Machado de Assis numa hora dessas: os 19 mil Romualdos da eleição

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Congresso em Foco

4/10/2026 | Atualizado às 16:29

Machado de Assis publicou “O programa” em 1883, mas poderia ter reservado algumas páginas para este domingo, 4, dia de eleição no Brasil.

O personagem Romualdo entra na vida com um plano grandioso. Vê um ministro morando na mesma rua, contempla a farda, o carro, as deferências e logo lhe ocorre uma pergunta simples: por que não ele? Seu programa vai crescendo. Literatura, prestígio, dinheiro, casamento, Parlamento, ministério. Concentrar-se numa única glória lhe parecia pouco.

Até que chega à política.

Romualdo frequenta chefes, aproxima-se das influências parlamentares e começa a receber aqueles sinais que, ontem como hoje, alimentam candidaturas: apertos de mão, tapinhas nas costas e notícias de que os poderosos o veem com simpatia. Os amigos garantem que seu lugar é na Câmara. Ele acredita. Arranja dinheiro, organiza cabos eleitorais, procura votos e parte para a campanha.

Na manhã da eleição, empolgado, compara o dia ao sol de Austerlitz, a grande vitória de Napoleão. Machado interrompe a fantasia com uma frase devastadora: “Pobre Romualdo, era o sol de Waterloo.” Romualdo perde.

Como registra Miguel Matos em Código de Machado de Assis, Romualdo obteve alguns votos: “eram pedaços da soberania popular que o vestiam a ele, como digno da escolha”.

Aliás, Romualdo não foi o único candidato derrotado pela aritmética eleitoral do Bruxo do Cosme Velho, como ficou conhecido Machado. Alguns anos antes, em “Um ambicioso”, o personagem José Cândido também entra numa eleição certo do triunfo.

Machado de Assis já escrevia sobre candidatos que confundiam apoios, expectativas e cálculos eleitorais com os votos que efetivamente apareceriam nas urnas.

Pelas próprias contas, tinha 500 votos garantidos e ainda esperava outros 200 “de simpatia”. Cercado por amigos que lhe anunciavam uma “maioria formidável”, passou o dia da eleição entre esperança, ambição e sonho.

Aberta a urna, vieram 37 votos. Machado talvez tenha sido um dos primeiros cronistas da velha e persistente diferença entre o voto que o candidato calcula e o voto que o eleitor efetivamente deposita na urna.

A propósito, como também registra Miguel Matos, José Cândido consola-se ao olhar a lista e ver que teve sete votos a mais do que um desembargador.

Neste 4 de outubro, guardadas todas as distâncias entre a ficção e a vida pública, não faltam programas, Romualdos nem Josés Cândidos possíveis. São 7.803 candidatos a deputado federal, 11.294 a deputado estadual e 433 a deputado distrital: 19.530 candidaturas disputando 1.572 cadeiras.

Cada candidatura carrega, naturalmente, seu próprio projeto. Há quem sonhe em representar uma causa, uma região ou uma categoria; há quem busque a reeleição; há estreantes. E há, como sempre houve na política, quem já se veja discursando da tribuna antes mesmo de conhecer o resultado das urnas.

É aí que Machado continua contemporâneo.

O problema de Romualdo talvez não fosse ter um programa. Era tomar o programa por destino. Confundiu desejo com profecia, gentileza de correligionário com voto e expectativa com resultado. No fim da vida, olhando para trás, chega a suspeitar: “Foi talvez o programa que me fez mal; se não pretendesse tanto…”

Nesta noite, para 1.572 candidatos, haverá Austerlitz. Para 17.958, Waterloo.

Você, leitor do Congresso em Foco, como talvez fizesse Machado, provavelmente apenas irá conferir o resultado — e depois tomar uma xícara de chá para dormir o sono dos justos.

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Fonte: Congresso em Foco

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