Traumann avalia que Lula paga o preço da proteção a Alexandre de Moraes
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – O jornalista e analista político Thomas Traumann avalia que o presidente Lula está pagando eleitoralmente o preço da associação construída nos últimos anos entre seu governo e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Em análise publicada pelo jornal O Globo, Traumann sustenta que a crise envolvendo a Corte tornou-se um componente relevante da eleição presidencial e contribuiu para o resultado apertado do primeiro turno.
Segundo o analista, Flávio Bolsonaro chega ao segundo turno em posição politicamente fortalecida após terminar a primeira etapa da eleição à frente de Lula. Traumann cita ainda o desempenho do PL nas eleições para o Congresso e as vitórias obtidas por candidatos aliados nos estados como elementos que reforçaram o campo bolsonarista.
A interpretação sobre o peso de Moraes na campanha acompanha uma tese que Traumann vinha desenvolvendo antes da votação. Em setembro, ele publicou análises intituladas “Moraes é Lula. Mendonça é Bolsonaro”, “Decisão de Mendonça transforma Moraes em personagem central das eleições” e “O STF pode decidir a eleição”.
O preço da crise no Supremo
Na avaliação apresentada por Traumann, Lula acabou arcando com parte do desgaste produzido pela crise de credibilidade do STF. O caso ganhou dimensão eleitoral especialmente depois das revelações envolvendo Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Lula, no entanto, adotou publicamente uma posição mais crítica ao Supremo ao longo da campanha. Em setembro, afirmou que Moraes, André Mendonça ou qualquer outro ministro deveria responder caso fosse comprovada alguma irregularidade. “Se o Alexandre de Moraes é culpado, ele tem que pagar. Se o Mendonça é culpado, ele tem que pagar”, declarou o presidente.
Lula também afirmou que ninguém pode utilizar um cargo público em benefício pessoal e defendeu mudanças no sistema de Justiça. A imprensa registrou ainda que setores do governo já identificavam, meses antes da eleição, o risco político da associação entre Lula e Moraes.
A tese de Traumann, portanto, é uma interpretação política: apesar das tentativas posteriores de Lula de estabelecer distância em relação ao ministro, a identificação construída anteriormente teria produzido consequências eleitorais.
Polarização permanece no centro da política
Para Traumann, o primeiro turno mostrou também que a polarização entre lulismo e bolsonarismo permanece como o principal eixo organizador da política brasileira. O resultado teria reduzido novamente o espaço eleitoral disponível para projetos de centro e para a direita tradicional.
O jornalista considera que Lula terá uma campanha difícil pela frente e precisará promover mudanças relevantes para disputar os eleitores ainda disponíveis. Em sua análise, a campanha do primeiro turno foi desorganizada, excessivamente apoiada na trajetória pessoal do presidente e pouco conectada às preocupações cotidianas de parte do eleitorado.
Traumann argumenta que a tarefa se torna mais complexa porque diversas medidas de forte apelo popular já foram apresentadas antes da primeira votação. Para buscar uma virada, seria necessário, segundo ele, reorganizar a campanha, rever a equipe e concentrar a comunicação nos problemas concretos apontados pelos eleitores.
Tarcísio e o papel de São Paulo
Outro personagem considerado importante pelo analista é o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Traumann avalia que um envolvimento intenso de Tarcísio na campanha de Flávio Bolsonaro poderia contribuir para ampliar a votação do candidato no maior colégio eleitoral do país.
Essa participação, porém, envolveria uma equação política própria para o governador paulista, uma vez que o fortalecimento nacional de Flávio Bolsonaro pode interferir nos projetos futuros de outras lideranças da direita.
Caso Master e o novo Congresso
A análise chama atenção ainda para o desempenho eleitoral de políticos associados a Daniel Vorcaro. Apesar das controvérsias decorrentes das investigações sobre o Banco Master, vários nomes relacionados ao banqueiro conseguiram se reeleger ou avançar para o segundo turno, segundo Traumann. Entre as exceções citadas está Ciro Nogueira.
O resultado das eleições para o Senado também entra no radar do Supremo. O crescimento da representação da direita pode alterar a correlação de forças na Casa responsável constitucionalmente pelo julgamento de pedidos de impeachment de ministros do STF.
A própria crise envolvendo Moraes e o Master já havia levado Lula a defender publicamente uma investigação transparente. Mais recentemente, o presidente apoiou o pedido de vista de Flávio Dino no processo relacionado às conexões entre integrantes do Supremo e o banco, argumentando que todas as denúncias deveriam ser devidamente esclarecidas.
Para Traumann, a eleição presidencial entra, assim, em sua etapa decisiva entrelaçada a uma disputa institucional mais ampla. Além da reorganização das campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro, estarão no centro da agenda política as investigações do caso Master, a relação do novo Congresso com o Supremo e propostas de forte impacto social, entre elas a redução da jornada de trabalho.
Fonte: Brasil 247