São Paulo amplia obras e muda gestão da água diante do risco de escassez hídrica – mas ainda levará anos para o plano estar completo
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As chuvas de setembro deram um alívio aos reservatórios que abastecem a Grande São Paulo. Entre 31 de agosto e 14 de setembro, o Sistema Integrado Metropolitano (SIM) subiu de 43,1% para 52,1% de seu volume, e o Cantareira passou de 33% para 38,2%, segundo dados da Sabesp.
A recuperação veio depois do que a própria Sabesp classificou como a pior estiagem dos últimos dez anos. No fim de fevereiro, o SIM estava em 48,2%, o menor nível para o mês desde 2016, quando os mananciais ainda se recuperavam da crise hídrica de 2015, segundo dados da companhia.
A fase aguda da crise já se arrasta há um tempo. Em agosto de 2025, por exemplo, por deliberação do governo paulista e da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp), a Sabesp reduziu a pressão da água na rede durante a noite para preservar os mananciais. A medida chegou a durar dez horas por dia e, com a recuperação dos níveis, passou a oito horas, durante a madruga. A própria companhia reconhece que os desafios do abastecimento na Região Metropolitana são históricos e estruturais.
O cenário ocorre em meio à formação de um El Niño que já atingiu o patamar de muito forte. Em setembro, a anomalia de temperatura da superfície do Pacífico Equatorial chegou a 2,1°C, segundo a NOAA, a agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos. O fenômeno altera os padrões de chuva no país e pode produzir efeitos distintos nas diferentes regiões.
Mas, para São Paulo, o fenômeno é apenas uma parte da equação. O risco de escassez hídrica não começou com o atual El Niño. A crise dos reservatórios é recorrente e está relacionada a períodos de estiagem, variabilidade das chuvas, crescimento da demanda, capacidade de armazenamento, perdas na distribuição e condições das bacias hidrográficas.
O governo paulista afirma estar adotando uma estratégia de longo prazo para aumentar a chamada resiliência hídrica e climática. Desde 2023, segundo a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), o Estado trabalha com planejamento de curto, médio e longo prazo, com horizonte até 2050. O governo diz executar o maior plano de resiliência hídrica da história do Estado, com mais de R$ 25 bilhões em ações de abastecimento, prevenção de enchentes, recuperação e desassoreamento de rios, ampliação da oferta de água, soluções baseadas na natureza e monitoramento.
Parte relevante dessas obras, no entanto, ainda não está pronta. Na Região Metropolitana, os projetos se estendem até 2030, segundo o governo. “Desde 2023 a gente vem aprimorando instrumentos de planejamento e olhando extremos climáticos”, afirma Natália Resende, secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística de São Paulo.
A melhora recente dos mananciais não encerra a preocupação. A expectativa de um forte El Niño, que provoque alterações no regime de chuvas nos próximos meses, adiciona incerteza. Para o Estado de São Paulo, os principais efeitos esperados incluem a elevação das temperaturas, o aumento da evaporação nos reservatórios e a ocorrência de eventos de chuva mais intensos, concentrados e distribuídos de forma irregular. Esses cenários podem aumentar tanto o risco de estiagens localizadas quanto de alagamentos e outros eventos hidrológicos extremos.
Monitorar de perto é o primeiro passo. Uma das principais mudanças anunciadas pelo governo está justamente na metodologia de avaliação do risco. A SP Águas passou a considerar uma série histórica de 15 anos no monitoramento da segurança hídrica da Região Metropolitana, incluindo períodos de El Niño e La Niña. O modelo também incorpora projeções hidrológicas e um acompanhamento específico do Sistema Cantareira.
A secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado, Natália Resende, destacou que essa nova metodologia ajudará a entender melhor o comportamento dos reservatórios. A agência implantou ainda um modelo de projeção para o Sistema Integrado Metropolitano, que reúne sete sistemas produtores. A ferramenta considera vazões naturais, retiradas operacionais, volumes armazenados e cenários climáticos para orientar medidas preventivas e de contingência.
“Não olhamos mais só o nível de reservatório no dia, mas todo o ciclo hidrológico”, disse Resende na entrevista ao Um Só Planeta.
Segundo o governo, a mudança procura antecipar situações de risco em vez de esperar que os reservatórios cheguem a níveis críticos para só então adotar medidas.
Outra frente é aumentar a quantidade de água disponível. É nela que o fator tempo pesa mais. A Transferência Itapanhaú-Biritiba Mirim, por exemplo, realizada pela Sabesp e já entregue, acrescentou 2 mil litros por segundo de água bruta ao Sistema Alto Tietê, com investimento de R$ 161 milhões, e ampliou em cerca de 17% a capacidade do sistema. Também foi concluída a transferência Guaratuba, que adicionou 200 litros por segundo, com aporte de R$ 10 milhões.
