Brasil busca se manter neutro na disputa entre EUA e China por minerais críticos
Por Victoria Lacerda — JOTA
O presidente da ApexBrasil, Laudemir André Müller, afirmou durante o JOTA Global , realizado em Nova York, no dia 23 de setembro, que o Brasil pretende se manter equidistante na disputa geopolítica entre Estados Unidos e China por minerais críticos. Assim, o país se manteria aberto a investimentos de ambos os lados, além da União Europeia, do Canadá e da Austrália.
Segundo Müller, essa postura reflete o objetivo central da nova Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), sancionada na semana anterior ao evento, que busca transformar o Brasil de exportador de commodities em produtor com capacidade industrial própria. “O que realmente queremos é construir essa indústria no Brasil. Todos os projetos que estão nesse objetivo são bem-vindos ao Brasil”, afirmou.
O presidente da ApexBrasil destacou que o país tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, mas responde por apenas 0,5% da produção global atual, o que torna o Brasil dependente de parceiros internacionais para desenvolver essa cadeia produtiva.
Müller contextualizou a disputa citando que a China concentra cerca de 70% da produção mundial de terras raras e a maior parte do processamento global, concentração que tem levado outros países a buscar diversificação. Em razão de uma possível dependência, a União Europeia estabeleceu por lei que nenhum país deve representar mais de 65% do fornecimento de um determinado material crítico, enquanto os Estados Unidos estabeleceram a meta de alcançar 90% de seu suprimento a partir de produção doméstica ou de países aliados.
“Como o presidente Lula disse, o Brasil não quer ser apenas um suporte de materiais raros. Queremos fazer parte da cadeia de valor, gerar riqueza, emprego, tecnologia e capacidade industrial em nosso próprio país”, afirmou.
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Nesse novo cenário, Müller disse que o papel da ApexBrasil está em identificar projetos de mineração e processamento no Brasil e conectá-los a investidores internacionais, com foco em três gargalos principais: capital, tecnologia e contratos de offtake (compra futura da produção), considerados essenciais para viabilizar novos projetos.
O presidente da ApexBrasil também detalhou o powershoring , termo que descreve a estratégia de atrair para o Brasil plantas industriais de alto consumo energético, aproveitando a matriz elétrica majoritariamente renovável do país, que, segundo ele chega a 90%.
EUA adotam política industrial inédita para diversificar minerais críticos
No mesmo painel, a diretora-executiva do Center for Critical Minerals Strategy, da organização SAFE, em Washington, Abigail Hunter, afirmou que o governo americano tem adotado uma postura de política industrial pouco habitual para os padrões dos Estados Unidos, com forte participação estatal no financiamento de projetos de minerais críticos. A priorização de minerais críticos como questão de segurança nacional começou ainda no primeiro governo Trump e se intensificou recentemente, após a China impor restrições severas à exportação de equipamentos e tecnologias usados para transformar terras raras em ímãs e motores.
Hunter afirmou que foi nesse contexto que o Brasil passou a ocupar papel relevante na estratégia americana de diversificação, citando um projeto específico de produção de terras raras no país que antes enviava sua produção para a China. A executiva também discutiu os principais riscos que ainda travam o avanço de projetos de minerais críticos globalmente, como risco tecnológico, risco de preço e risco de offtake , considerados centrais para os instrumentos de apoio que o governo americano tem utilizado.
Os desafios da Venezuela e do Brasil para atrair investimentos em minerais
O ex-embaixador dos Estados Unidos na Venezuela, James B. Story, hoje atuando com investidores privados na América Latina e na África, traçou uma comparação direta entre os dois países para ilustrar os desafios do setor na região. Story falou que a Venezuela tem uma das maiores reservas minerais do mundo, mas a instabilidade institucional e a presença de grupos armados ilegais em áreas de mineração tornam o país pouco atrativo para investimentos de longo prazo no setor, apesar do crescente interesse dos Estados Unidos na região.
“O que temos na Venezuela é parceria sem instituições. O que temos no Brasil é instituição sem parceria, ou parceria nascente”, afirmou.
Sobre o Brasil, o ex-embaixador afirmou que as principais dúvidas de investidores giram em torno da instabilidade política e eleitoral, do preço dos contratos de offtake e da capacidade do país de reter parte do processamento mineral internamente, em vez de apenas exportar matéria-prima.
O JOTA Global teve realização do JOTA , com patrocínio de ApexBrasil, DLA Piper e Vale, suporte especial do Einstein Hospital Israelita e parceria institucional da Dinâmica.
Fonte: JOTA