados do TSE, 10.206 pessoas negras registraram candidaturas para os diferentes cargos disputados nas eleições de 2026, número equivalente a 49,64% do total.
Apesar de representarem praticamente metade das candidaturas, pretos e pardos ocuparão pouco mais de um quarto das cadeiras da Câmara.
Bancada indígena cai de cinco para três deputados
A representação indígena também será menor na próxima legislatura.
Três candidatos autodeclarados indígenas foram eleitos: Paulo Guedes (PT-MG), Juliana Cardoso (PT-SP) e Sônia Guajajara (PSol-SP).
Paulo Guedes foi reeleito com 126.891 votos. Juliana Cardoso recebeu 111.904 votos e também garantiu novo mandato. Ex-ministra dos Povos Indígenas no governo Lula, Sônia Guajajara foi reeleita com 54.207 votos, por meio do quociente eleitoral.
Com três representantes, a bancada indígena corresponderá a aproximadamente 0,58% dos 513 integrantes da Câmara.
O resultado representa retração em relação a 2022, quando cinco candidatos indígenas foram eleitos deputados federais.
Ao todo, 73 indígenas disputaram vagas na Câmara neste ano.
A presença de indígenas no Legislativo federal continua historicamente reduzida. Antes da ampliação observada nos últimos pleitos, apenas Mário Juruna (PDT-RJ) havia exercido mandato entre 1982 e 1986. Em 2018, Joenia Wapichana (Rede-RR) tornou-se a primeira mulher indígena eleita deputada federal.
PL terá a maior bancada
A distribuição partidária também sofrerá alterações significativas a partir de 2027.
O PL conquistou a maior bancada da Câmara, com 121 deputados. O número representa crescimento de 24 cadeiras em comparação com a eleição anterior.
A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, ficou com a segunda maior bancada, com 88 deputados, seis a mais do que em 2022.
Logo depois aparece a Federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, com 87 parlamentares.
O PSD terá 43 deputados, seguido por Republicanos, com 41; MDB, com 36; Podemos, com 27; PSB, com 15; Federação PSol-Rede, também com 15; PSDB-Cidadania, com 11; e Novo, com 10.
PRD-Solidariedade terá sete representantes, PDT, seis, Avante, cinco, e Missão, um.
Damares Medina destacou que o tamanho das bancadas tem influência direta na distribuição de espaços e de poder dentro do Congresso.
“É importante porque cada cadeira é poder. Cada uma delas significa influência, o jogo e vetores do que vai definir como a autoridade no Congresso Nacional é distribuída”, disse Damares.
A constitucionalista também chamou atenção para o peso dos blocos parlamentares na organização da Casa.
“Uma vez formados, esses blocos têm imenso poder na distribuição de orçamento, na distribuição de emendas parlamentares.”
Na avaliação dela, os resultados confirmam uma mudança gradual no perfil ideológico do Congresso.
“Se analisarmos a série histórica, desde 1988, na Constituição [Federal], podemos identificar que, pouco a pouco, o espectro político esquerdo foi perdendo a disputa ideológica, o debate intelectual”, avaliou advogada constitucionalista.
Nikolas Ferreira bate recorde de votação
Além da mudança na composição partidária, a eleição de 2026 produziu novos recordes individuais.
Nikolas Ferreira (PL-MG) foi reeleito com mais de 3,11 milhões de votos e se tornou o deputado federal mais votado da história do país.
O parlamentar superou com ampla margem o resultado obtido em 2022, quando recebeu 1,47 milhão de votos e já havia sido o deputado mais votado do Brasil naquele pleito.
Lucas Pavanato (PL-SP), atual vereador da capital paulista, apareceu logo depois, com 3.038.438 votos.
Entre as mulheres, Erika Hilton (PSol-SP) foi a mais votada. Reeleita com 1.596.472 votos, ela também alcançou uma das maiores votações individuais para a Câmara.
A nova legislatura, portanto, combinará aumento da presença feminina e renovação de mais de um terço das cadeiras com redução proporcional de deputados negros e indígenas, além de uma Câmara em que o PL ocupará a maior bancada a partir de 2027.
Fonte: Brasil 247