Por Marcos Pędłowski — Blog do Pedlowski

Parte da aparente oscilação pode ser real, mas é importante não confundir variação amostral com movimento eleitoral. O próprio Datafolha oferece um bom exemplo: no levantamento realizado entre 29 de setembro e 1º de outubro, Lula aparecia com 45% dos válidos e Flávio com 40%; na pesquisa realizada já no sábado, o placar passou para 45% a 42%. Lula permaneceu exatamente onde estava; foi Flávio que oscilou dois pontos. Como a margem de erro é de dois pontos, isso pode representar tanto alguma movimentação de última hora quanto simplesmente variação estatística.

Há ainda um problema mais importante: os institutos não estão medindo exatamente o mesmo eleitorado da mesma maneira. Datafolha trabalha com entrevistas presenciais em pontos de fluxo; Quaest faz entrevistas presenciais domiciliares e, nesta reta final, incorporou um modelo de likely voter, procurando estimar quem efetivamente comparecerá às urnas; AtlasIntel utiliza recrutamento digital e ponderação posterior. Diferenças na composição das amostras, na ponderação por renda, escolaridade e região e, sobretudo, na estimativa de comparecimento podem produzir diferenças relevantes quando dois candidatos concentram quase 90% dos votos válidos. 

Também existe um componente propriamente político. O Datafolha já mostrava redução dos indecisos na pesquisa espontânea de 18% para 13% e crescimento simultâneo das menções espontâneas a Lula e Flávio. Isso sugere uma consolidação acelerada do voto na reta final. Além disso, os eleitores dos dois principais candidatos conhecem muito melhor seus números de urna do que os eleitores de candidaturas menores, o que pode favorecer concentração adicional do voto no momento efetivo da votação. 

E o que isso significa para hoje?

A consequência mais prudente é que as pesquisas deixaram uma faixa de incerteza maior do que os números isoladamente sugerem. O agregador do UOL chega ao domingo com Lula em 40,5% das intenções totais e Flávio em 37,2%, diferença de 3,3 pontos, mas essa média esconde uma dispersão considerável entre os institutos.

Assim, talvez a principal questão desta eleição não seja descobrir qual pesquisa “acertou” na manhã de domingo, mas observar quem efetivamente comparecerá às urnas e como se comportará a parcela do eleitorado que deixou sua decisão para as últimas horas. Em uma disputa tão concentrada, diferenças relativamente pequenas de abstenção entre regiões e grupos sociais, além de eventual migração de votos das candidaturas menores, podem produzir um resultado diferente da fotografia captada por qualquer levantamento individual. Pesquisa eleitoral mede intenção de voto; a urna mede quem compareceu e apertou o botão.

É justamente por isso que, hoje, mais do que em eleições com diferenças amplas entre os candidatos, convém esperar a abertura das urnas antes de transformar oscilações de dois ou três pontos em grandes teorias sobre o comportamento do eleitor brasileiro.

Nascido em Monte Alegre do Tibagi, atualmente parte do município de Telêmaco Borba (PR), Marcos Pędłowski é Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Tech. Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ., com atuação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF. Pesquisador Colaborador Externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental. Pesquisador principal do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Transferência de Materiais Continente-Oceano, Fase III (2008-2028).


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Fonte: Blog do Pedlowski

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