Amazônia vota em meio à fumaça e à incerteza

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Por Viviane Zandonadi — SUMAÚMA

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Nesta terceira reportagem da série, SUMAÚMA mostra a guerra entre sindicato e governo nos tribunais. Apesar de não faltar nem agentes nem investimento, muitas aldeias ficam sem assistência e crianças sem vacinas por alegação de suposta insegurança

Nos próximos meses, o risco de incêndios e secas vai aumentar a passos largos, agravado pela crise climática e pelo desmatamento. Estão sob ameaça comunidades tradicionais e produtores rurais, mas o governo também precisa levar em conta pequenos povoados remotos

Fila para votação em Manaus, uma das cidades mais atingidas pela fumaça nas últimas semanas. Foto: Thayssa Castro/SUMAÚMA

Eleitores que sofreram com as queimadas das últimas semanas vão às urnas sem que a defesa da Floresta tenha entrado de verdade no debate

Quando a professora Wivian Silva, 30, saiu de casa para votar neste domingo, o caminho até o local de votação fez lembrar parte do que o fogo destruiu nas últimas semanas no Amazonas. Ela mora no Ramal da Família, no km 17 da AM-352, em Manacapuru, a cerca de duas horas de carro de Manaus. Um mês antes, em 6 de setembro, um incêndio chegou aos fundos de seu quintal, e naquela noite Wivian publicou vídeos mostrando as chamas e o céu alaranjado sobre as casas, clamando por socorro.

Há semanas, quem vive na Amazônia, principalmente nos estados do Amazonas e do Pará, respira fumaça. Pela janela, o horizonte é cinza, e o sol aparece como um disco opaco e sem brilho. A fumaça entra pelas narinas, arranha a garganta e desce pelo peito. Os olhos ardem, e a cada passo alguém tosse. É com esse ar nos pulmões que 20,9 milhões de eleitores da Amazônia Legal vão às urnas para escolher presidente, governador, senadores e deputados. Ainda assim, a fumaça ficou à margem da disputa: apareceu pouco nos discursos e foi praticamente invisível nas propostas de governo.

Em editorial, SUMAÚMA já alertou sobre a urgência da crise climática e a necessidade de eleger, para a Presidência da República e para o Congresso, candidatos que defendam a Floresta e quem nela vive. O fogo das últimas semanas é metáfora da ameaça que paira sobre a Amazônia, o país e o planeta caso a extrema direita, representada pela candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), impeça a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Em Manaus e na região metropolitana da capital amazonense, pelo menos o domingo de eleição amanheceu sem fumaça. Wivian encarou a fila numa seção instalada na escola militar Jamil Seffair, onde era visível a predominância de eleitores bolsonaristas. Ela, que já votou no PT e apoiou Bolsonaro em 2018, neste ano repete a opção por Lula, “por tudo o que Bolsonaro representa”.

A professora disse ter pouca esperança de que o cenário de destruição na Amazônia pese nas escolhas na urna. “Eu não vejo nenhum tipo de perspectiva de política pública voltada pra combater incêndio florestal criminoso”, afirmou. “Eu queria que influenciasse, que as pessoas refletissem sobre o que tá acontecendo, sobre essa devastação que a gente viveu. Mas, levando em consideração a divisão política no país, acredito que, se influenciar, vai ser muito pouco, sendo bem honesta.”

Na travessia da ponte sobre o Rio Negro, na região metropolitana de Manaus, fica o Cacau Pirêra, distrito de Iranduba, em frente a Manaus. Ali, um incêndio foi detectado pela primeira vez na madrugada de 30 de setembro e atingiu uma área de mais de mil hectares, segundo o Painel do Fogo do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), órgão federal que monitora a região.

