“É a economia, estúpido!”, já ensinou um velho marqueteiro dos EUA

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Publicado em 06 de Outubro de 2026 às 03:00

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A frase que está no título da coluna foi cunhada por James Carville, 81 anos, estrategista da campanha presidencial de Bill Clinton, Estados Unidos, em 1992. Ele colocou um cartaz, com a frase, no comitê de campanha do então presidenciável Democrata, que disputava a eleição contra George Bush, que estava tentando se manter na Casa Branca. A intenção era focar nas dificuldades financeiras enfrentadas pela população (o PIB dos EUA vinha de uma recessão) e não deixar o debate eleitoral escorregar para os demais temas políticos. Como sabemos, Clinton foi eleito em 1992 e reeleito em 1996.

Corta para 4 de outubro de 2026, eleições brasileiras. O presidente Lula, do alto de toda a sua popularidade, ficou atrás do oposicionista Flávio Bolsonaro no primeiro turno das eleições presidenciais em sua tentativa de reeleição. Os ruídos políticos são vários no Brasil, ainda mais em tempos de redes sociais e de Judiciário em crise, mas as questões econômicas não podem ser desconsideradas. Muito embora a economia brasileira viva tempos de baixo desemprego, inflação abaixo dos 5% e PIB crescendo, as taxas de juros praticadas no país estão, desde 2022, em dois dígitos, entre as mais altas do mundo. Isso machuca muito as famílias e as empresas.

Por que chegamos até aqui e não conseguimos sair? O desajuste das contas públicas (desde meados da década passada o país coleciona déficits, ou seja, gasta sistematicamente mais do que arrecada) é o principal fator. Além disso, falta perspectiva de melhora, não abrindo espaço para os juros caírem de forma sustentada. Repare que, ao longo do terceiro mandato do presidente Lula, a dívida pública brasileira saiu, em 2023, de 73,8% do PIB e fechará 2026 em 83,7%. Um aumento de 10 pontos percentuais em quatro anos não é brincadeira! O governo federal precisa de empréstimos constantes para fechar as suas contas. Quem empresta (os investidores de títulos do Tesouro), diante do cenário de endividamento crescente do Brasil, cobra mais juros por isso, e aí temos um efeito dominó economia afora.  

O que aconteceu, nesta segunda-feira (5), no mercado financeiro brasileiro, após Flavio Bolsonaro ter ficado à frente de Lula no domingo, merece ser observado com atenção, deixando, se possível, as paixões políticas de lado. É claro que até o asfalto da avenida Faria Lima (endereço mais famoso dos bancos e casas de investimento de São Paulo) sabe que os operadores do mercado financeiro preferem praticamente qualquer candidato quando o assunto é a comparação com Lula e o PT. Óbvio que o furor do primeiro dia após a primeira rodada eleitoral tem muito disso, mas não é só isso. O Ibovespa (principal índice do mercado acionário brasileiro) chegou a superar incríveis 9%, e a desvalorização do dólar em relação ao real superou os 4%. Os juros futuros (expectativa de como eles estarão lá na frente) despencaram. Os contratos de 2033, por exemplo, caíram 8,5%.  

O que explica o forte movimento? Muito embora o segundo turno só esteja começando e Flávio Bolsonaro nem tenha dado os detalhes de seu plano de ajuste, a linha de atuação dos economistas que estão na sua campanha – liberais que defendem um orçamento menor e mais flexível – e a perspectiva um pouco mais concreta de mudança no Palácio do Planalto fizeram as expectativas futuras de juro caírem violentamente nesta segunda-feira. Vale lembrar que o governo de Jair Bolsonaro, pai de Flávio, também tinha um receituário de enxugamento fiscal e chegou a colocar algumas ações em prática, mas acabou cometendo graves infrações fiscais, caso, por exemplo, da PEC Kamikaze. Em que pese tudo isso, o fato é que os agentes de mercado enxergam na candidatura de oposição a Lula uma possibilidade maior de contenção das despesas e, consequentemente, de juros mais baixos ali na frente. Isso já começou a ser precificado.

Vamos voltar à economia real. De cada dez famílias brasileiras, oito (82%) estão endividadas, o maior nível desde o início da série histórica da Confederação Nacional do Comércio. A quantidade de pedidos de recuperação judicial de empresas cresceu 66% nos últimos três anos no Brasil, de acordo com a consultoria RGF. As elevadas taxas de juros estão intimamente ligadas a estes indicadores ruins, afinal, mesmo que a pessoa/empresário queira, fica muito mais difícil colocar os débitos em dia, o custo do dinheiro é muito elevado. Além disso, trata-se de uma trava quase que intransponível para um crescimento maior, mais saudável e mais sustentado do PIB, que vem via investimentos (quase sempre financiados). Antes, isso era papo mais restrito a empresários de maior porte, mas a digitalização da economia e o avanço do empreendedorismo fez a cena mudar. São milhões de microempreendedores que querem acessar crédito, melhorar de vida, mas estão travados pelos juros.

Isso, claro, cai na conta do governo. É verdade que o desemprego está baixo, que a inflação está longe de seus piores picos e que o PIB, mesmo abaixo do potencial, está crescendo, mas a sensação não é necessariamente de prosperidade e bem-estar. As elevadas taxas de juros estão intrinsecamente ligadas a isto. Lula, apesar de se dizer em uma frente ampla, ignorou solenemente os bons economistas que o apoiaram em 2022. Pode ser que, quatro anos depois (e ainda sob juros bem altos), pague caro por isso.

A economia, como ensinou James Carville, explica muita coisa.

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Abdo Filho

Graduado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2005, como estagiario de Entretenimento e Cursos & Concursos. Entre 2007 e 2015, foi reporter da CBN Vitoria e da editoria de Economia do jornal A Gazeta. Depois, assumiu o cargo de macroeditor de Politica, Economia e Brasil & Mundo, ja no processo de integracao de todas as redacoes da empresa. Em 2017, tornou-se Editor de Producao e, em 2019, Editor-executivo.

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