JOTA Principal | Flávio toma dianteira impulsionado por crise no STF, desgaste com corrupção, violência, preços altos e antipetismo

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Por Felipe Seligman — JOTA

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Numa disputa eleitoral em que os principais protagonistas foram o Supremo Tribunal Federal e as mensagens do celular de Daniel Vorcaro, tanto a campanha de Lula como a de Flávio Bolsonaro tomaram muitas decisões ao sabor dos acontecimentos.

Não há um fator único que explique o surpreendente resultado que saiu das urnas neste domingo (4).

Mas a combinação da crise no Supremo, do desgaste com a corrupção, dos preços altos, do endividamento das famílias, da preocupação com a violência — e do antipetismo que segue muito vivo — impulsionaram o candidato do PL a tomar a dianteira, Marianna Holanda e Fabio MuraKawa analisam nas três primeiras notas.

Ele ajudou a levar consigo governadores, senadores e deputados da direita que registraram votações recordes, em uma onda conservadora por todo o país.

Boa leitura e boa semana.

O PONTO CENTRAL

1. Desejo de mudança

A eleição deste domingo (4) mostrou que havia no país um forte desejo de mudança que a campanha de Lula não conseguiu perceber — maior, inclusive, do que as pesquisas foram capazes de medir, Marianna Holanda e Fabio MuraKawa escrevem no JOTA PRO Poder.

  • Carregando a herança dos votos do pai e falando o que o eleitor queria ouvir, Flávio Bolsonaro conseguiu transformar em voto esse ambiente difuso de insatisfação com o establishment de Brasília.

Por que importa: De modo surpreendente, o candidato do PL terminou o primeiro turno à frente de Lula, com cerca de 47% dos votos válidos contra pouco menos de 45% do presidente, patamar que torna praticamente impossível uma virada no segundo turno.

  • Forças concomitantes permitiram esse cenário — a crise no Supremo, o desgaste com a corrupção, os preços altos, o endividamento das famílias, a preocupação com a violência e o antipetismo que segue muito vivo.
  • Flávio não deu uma resposta para cada um desses problemas, bastou conseguir se apresentar como o candidato contra quase tudo o que parte relevante do eleitorado passou a rejeitar.
  • Custo de vida, corrupção e segurança pública estiveram entre as preocupações que permearam a campanha.

Nesse ambiente, é difícil encontrar episódio mais disruptivo do que a crise aberta no Supremo a partir do celular de Daniel Vorcaro.

  • A divulgação do relatório da Polícia Federal sob a relatoria de André Mendonça atingiu Alexandre de Moraes e devolveu força a uma bandeira da direita que havia perdido fôlego: o impeachment de ministros da Corte.
  • Moraes contestou as acusações e a maneira como o material veio a público, mas, do ponto de vista político, o caso já havia mudado de dimensão.
  • A crise entre os ministros passou a ocupar o centro da campanha.

O desejo de mudança que apareceu nas urnas não se dirige, portanto, apenas ao governo.

  • Há também uma insatisfação com o funcionamento de Brasília e, particularmente, com o protagonismo adquirido pelo Supremo na vida política.
  • Flávio soube capitalizar isso.
  • O tal “voto útil” que ele vinha pregando nos últimos dias, num movimento de desidratar os demais adversários da direita, foi reformulado para incorporar o sentimento anti-establishment e se tornou: “voto de protesto”, termo que o senador repetiu à exaustão nos últimos dias.

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2. Desgaste de material

Lula discursa após a confirmação do resultado neste domingo (4/10) / Crédito: Gabriela Pereira/Enquadrar/Estadão Conteúdo

Para Lula, o problema era maior porque a crise institucional se somava a dificuldades muito mais concretas, Holanda e MuraKawa prosseguem na análise.

  • Aos 80 anos e em sua sétima disputa pela Presidência, o petista enfrentava o desgaste natural de quem já governou o país por muitos anos e precisava convencer o eleitor de que ainda representava uma resposta para o futuro.
  • Ao mesmo tempo, havia uma sensação persistente de que a vida continuava difícil.

🔭 Panorama: A melhora de alguns indicadores econômicos não eliminou a percepção provocada pelos preços altos, pelo endividamento e pela insegurança.

  • A campanha recebeu sinais desse problema ao longo das últimas semanas, mas nem sempre encontrou a linguagem adequada para enfrentá-lo.
  • Lula falou muito de sua biografia, do que seus governos fizeram e de grandes embates institucionais.
  • Flávio, com frequência, escolheu uma comunicação mais elementar.
  • Enquanto o presidente tentava mostrar resultados econômicos, o adversário entrava num supermercado com uma nota de R$ 100 e mostrava diante das câmeras quanto ela conseguia colocar no carrinho.

A segurança pública talvez tenha sido o exemplo mais claro dessa diferença.

  • Lula apostou na PEC da Segurança Pública e passou a defender que, depois de aprovada a mudança constitucional, o governo poderia criar um ministério específico para a área.
  • É uma resposta que depende de explicar desenho institucional, atribuições dos entes federativos e mudanças constitucionais.
  • Já Flávio falava em reduzir a maioridade penal, endurecer penas e enquadrar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas.
  • As propostas podem ser discutidas quanto à eficácia e às consequências, mas cabiam numa frase e eram imediatamente compreensíveis.

