Bem-vindos às eleições mais racistas de Israel
Por David Issacharoff — Esquerda Diário

Netanyahu pode estar alimentando freneticamente o racismo antiárabe e a islamofobia, mas são seus oponentes que aceitaram suas regras étnicas do jogo.
Reproduzimos, para o interesse de nossas leitoras e leitores, um artigo publicado originalmente no jornal israelense Haaretz, de autoria do jornalista David Issacharoff, que explica como todo o regime do Estado sionista está, neste momento, imerso em uma campanha eleitoral marcada pelo racismo, tendo como ponto de partida a decisão da Corte Eleitoral de proibir a participação de partidos e dos principais candidatos árabe-israelenses, decisão que permanece sujeita ao veredito do Tribunal Superior de Justiça.
No fim de semana, enquanto dirigia pela rodovia central de Tel Aviv, vi uma frase em árabe — também escrita em hebraico — em um outdoor: “Yalla bara!” – que significa “Fora!”.
Ao lado da frase, aparecia a imagem de Sami Abu Shehadeh, líder de um partido árabe que todos os partidos judaicos do Knesset pretendem inabilitar devido à sua retórica pró-palestina após o 7 de outubro. O outdoor pertence ao ultranacionalista Itamar Ben-Gvir, que, na parte inferior do anúncio, vangloria-se de ter impedido a entrada de um político árabe no parlamento.
Gritar “Bara!” é um estereótipo antiárabe muito comum em Israel, inclusive entre legisladores de direita no Knesset. Agora, isso se transformou em um anúncio eleitoral que dá as boas-vindas à eleição mais racista da história de Israel até o momento.
O outdoor coroou uma semana de “sucesso” para o racismo. A Comissão Eleitoral Central de Israel, dominada pela coalizão do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, votou a favor de proibir a participação de todos os partidos árabes — uma decisão que agora precisará ser ratificada pela Suprema Corte.
A apenas um mês das eleições israelenses, a questão étnica dita o ritmo. Candidatos e líderes de partidos do bloco pró-Netanyahu, que defenderam a “aniquilação total” e pediram abertamente o assassinato em massa de civis em Gaza, são bem-vindos nas cédulas eleitorais. Por outro lado, candidatos árabes que condenaram veementemente tanto os eventos de 7 de outubro quanto o Hamas precisam de autorização judicial para figurar nelas.
Mas não vamos atribuir todo o mérito a Ben-Gvir (ministro da Segurança Nacional, de extrema-direita e supremacista judaico). É a campanha de Netanyahu que alimenta freneticamente essa mistura de racismo antiárabe e islamofobia. Sua principal mensagem eleitoral: “Gadi Eisenkot formará governo com os partidos árabes” (Eisenkot é o principal líder da oposição a Netanyahu e ex-chefe do Estado-Maior das “Forças de Defesa de Israel” — FDI, nota da tradução em espanhol).
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Netanyahu dobrou a aposta no domingo, publicando um vídeo gerado por IA que mostra uma reunião do governo com Eisenkot, seus aliados judeus e Mansour Abbas. Enquanto os políticos judeus estão sentados ao redor da mesa, o líder árabe, naturalmente, está com os pés sobre ela, fumando um narguilé. O secretário propõe votações sobre uma ofensiva das FDI na Cisjordânia e a judaização do norte e do sul de Israel. Abbas, envolto em fumaça, veta as propostas. Isso evoca uma lógica familiar nas caricaturas antissemitas: um estereótipo étnico que exerce poder sobre a nação.
אז לא https://t.co/wk5YN8cZJz
— Benjamin Netanyahu – בנימין נתניהו (@netanyahu) September 27, 2026
Os fatos nunca importaram tão pouco. O partido Lista Árabe Unida (UAL, na sigla em inglês), de Abbas, integrou a coalizão Bennett-Lapid num momento em que a expansão dos assentamentos continuava e Israel realizava operações militares em Gaza, em agosto de 2022. O partido deixou de lado qualquer agenda nacional palestina e comprometeu-se a focar exclusivamente em questões civis, como o aumento vertiginoso dos homicídios em sua comunidade.
Mas e Eisenkot? Ele aceita a premissa de braços abertos. A acusação de Netanyahu transforma-se em seu compromisso. Na noite de sábado, ele reiterou que a UAL não faria parte de seu governo.
Os rivais judeus de Netanyahu deixaram isso claro na noite de sábado, quando os cinco se reuniram para coordenar seus esforços eleitorais e garantir que seu bloco permanecesse exclusivamente judaico. Ao aceitarem essas regras do jogo baseadas na etnia, eles compartilham a responsabilidade com Netanyahu. O primeiro-ministro pode ter alimentado esse racismo, mas agora ele prospera no ecossistema político que ele mesmo criou. Substituí-lo não bastará para sanar essa situação.
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Yair Golan, o “esquerdista” do bloco judaico anti-Bibi, agiu corretamente na manhã de domingo ao afirmar que acredita que os árabes deveriam participar do governo. No entanto, teve de esclarecer, logo em seguida, que falava apenas em nome próprio e que essa não era a posição de seus aliados.
Estas eleições marcam um ponto de virada crucial na trajetória do país rumo à formação de um etnoestado, uma tendência que se evidencia nas palavras e nos atos de seu sistema político dominante. O racismo avalizado pelo Estado em Israel não é novidade, mas nunca antes havia sido expresso tão abertamente pelos líderes do país nem aceito por seus rivais. A exigência de que os árabes vão embora para, por enquanto, às portas do Knesset.
Versão em espanhol no La Izquierda Diario. Tradução para português por Abayomi Abebe.
Fonte: Esquerda Diário