Nossa curva de aprendizagem ambiental também é um ativo econômico
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Carbono é consequência econômica de uma operação eficiente.
A afirmação pode parecer uma inversão da lógica que dominou parte da agenda climática nos últimos anos. Mas, dentro da indústria, muitas reduções de emissões não começam em um projeto chamado carbono. Começam na troca de uma caldeira, na redução do consumo de combustível, no reaproveitamento de um resíduo ou na revisão de um processo produtivo. O carbono aparece quando somos capazes de medir o resultado.
O Brasil chega a essa discussão com uma vantagem pouco explorada. Ao longo de décadas, o país construiu uma experiência ambiental que trouxe custos e distorções que precisam ser corrigidos, mas que também formou engenheiros, laboratórios, sistemas de controle e uma cultura de monitoramento. Hoje, tudo isso pode ter valor econômico.
Segundo o SEEG, as emissões brutas do país caíram 16,7% em 2024, chegando a 2,145 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente, a segunda maior redução anual desde 1990. O resultado esteve muito ligado à queda do desmatamento, o que deixa claro o próximo desafio: levar esse avanço para dentro das fábricas e das cadeias produtivas.
É aqui que vale olhar para o licenciamento ambiental por outro ângulo. Ele não foi criado como política climática, mas obrigou empreendimentos a conhecer seus impactos, acompanhar emissões, efluentes e resíduos, estabelecer controles e produzir informação sobre o próprio desempenho. Existe valor econômico no que fomos obrigados a aprender a medir.
Isso não quer dizer que a complexidade do sistema brasileiro seja uma virtude. Processos longos, competências que se sobrepõem, pouca previsibilidade e exigências desproporcionais ao risco real não protegem mais o meio ambiente, apenas geram ineficiência. A oportunidade está em separar burocracia de boa governança, preservando a capacidade técnica que o país construiu e eliminando o que não entrega resultado ambiental.
Essa distinção ganha peso quando comparamos o Brasil com o restante da América Latina, onde os países estão em estágios muito diferentes de regulação, estrutura institucional e disponibilidade de dados ambientais. Alguns poderão montar sistemas novos, mais digitais e menos burocráticos. O Brasil tem décadas de prática acumulada. Nossa vantagem não será ter mais regras, e sim transformar essa maturidade em eficiência, previsibilidade e capacidade de comprovar o que se faz.
Isso se torna ainda mais relevante à medida que comércio, indústria e meio ambiente passam a andar juntos. O acordo entre Mercosul e União Europeia, assinado em janeiro de 2026, cria um mercado de cerca de 720 milhões de pessoas, e aproximadamente 92% do valor das exportações brasileiras de bens para o bloco europeu será beneficiado pela redução de tarifas. Mas tarifa menor não garante acesso. A União Europeia também está criando regras que exigem rastreabilidade, origem e desempenho ambiental dos produtos. O CBAM, taxa sobre o carbono contido em determinados produtos importados, está em regime definitivo desde 2026. A diplomacia pode abrir mercados, mas será a capacidade de demonstrar como se produz que permitirá ocupá-los.
Um caso recente mostra como isso funciona na prática. Ao analisar uma operação industrial, identificou-se a necessidade de trocar uma caldeira, uma decisão tomada por eficiência e não por estratégia de carbono. O novo equipamento tem capacidade cerca de 50% maior e, mesmo assim, reduziu em torno de 25% o consumo de biomassa. Como resultado, estimou-se uma queda de aproximadamente 12,5% nas emissões associadas à operação e de 41% na intensidade de carbono, ou seja, na quantidade emitida para cada unidade produzida.
O mais importante, porém, é o caminho percorrido. O monitoramento revelou uma ineficiência, o dado orientou a engenharia, a engenharia justificou o investimento e a operação passou a gastar menos recursos e emitir menos. Não foi preciso começar pelo carbono para chegar a ele.
Isso também ajuda a entender o mercado de carbono. Antes de dar preço a uma tonelada evitada, existe uma etapa muito concreta: conhecer a própria operação, saber onde, quanto e por que se consome e se emite. Sem medição consistente, não há como comprovar eficiência nem redução.
Por isso, o licenciamento pode ser visto também como ferramenta de gestão. Não porque mais exigências gerem, por si só, melhores resultados, mas porque um sistema bem desenhado organiza informação, antecipa riscos e transforma monitoramentos e condicionantes em conhecimento útil para a empresa. A Lei Geral do Licenciamento Ambiental abre espaço para esse amadurecimento ao colocar eficiência, transparência e segurança jurídica entre suas diretrizes. O desafio será simplificar sem empobrecer a informação.
Um sistema moderno deveria pedir menos dados irrelevantes e extrair mais valor dos relevantes: diferenciar níveis de risco, integrar bases de dados, evitar duplicidades e devolver à empresa, como conhecimento sobre sua operação, aquilo que nasceu como obrigação. Assim, regulação e competitividade deixam de ser lados opostos. Uma regulação bem conduzida define parâmetros, melhora a qualidade da informação e permite comprovar desempenho, algo cada vez mais decisivo para acessar mercados, crédito e cadeias globais, que passam a olhar não só o que a empresa produz, mas como produz.
Talvez esteja aí uma oportunidade brasileira. Além de exportar equipamentos e tecnologia ambiental, o Brasil pode compartilhar sua curva de aprendizagem: décadas de experiência em monitorar impactos, estruturar indicadores, produzir evidências e conectar desempenho ambiental à operação industrial. Não se trata de exportar burocracia, mas o conhecimento que acumulamos com ela. Para uma América Latina que busca mais espaço nas cadeias globais, essa experiência pode ser um ativo competitivo.
Produzir bem continuará sendo essencial. Saber medir e comprovar como se produz será cada vez mais parte do valor do que produzimos.
Sobre a autora
Fernanda Faret é advogada e executiva do setor ambiental, com atuação em infraestrutura, saneamento, regulação e desenvolvimento sustentável. É presidente da Ambix Ambiental, ecossistema de serviços ambientais com atuação no Brasil e no Paraguai, que integra consultoria, engenharia, análises laboratoriais, gestão de resíduos, monitoramento ambiental, descarbonização e soluções de economia circular. Atua na estruturação de projetos públicos e privados e em temas de governança ambiental e climática. Foi agraciada com a Ordem do Mérito Juscelino Kubitschek (Ordem JK) por sua contribuição à sustentabilidade e à gestão ambiental.
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Fonte: umsoplaneta