Flávio chegou a disputar com Lula uma das palavras escolhidas pelo presidente para definir a eleição.

  • O petista falava em soberania para confrontar as pressões do governo Donald Trump sobre o Brasil.
  • Flávio procurou trazer o conceito para o cotidiano. Soberania, dizia, era o cidadão poder ficar com seu celular, seu carro e sua casa e viver em um território em que quem manda é o Estado, não uma facção.
  • Era a diferença entre uma discussão de política externa e outra que procurava alcançar a experiência de quem tem medo de ser assaltado na rua.

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3. Multifatorial

Sessão eleitoral em Samambaia Norte (DF) / Crédito: Leobark Rodrigues/TSE

Nada disso permite atribuir o resultado a um único fator ou afirmar que cada uma dessas propostas transferiu votos diretamente para Flávio, Marianna Holanda e Fabio MuraKawa continuam.

  • O que as urnas permitem enxergar é uma convergência.
  • O candidato do PL conseguiu juntar numa mesma candidatura o antipetismo, a rejeição ao Supremo, o incômodo com a corrupção e a sensação de que o dinheiro rende pouco, a vida está difícil e a rua está insegura.
  • E, diante de um noticiário dragado pelas crises envolvendo a Corte, a Polícia Federal e o mundo político, a discussão sobre as propostas dos candidatos ficou ao largo.
  • Flávio pôde navegar sem ser questionado sobre o que poderia expô-lo ou arrastar para ele a rejeição de seu pai.

Lula chegou ao primeiro turno tentando convencer o país de que havia razões para preservar o caminho dos últimos quatro anos.

Flávio chegou dizendo, de maneiras diferentes, que Brasília e o país precisavam mudar.

  • Ficou evidente que havia mais gente disposta a ouvir essa mensagem do que o governo, a campanha petista e boa parte das pesquisas conseguiram enxergar.

4. O cenário nos estados

O Republicanos sai como grande vencedor da disputa pelo comando dos Executivos estaduais no primeiro turno, Beto Bombig escreve no JOTA .

Por que importa: Com as vitórias em primeiro turno de Tarcísio de Freitas (SP), Cleitinho Azevedo (MG) e Otaviano Pivetta (MT), o partido ligado historicamente à Igreja Universal do Rei de Deus comandará três estados estratégicos para o país em termos logísticos e econômicos.

  • Juntos, os três estados somam uma população estimada de 71,5 milhões de habitantes em 2026.
  • Esse contingente representa aproximadamente 33% de toda a população do Brasil.

Em outros dois estados, o Republicanos tem candidatos disputando o segundo turno: no Espírito Santo, onde Lorenzo Pazolini concorre com Ricardo Ferraço (MDB), e no Acre, onde Alan Rick enfrenta Mailza Assis (PP).

  • O partido ainda elegeu dois senadores: Evair de Melo (ES) e Mara Rocha (AC).

Já o PL governará a região Sul do país, formada pelos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

  • No Rio Grande do Sul, Luciano Zucco, vice-líder da oposição na Câmara, foi eleito governador.
  • Em Santa Catarina, Jorginho Mello se reelegeu…
  • …e, no Paraná, o senador Sergio Moro, ex-juiz da Lava Jato.
  • Juntos, eles concentram 31,4 milhões de habitantes, quase 15% do total de brasileiros.

O PL também disputará o segundo turno no Rio de Janeiro, após o TSE confirmar que os votos em Garotinho foram válidos.

  • A virada de Douglas Ruas sobre Eduardo Paes (PSD) foi uma das grandes surpresas do primeiro turno.
  • Caso os votos recebidos por Anthony Garotinho (Republicanos) fossem desconsiderados no cálculo dos percentuais da eleição, Ruas teria vencido no primeiro turno.
  • À noite, porém, o ministro Nunes Marques, presidente do TSE, decidiu que os votos em Garotinho são válidos — e, portanto, haverá segundo turno. Leia mais.

5. ⚡ Choque de realidade

As chances de votação da PEC do fim da escala 6×1 no Senado são baixas após o resultado do primeiro turno — até mesmo na avaliação de auxiliares de Lula, Marianna Holanda escreve no JOTA PRO Poder.

  • O início das discussões na Casa ainda está marcado para amanhã (6), mas a votação ainda era incerta.

O desempenho da direita no Senado e de Flávio na disputa presidencial farão o presidente da Casa, Davi Alcolumbre, recalcular a rota.

  • O rito normal para uma PEC são cinco sessões.
  • Se houver consenso, parlamentares até poderiam abreviar as discussões, o que é ainda mais improvável neste momento.
  • O senador Omar Aziz (PSD), que relatou o texto na CCJ, não deve nem mesmo ir a Brasília nesta semana.
  • Ele disputa o segundo turno para o governo do Amazonas.

JOTINHAS

6. Mais votados na Câmara e mais

Fonte: JOTA

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