Vinte anos depois de Uma Verdade Inconveniente, Al Gore vê 2026 como possível ponto de virada climático

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Vinte anos depois de Uma Verdade Inconveniente (An Inconvenient Truth) levar o alerta sobre as mudanças climáticas a um público global, Al Gore voltou a Nova York com uma avaliação que pende ora a preocupação e ora a otimismo. Durante a Climate Week NYC 2026, realizada no final de setembro, o ex-vice-presidente dos Estados Unidos afirmou que o mundo continua diante de riscos graves, mas que 2026 pode ser lembrado como o início de um ponto de virada positivo na resposta à crise climática.
A declaração foi feita em entrevista à Associated Press. Segundo Gore, há sinais de que o uso de carvão, petróleo e gás pode estar próximo de atingir um pico, enquanto a energia solar e outras fontes renováveis avançam. Ele, porém, ressaltou que os impactos do aquecimento global também estão se agravando. “Estamos em grave perigo”, afirmou Gore. Ao mesmo tempo, disse acreditar que existe a possibilidade de 2026 ser visto, no futuro, como o começo de um ponto de virada positivo.
A mensagem ganhou um significado especial neste ano porque 2026 marca duas décadas do lançamento de Uma Verdade Inconveniente. O documentário, dirigido por Davis Guggenheim e baseado na apresentação de Gore sobre a crise climática, estreou nos Estados Unidos em maio de 2006. Vinte anos depois, o próprio Gore fez um balanço do período e reconheceu que alguns aspectos da crise evoluíram de maneira pior do que esperava.
Em entrevista à Scientific American, Gore afirmou que os últimos 20 anos podem ser descritos, em suas palavras, como “o melhor dos tempos e o pior dos tempos”. De um lado, os impactos climáticos foram tão severos quanto os cientistas haviam alertado — e, em alguns casos, mais severos. De outro, houve avanços expressivos em tecnologias de energia limpa.
Ele destacou a redução do custo da energia solar, o desenvolvimento de baterias em escala de rede, a expansão da energia eólica e o crescimento dos veículos elétricos. Segundo Gore, essas tecnologias avançaram mais rapidamente do que ele imaginava quando o filme foi lançado.

O aniversário também foi marcado por um evento específico da Climate Week, realizado em 23 de setembro, chamado “An Inconvenient Truth: Then & Now”. Promovido pelo Climate Reality Project, organização sem fins lucrativos envolvida na educação e defesa relacionada às mudanças climáticas, fundada por Al Gore, o encontro discutiu duas décadas de políticas e avanços relacionados ao filme, além dos desafios atuais e dos próximos passos da ação climática.
O documentário também deu origem ao movimento que posteriormente se tornou o Climate Reality Project. De acordo com a organização, a rede criada a partir daquele trabalho reúne atualmente 4,5 milhões de pessoas em 196 países e territórios.
Em maio, ao escrever sobre os 20 anos do filme, Gore afirmou que inicialmente duvidava que sua apresentação sobre a crise climática pudesse se transformar em um filme de sucesso. Disse, porém, que nunca deixou de acreditar na capacidade da humanidade de enfrentar o problema.
O avanço das energias limpas
A principal razão para o otimismo de Gore está na transformação do setor energético. Durante a Climate Week, ele descreveu a situação como uma corrida entre, de um lado, os riscos e danos provocados pelo aquecimento global e, de outro, o avanço de alternativas limpas que estão se tornando mais baratas e competitivas.
Gore citou como exemplos a expansão da energia solar na África, o crescimento das fontes renováveis na geração de eletricidade dos Estados Unidos e o avanço das vendas globais de carros elétricos. Na entrevista à Scientific American, Gore afirmou que o mundo já dispõe das tecnologias necessárias para reduzir as emissões pela metade em dez anos, mas acrescentou que a transição não está ocorrendo com velocidade suficiente.
Essa ressalva é importante. O avanço das fontes renováveis não significa que os combustíveis fósseis já estejam sendo substituídos na velocidade necessária. Johan Rockström, diretor do Potsdam Institute for Climate Impact Research, concordou com Gore sobre o rápido crescimento e a queda dos custos das tecnologias limpas, mas observou que elas ainda estão, em grande medida, atendendo ao crescimento da demanda global por energia. Segundo ele, a curva de consumo de petróleo, gás e carvão ainda não foi revertida.
Em entrevista ao Guardian, ele disse ter ficado surpreso com a intensidade e a duração da reação da indústria de combustíveis fósseis e de seus aliados políticos. A avaliação ajuda a explicar por que, apesar do avanço tecnológico, Gore considera que a mudança ainda não ocorreu na velocidade necessária.
O Guardian também destacou que, apesar de a expansão das energias limpas ter ajudado a tornar menos prováveis algumas das projeções mais extremas de aquecimento que eram discutidas no passado, isso, no entanto, não significa que os riscos tenham desaparecido. A reportagem ressalta que o mundo continua caminhando para níveis de aquecimento considerados perigosos.
O risco dos pontos de inflexão
A expressão “ponto de virada” usada por Gore tem, portanto, dois sentidos na discussão atual. Por um lado, ele vê uma aceleração da adoção de tecnologias limpas, acompanhada por mudanças econômicas e sociais , podem fazer a transição energética ganhar velocidade. Mas, por outro, os pontos de inflexão climáticos, associados a outras mudanças, podem podem ampliar o aquecimento e dificultar a reversão de seus efeitos. Ele cita como exemplos de riscos o derretimento das grandes massas de gelo e transformações na Amazônia. A preocupação é que o avanço do aquecimento possa desencadear processos capazes de acelerar ainda mais as mudanças climáticas.
Parece, em sua opinião, que 2026 está no intervalo entre os dois tipos de ponto de inflexão , uma vez que há sinais de transformação econômica e tecnológica, mas também uma necessidade de acelerar a redução das emissões antes que os impactos climáticos se tornem ainda mais difíceis de controlar.
Um certo otimismo
Durante a Climate Week, Gore comparou a mobilização contra a crise climática a outros movimentos históricos, como os direitos civis, o combate ao apartheid e a luta pela igualdade das mulheres. Segundo ele, esses movimentos também passaram por períodos de desânimo antes de produzir mudanças.
A comparação não elimina, contudo, a urgência que ele atribui à questão climática. Na entrevista à AP, Gore afirmou que os eventos extremos estão ocorrendo com maior frequência e intensidade. Entre os exemplos citados pela reportagem estão ondas de calor e o colapso de uma geleira associado às inundações que mataram cerca de 1.300 pessoas no Nepal.
Outros especialistas ouvidos pela agência de notícias também combinaram otimismo tecnológico com preocupação sobre a velocidade da transição. Bill Hare, da Climate Analytics, afirmou que é possível ser otimista sobre o que as tecnologias limpas podem proporcionar e, simultaneamente, temer que a mudança esteja sendo atrasada. Michael Mann, da Universidade da Pensilvânia, defendeu a importância de evitar o fatalismo e o desengajamento.
Para Gore, portanto, a questão deixou de ser apenas se a humanidade possui alternativas aos combustíveis fósseis. O desafio é quanto tempo será necessário para colocá-las em escala e se essa transformação ocorrerá antes do agravamento dos impactos climáticos.
“Estamos muito próximos de um ponto de virada positivo”, afirmou Gore no evento de aniversário do filme. Contudo, deixou claro que esse resultado “está em nossas mãos”, ou seja, depende de vontade econômica, política e da sociedade.
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Fonte: umsoplaneta

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