As obras de maior porte, porém, ainda estão por vir. Em 2026, a Estação de Tratamento de Água (ETA) Rio Grande deve receber tratamento por membrana, com ganho de 500 litros por segundo e investimento de R$ 95 milhões. Já na ampliação da ETA Baixo Cotia, a Companhia está aportando R$ 357 milhões para um ganho de 1000 litros por segundo. A obra tem conclusão prevista para 2027. A maior delas, a Transposição Billings-Taiaçupeba, que levará água do braço Rio Pequeno da Billings, em São Bernardo do Campo, até o reservatório de Taiaçupeba, em Suzano, está programada para 2027. A obra deve adicionar 4 mil litros de água bruta por segundo, com investimento de R$ 1,4 bilhão.
Além dessas, a Sabesp prevê um pacote adicional de R$ 5,9 bilhões em projetos escalonados até 2030, incluindo a Estação Elevatória de Água Bruta Guaió, a recarga de mananciais a partir de estações de tratamento de esgoto e a Transferência Paraíba do Sul-Alto Tietê. No total, os projetos somam capacidade adicional de 12,8 metros cúbicos por segundo, segundo o governo.
A companhia também investe R$ 505 milhões na implantação de 26 reservatórios em centros de reservação existentes na Região Metropolitana de São Paulo. Com previsão de conclusão em 2027, a expectativa é chegar a 220 milhões de litros em reservas.
A gestão e a manutenção de reservatórios de contenção de cheias são responsabilidade do poder público municipal e da Agência de Águas do Estado de São Paulo, a SP Águas.
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Na Baixada Santista, a estratégia inclui novos reservatórios e obras de distribuição, uma vez que a região não conta com reservatórios de água bruta como os da Guarapiranga e da Billings.
A Sabesp informa que o plano de investimentos contempla 29 estruturas de reservação na Baixada Santista, sendo que seis já estão concluídas entre 2024 e 2025 e 23 que serão entregues até 2028, com investimentos de R$ 799 milhões.
“Os reservatórios ampliam a autonomia dos sistemas e contribuem para dar maior segurança e estabilidade ao abastecimento de água na região. Ao todo, os seis reservatórios entregues entre 2024 e 2025 somam capacidade de reservação de 40,5 milhões de litros”, explica a empresa , em nota, ao Um Só Planeta. Com a entrada em operação de dois reservatórios de Mambu-Branco, em Itanhaém, em junho deste ano, a capacidade adicional já implantada chegou a 60,5 milhões de litros, segundo a companhia.
“Como temos necessidade de mais reservatórios, toda vez que chove temos instabilidade no serviço”, disse a secretária do Meio Ambiente do estado. Segundo ela, dois reservatórios entregues em Itanhaém, com capacidade de 20 milhões de litros, já trouxeram melhora. A adutora Santos-Guarujá deve levar 500 litros por segundo de Cubatão ao Guarujá . A conclusão prevista para outubro.
Com 5,6 km de extensão, a nova travessia da Sabesp terá aproximadamente 1,7 km de tubulação sob o Canal do Porto de Santos, chegando a cerca de 35 metros de profundidade. O empreendimento recebeu investimento de R$ 134,7 milhões.
Ao Um Só Planeta, a Sabesp afirma que está realizando o maior ciclo de investimentos de sua história em segurança e resiliência hídrica, com R$ 8 bilhões previstos até 2030, em obras estruturantes, incluindo a modernização dos sistemas produtores, a ampliação da capacidade de tratamento, novas interligações entre mananciais e o aumento da flexibilidade operacional, tornando o sistema mais preparado para enfrentar períodos de estiagem e os efeitos da emergência climática.
Para regiões consideradas mais vulneráveis, o governo informa ter concluído 140 poços profundos em 126 municípios.
Segundo o governo, a ideia é reduzir a dependência de uma única fonte de abastecimento: quanto mais diversificado for o sistema — com reservatórios, diferentes mananciais e fontes subterrâneas —, maior a possibilidade de compensar a redução da disponibilidade em uma determinada região.
Reduzir perdas é também produzir mais água
A expansão da infraestrutura, porém, não resolve sozinha o problema. Segundo a Sabesp, quase um terço da água fornecida pela companhia se perde antes de chegar ao consumidor, sendo 19% em vazamentos nas tubulações e cerca de 10% em furtos e fraudes.