Assistente administrativa numa escola municipal em Iranduba, Kelry Cristine de Oliveira Teixeira passou o mês de setembro enviando avisos para que alunos e professores usassem máscaras. Entre tosse, olhos ardendo e queixas variadas de saúde, as aulas presenciais foram suspensas em alguns dias, e foi preciso voltar ao modelo do ensino remoto dos tempos da covid. Indecisa sobre o voto, Kelry diz que a Amazônia foi pouco discutida nesta eleição. “Se tivéssemos que depender deles [os políticos], nós iríamos morrer”, afirma.

Na fila para votar, Wivian Silva relembrou os dias em que a fumaça ameaçou sua casa e sua família. Foto: Thayssa Castro/SUMAÚMA

Nas semanas que antecederam a eleição, a poluição do ar no Amazonas atingiu níveis extremos. Em 23 de setembro, Manaus entrou em estado de atenção ao registrar uma concentração de material particulado fino muito alta, 160 microgramas por metro cúbico de ar – mais de dez vezes acima do limite diário recomendado pela Organização Mundial da Saúde, a OMS. Essas partículas microscópicas  penetram  profundamente nos pulmões e alcançam a corrente sanguínea, aumentando os riscos de doenças respiratórias e cardiovasculares.

Entre 1º de julho e 22 de setembro, a rede estadual de saúde do Amazonas atendeu 132 pacientes com sintomas associados à exposição à fumaça, como falta de ar, tosse, dor de cabeça, náusea, fadiga e vômito. Paula Fonseca, pesquisadora da Fiocruz Amazônia, diz que a má qualidade do ar traz impactos que não aparecem de imediato, como doenças respiratórias e cardiovasculares. “A gente chama de ameaça invisível, porque está agindo e a gente não consegue ver, mas depois a gente vai sentir os efeitos”, explica.

No Amazonas, foram notificados 3.726 focos de calor em setembro, um aumento de 296% em relação aos 942 registrados no mesmo mês de 2025. A Rede MapBiomas também registrou aumento da área queimada nos arredores de Manaus entre janeiro e agosto. Em Manacapuru, a área atingida pelo fogo cresceu 294% em relação ao mesmo período de 2025; em Iranduba, 213%; e, em Careiro da Várzea, 168%.

O número de setembro superou todo o ano de 2025, ainda que tenha ficado abaixo dos recordes de 2022 a 2024. O meteorologista Willy Hagi, mestre em clima e ambiente pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), destaca o papel do El Niño nesse resultado, com uma estação seca mais intensa e bem mais quente que no ano anterior.

No entanto, se o fenômeno climático explica a intensidade do fogo, não indica a origem. “A Amazônia não queima sozinha. Apesar de as condições meteorológicas serem mais favoráveis, as queimadas na Floresta dependem de alguma ação humana intencional para acontecer”, afirma Hagi. E essa ação humana, geralmente, está conectada com a abertura de áreas para pasto ou monocultura de soja, por exemplo. O governo do Amazonas afirma que o Corpo de Bombeiros combateu 14.899 focos de incêndios urbanos e florestais de 1º de julho a 23 de setembro. E que intensificou a fiscalização e a repressão a atos ilícitos relacionados ao manejo do fogo.

Para quem está sofrendo na pele e nos pulmões o impacto da má qualidade do ar, o que tem sido feito parece insuficiente. Faz reviver as dores do tempo da pandemia, quando Manaus se viu no centro da crise sanitária, com as vítimas sufocando sem oxigênio durante o governo do extremista de direita Jair Bolsonaro. O técnico em rádio e TV Eduardo Souza Cruz perdeu, em quinze dias, o pai, a madrasta e a avó que ele chamava de mãe, pois foi quem o criou. Eduardo segue votando em Lula. Mas lamenta ver a Amazônia em fogo, mais uma vez em risco, e teme pelo futuro. “A Amazônia está queimando.”

 

O fogo em Manacapuru, visto do quintal de Wivian Silva. Imagem feita por drone. Foto: Anderson Batista

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Fonte: SUMAÚMA

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