Quando a máquina não basta: a derrota estratégica de Lula no primeiro turno
Por Wilton Gomes — Brasil 247
A história militar está repleta de exércitos maiores derrotados por exércitos menores. Raramente perderam por falta de homens ou de recursos; perderam por erro de desenho, por escolherem mal o terreno, por posicionarem mal os aliados, por concentrarem forças onde elas não eram necessárias e deixarem desguarnecidas as frentes decisivas.
Na política eleitoral, a lógica é a mesma. A máquina pública oferece visibilidade, agenda, capacidade de entrega e uma rede de alianças regionais, mas não substitui a estratégia. Ministérios, programas e emendas só se convertem em voto quando existe um plano que diga onde disputar cada eleitor, com quem e em qual palanque. O primeiro turno sugere que esse plano falhou justamente nas frentes que mais importavam.
São Paulo é o exemplo mais eloquente. No maior colégio eleitoral do país, com mais de 34 milhões de eleitores, a disputa pelo Governo resumiu-se, na prática, a dois nomes: o governador Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad. Os demais candidatos, todos de pequenas legendas de esquerda, não chegaram a 1% dos votos cada um. O desfecho foi a reeleição de Tarcísio já no primeiro turno, com quase 63% dos votos válidos.
É inevitável perguntar como um partido que controla a máquina federal não foi capaz de colocar outros atores competitivos na disputa. Em eleições de dois turnos, candidaturas aliadas de centro ou de centro-direita cumprem uma função bem conhecida: fragmentam o voto do favorito, alcançam eleitores que jamais votariam no PT e empurram a decisão para uma segunda rodada. Um segundo turno em São Paulo manteria Tarcísio ocupado com sua própria eleição, longe do palanque nacional de Flávio; daria a Lula mais três semanas de presença e de estrutura no estado; e abriria espaço para novas alianças com os candidatos eliminados. A polarização pura entre Tarcísio e Haddad entregou ao adversário exatamente o cenário que lhe convinha: uma eleição estadual resolvida cedo e um governador livre para trabalhar pela chapa presidencial.
O mesmo raciocínio se aplica à disputa pelo Senado paulista. Estavam em jogo duas vagas, e o campo governista apostou em duas ex-ministras, Simone Tebet e Marina Silva. Ambas foram derrotadas por Guilherme Derrite e André do Prado, que ficaram com cerca de 30% dos votos válidos cada. É verdade que, votando cada eleitor em dois nomes, lançar duas candidaturas não seria, por si só, um erro. O equívoco esteve na combinação.
Tebet e Marina falam essencialmente ao mesmo público, o eleitor urbano, moderado, de centro-esquerda, de modo que uma pouco acrescentava à outra: a chapa somou sobreposição, e não ampliação. Ambas, além disso, construíram suas trajetórias longe de São Paulo, uma em Mato Grosso do Sul, a outra no Acre, enquanto os adversários eram figuras enraizadas na política estadual, um ex-secretário de Segurança Pública e o presidente da Assembleia Legislativa. A direita, por sua vez, fez o movimento inverso: com a desistência de Ricardo Salles na semana anterior à eleição, após acordo com o governador, concentrou seus votos em dois nomes. Teria sido mais racional combinar uma candidatura do campo progressista com outra de perfil distinto, capaz de disputar o interior e o eleitor conservador moderado, ou negociar com o centro uma candidatura única e competitiva em troca de apoio em outra frente.
Fora de São Paulo, o problema se repetiu sob outra forma. No Sul e no Centro-Oeste, o mapa era conhecido muito antes da eleição. As pesquisas indicavam Flávio à frente em Santa Catarina, no Paraná, em Mato Grosso, em Mato Grosso do Sul, em Goiás e em boa parte do Norte, e as urnas estaduais confirmaram a força do campo conservador, com governadores eleitos no primeiro turno por margens expressivas, como Jorginho Mello em Santa Catarina e Eduardo Riedel em Mato Grosso do Sul, ambos acima de 67%. Nesses estados, o objetivo racional nunca foi vencer, mas perder por menos.
Numa eleição nacional decidida por poucos pontos, cada ponto de margem reduzido em Santa Catarina ou no Paraná vale tanto quanto um ponto conquistado no Nordeste. Isso exigia uma estratégia própria: apoiar candidatos de centro com chances reais, em vez de candidaturas de baixo teto; falar de agronegócio, logística e crédito rural com interlocutores do próprio setor; e confiar a porta-vozes locais, aceitos pelo eleitor conservador moderado, a tarefa que figuras identificadas com o PT nacional não conseguiriam cumprir. O governo dispunha de instrumentos para isso, como ministérios, bancos públicos, obras e uma ampla base parlamentar. O resultado sugere que esses instrumentos não foram organizados para a tarefa de conter a vantagem de Flávio onde ela era maior.
Mesmo onde Lula foi bem, a estratégia deixou votos sobre a mesa. Pernambuco é o caso mais ilustrativo. O Presidente venceu com folga no Estado, como era de se esperar em seu berço político, mas a escolha do palanque estadual pode ter limitado o teto de sua votação. Ao se alinhar ao aliado clássico, João Campos, do PSB, o campo lulista transformou a disputa pelo governo em um confronto direto com a governadora Raquel Lyra, do PSD, cuja gestão vinha se aproximando da base do governo federal. O resultado foi a reeleição de Raquel já no primeiro turno, com cerca de 53% dos votos válidos, contra aproximadamente 45% de Campos. Mais do que a derrota do aliado, importa o que ela revela: uma parcela expressiva do eleitorado pernambucano, inclusive eleitores simpáticos a Lula, preferiu a governadora, e a polarização local pode ter afastado do presidente justamente o eleitor moderado do interior que Raquel representa. Uma postura de palanque duplo, ou ao menos de neutralidade cuidadosa, permitiria a Lula somar os dois eleitorados em vez de dividi-los. Num estado em que cada ponto a mais compensa margens perdidas no Sul, a fidelidade às alianças tradicionais custou caro.
Seria injusto ignorar os limites dessa leitura. A vantagem de Tarcísio era tão ampla que dificilmente outras candidaturas lhe tirariam os mais de doze pontos necessários para forçar o segundo turno. Partidos de centro têm vontade própria e, em muitos estados, preferiram a companhia de governadores fortes à de um governo federal desgastado. E há quem sustente, com bons argumentos, que eleições nacionais se decidem mais pela economia, pela avaliação do governo e pela polarização do que por escolhas de coligação. Nenhuma dessas objeções, porém, elimina o argumento central: numa disputa decidida por quatro pontos, erros de desenho nas principais frentes podem ser a diferença entre liderar e correr atrás.
O primeiro turno de 2026 deixa, assim, uma lição que vai além deste pleito: a máquina pública é um recurso, não uma estratégia. Como na guerra, as grandes batalhas não se perdem apenas no dia do confronto; perdem-se antes, na escolha do terreno e dos aliados. O segundo turno dirá se a lição foi aprendida a tempo.
Fonte: Brasil 247