A redução noturna da pressão é uma das medidas para diminuir essas perdas. Em 2025, a Sabesp investiu cerca de R$ 1,68 bilhão em substituição de redes e hidrômetros, combate a vazamentos e fraudes, instalação de válvulas redutoras de pressão e modernização da operação. Até 2029, a companhia prevê investir R$ 9,7 bilhões para reduzir perdas e combater fraudes, dos quais R$ 7 bilhões em ferramentas contra desvios de água.
A Sabesp afirma que, com as medidas que já foram implementadas, a cidade de São Paulo registrou o menor índice de perdas de água entre as cinco capitais mais populosas do Brasil, segundo o estudo Perdas de Água 2026 divulgado em junho pelo Instituto Trata Brasil, com dados de 2024, com o índice de perdas na distribuição de 24,4%.
Na entrevista, Resende afirmou que o esforço busca suprir décadas de investimento insuficiente em esgoto e em troca de redes. Segundo ela, há regiões de São Paulo com tubulações de mais de 70 anos; em Santos, de mais de 50.
“Tudo que a gente fez vem aumentando muito a resiliência do Estado e vai aumentar ainda mais. Metodologia, planejamento, gestão, investimentos que estão sendo acelerados para conseguirmos ver o resultado na casa das pessoas”, afirmou.
Saneamento também entra na conta
A segurança hídrica não depende apenas de aumentar a quantidade de água disponível. A qualidade dos rios e dos mananciais também determina quanto desse recurso pode ser aproveitado.
No programa IntegraTietê, parceria entre o governo paulista e a Sabesp, mais de 1,5 milhão de domicílios foram conectados à rede de esgoto desde 2023. Segundo a Sabesp, a primeira fase do programa estava com 43% de execução em setembro, e a conclusão das obras está prevista para 2028.
Desde 2023, o programa retirou mais de 6,5 milhões de metros cúbicos de sedimentos do Tietê e de seus afluentes, com investimentos superiores a R$ 1,4 bilhão. O volume representa 90% da meta de 7,2 milhões de metros cúbicos prevista até o fim de 2026. O programa Rios Vivos, por sua vez, retirou 4,8 milhões de metros cúbicos de sedimentos em 202 municípios, segundo a secretaria.
A recuperação dos rios tem outro objetivo: preparar o Estado para o extremo oposto da escassez. Em setembro, a mesma sequência de chuvas que recuperou os reservatórios deixou ao menos oito mortos na Grande São Paulo, segundo a Defesa Civil.
Desde 2023, o Estado destinou quase R$ 1 bilhão à implantação de reservatórios de contenção de cheias, segundo a Semil. Entre as obras está o Piscinão Jaboticabal, entregue com investimento de R$ 573 milhões. O Estado também mantém 12 pôlderes na Marginal Tietê e 27 piscinões na Região Metropolitana.
A lógica é que a gestão da água não pode ser dividida artificialmente entre “água demais” e “água de menos”. Uma chuva intensa pode provocar alagamentos hoje e, se não houver capacidade de armazenamento e infiltração, não necessariamente contribuir de forma suficiente para garantir água meses depois.
Na mesma linha, o governo trata a vegetação como parte da infraestrutura hídrica. O Programa Refloresta-SP soma mais de 45 mil hectares comprometidos com recuperação ambiental desde 2023, incluindo cerca de 10 mil hectares em Áreas de Preservação Permanente, e as 157 Unidades de Conservação administradas pela Fundação Florestal preservam cerca de 5 milhões de hectares de vegetação nativa, protegendo nascentes e mananciais.
Preparação para um cenário menos previsível
O El Niño atual dá urgência ao debate, mas não determina sozinho o futuro dos reservatórios paulistas. Os sistemas de abastecimento precisam estar preparados para oscilações climáticas que não seguem necessariamente o comportamento de um único fenômeno.
Para São Paulo, o desafio é transformar episódios de chuva em segurança para os períodos de estiagem, sem deixar de preparar cidades, rios e sistemas de drenagem para os temporais. É uma mudança que, segundo o governo, passa menos por reagir quando a crise chega e mais por antecipar cenários.
A própria secretária admite que o resultado não é imediato. “Não é de um dia para a noite. É preciso adequar investimentos feitos ao longo do tempo, mas já estamos vendo resultado”, disse.
O resultado dessas medidas, porém, não será medido apenas pelo nível dos reservatórios nos próximos meses. A questão central será saber se as obras, investimentos e mudanças de gestão, parte delas prevista só para o fim da década, conseguirão tornar o sistema capaz de atravessar diferentes ciclos climáticos com menor risco de interrupção do abastecimento.
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Fonte: umsoplaneta