Assessoria de imprensa gratuita – Como a esquerda fez a campanha de Flávio e ainda pediu curtida
Por Sara York — Brasil 247
Antonio Tabet disse em voz alta o que muita gente do campo progressista murmura desde domingo, e o disse com o humor que é, no Brasil, a forma mais honesta de dar notícia ruim, mas me interessa menos o diagnóstico dele do que a minha própria timeline, porque eu, LGBT, que não sigo uma única página de direita, fui informada de cada passo de Flávio ao longo da campanha pela esquerda, e não pela direita. Foi a esquerda que me mostrou o ato, a fala, o corte, a gafe e a agenda, sempre em tom de denúncia, com a indignação na frente e o compartilhamento atrás, de modo que quem pretendia combatê-lo trabalhou o tempo todo como assessoria de imprensa gratuita do adversário, sem perceber que o algoritmo não distingue o repúdio da adesão e entrega o mesmo alcance a quem grita contra e a quem aplaude. Cada postagem escandalizada era, para a máquina, um sinal de que aquele conteúdo merecia ser mostrado a mais gente, e a esquerda, em nome de alertar o país, passou semanas fazendo a distribuição que a campanha adversária não precisou pagar.
Escrevi sobre esse mecanismo em Programa de travesti: educação & mídia, sobre como a mídia e a indignação fabricam visibilidade, e descobri com certo espanto que meus leitores bolsonaristas leem mais do que meus parceiros feministas e pró-LGBTI, o que me entristece e que, passado o espanto, aprendi a ler como sintoma e não como acaso. No texto que publiquei sobre alianças, pactos e contratos, a partir de Kaës, trabalho com a ideia de que todo vínculo se sustenta sobre acordos que ninguém assina e todos cumprem, e o mais poderoso deles é o pacto denegativo, aquele pelo qual um grupo se mantém junto porque combinou não dizer certa coisa. Desconfio que o campo progressista firmou um pacto assim consigo mesmo, o de não admitir que indignar-se também é distribuir, que o clique de repúdio trabalha para o repudiado, e que o gesto de compartilhar o horror virou uma forma de pertencimento muito mais do que uma forma de política. Há ainda o que Piera Aulagnier chamou de contrato narcísico, em que o grupo confere ao sujeito um lugar na medida em que ele sustente o seu discurso, e é natural que quem me compra por lealdade, para marcar que está do meu lado, nem sempre me leia, porque a leitura poderia perturbar justamente aquilo que a compra confirma. Já o leitor que me é adverso, sem pacto algum que o proteja, vem ao texto para discutir e, nessa fricção, lê até o fim, grifa, volta e escreve de volta, e é por isso que ele me lê mais do que os meus.
O que esse pacto do não dito deixa fora da conversa é justamente o que Tabet apontou de outro ângulo e o que a urna cobrou. Insistiu-se em jingles com artistas consagrados quando o eleitor de hoje não se emociona com um nome ilustre no palanque, e se reconhece, ou não, na voz de alguém que parece falar de dentro da própria vida, enquanto a direita aprendeu o idioma veloz das redes, feito de cortes curtos, de microinfluenciadores e de um algoritmo que premia a identificação antes do argumento. Concentrou-se tudo numa figura presidencial, deixando que os quadros mais promissores migrassem para o Judiciário ou fossem consumidos pela gestão de crises, e chegou-se à eleição sem ter formado ninguém para a disputa majoritária, o que não se resolve em três semanas. Falou-se ao entregador, ao motorista de aplicativo, ao autônomo e ao pequeno empreendedor num idioma regulatório que soa a eles como mais uma instância de controle, quando a vida deles pede autonomia e desburocratização, e o caso das apostas esportivas e do patrocínio aos clubes de futebol mostrou isso bem, porque uma medida percebida como punitiva sobre o entretenimento popular cria uma resistência quase impossível de reverter em período eleitoral, e o tema foi lido pelo ângulo da moral quando devia ter sido lido pelo ângulo do cotidiano.
Há um dado que incomoda e que precisa ser dito por quem, como eu, tem lugar de fala para dizê-lo sem pedir licença: as cadeiras do Legislativo, inclusive as ocupadas por mulheres e pela diversidade, vêm sendo preenchidas com notável eficiência por partidos de oposição e de centro-direita, o que desmonta a ideia confortável de que a representação seria patrimônio exclusivo de quem se diz progressista. A esquerda tratou a pauta da diversidade como propriedade e a guardou no cofre da superioridade moral, e o resultado é que quem não precisava de pedigree foi lá e ocupou a cadeira.
É triste, sim, mas ainda há tempo: três semanas que são curtas demais para refundar um campo e longas o bastante para romper o pacto do não dito, trocar a denúncia pela proposta, o compartilhamento indignado pela conversa de verdade e a vaidade de quem sempre esteve certo pela humildade de quem precisa convencer. Viradas de placar são improváveis no modelo eleitoral brasileiro, mas quem ainda acredita que a indignação é um programa de governo talvez devesse começar parando de trabalhar de graça para o outro lado.
Fonte: Brasil 247