Teoria conspiratória sobre ‘golpe da esquerda’ ganha força às vésperas do 1º turno
Por Bianca Bortolon — Aos Fatos | Valorize o que é real
O fechamento temporário de embaixadas estrangeiras no Brasil serviu de catalisador para uma teoria conspiratória que vincula a medida a um plano para anular o resultado das eleições presidenciais de 2026. A narrativa ganhou tração em plataformas como Instagram e X às vésperas do primeiro turno e passou a incorporar alegações sobre ataques terroristas de facções criminosas, uma guerra civil e uma intervenção estadunidense.
O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) desmentiu as mensagens que anunciavam supostos ataques de facções criminosas durante a votação. Segundo o tribunal, não há indícios de que as seções eleitorais estejam sob uma ameaça generalizada como a descrita nas publicações.
Um levantamento do Instituto Democracia em Xeque divulgado neste sábado (3) aponta que, somente na sexta (2), foram identificadas 164,8 mil publicações sobre uma possível intervenção estrangeira no processo eleitoral, que acumulavam 2,2 milhões de interações.

Entre as narrativas identificadas pelo estudo estão alegações de que o fechamento das embaixadas seria uma reação à possibilidade de intervenção do STF (Supremo Tribunal Federal) e do TSE.
Segundo as teorias conspiratórias, o governo dos Estados Unidos teria descoberto um plano articulado pelo STF e pelo governo Lula (PT) para anular a eleição caso o senador Flávio Bolsonaro (PL) vença a disputa no primeiro turno.
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A vitória do candidato em primeiro turno é apresentada como certa pelos autores das publicações, embora as pesquisas eleitorais mais recentes não indiquem esse cenário. O agregador de pesquisas do UOL, que reúne 20 institutos que mapeiam intenção de voto, mostrava na noite de sábado (3), véspera da votação, Lula liderando a preferência do eleitorado, com 40,2%, contra 36,8% de Flávio.
De acordo com as narrativas, a anulação do resultado consumaria um suposto golpe da esquerda, que provocaria uma “inevitável” guerra civil no país. O fechamento das representações diplomáticas seria uma medida preventiva dos Estados Unidos, que estariam se preparando para intervir no Brasil sob o argumento de garantir o respeito ao resultado eleitoral e preservar a democracia.
Algumas versões da teoria afirmam ainda que as facções criminosas PCC (Primeiro Comando da Capital) e Comando Vermelho teriam sido mobilizadas para realizar ataques terroristas próximos às embaixadas e sustentar o suposto golpe.

O Aos Fatos também desmentiu publicações que atribuíam à Polícia Militar de São Paulo a descoberta de um suposto plano do PCC para realizar ataques caso Flávio Bolsonaro vencesse a eleição.
Eleições 2026Checagem
É falso que polícia de SP identificou plano de ataques do PCC caso Flávio vença
As teorias da conspiração, inicialmente observadas em perfis bolsonaristas de menor alcance, passaram a ser reproduzidas por grandes influenciadores e, posteriormente, por políticos e candidatos — dentre eles o deputado federal Paulo Bilynskyj (PL-SP):
“Ataques terroristas. Esse é o motivo da embaixada dos Estados Unidos e da Austrália terem fechado em Brasília. O que que eles estão prevendo? Que o Flávio vai ganhar a eleição, que o PT vai tentar tocar o terror.”

Jeffrey Chiquini (Novo-PR), candidato a deputado federal e advogado de Filipe Martins, ex-assessor internacional da gestão de Jair Bolsonaro (PL), também aderiu à narrativa.
Em vídeo publicado nas redes, ele interpretou uma postagem do ministro Flávio Dino sobre as eleições americanas de 2000 como um sinal de que o tribunal estaria preparando a anulação do pleito brasileiro, sob o pretexto de interferência estrangeira.
Chiquini também associou a suposta articulação a um pedido de afastamento dos ministros André Mendonça e Nunes Marques, do TSE, e convocou seus seguidores a votarem em Flávio Bolsonaro no primeiro turno.

O fechamento temporário das representações diplomáticas é real, mas não há evidências de que esteja relacionado a um plano para anular as eleições ou a uma suposta intervenção americana.
Na quinta-feira (1), os Estados Unidos anunciaram a suspensão dos atendimentos consulares presenciais no Brasil a partir do dia seguinte, alegando preocupações com a segurança.
Um dia depois, a Austrália também anunciou o fechamento de sua embaixada em Brasília pelo mesmo motivo. Nenhum dos comunicados mencionou uma suposta articulação para interferir no resultado eleitoral.
Também na sexta-feira (2), a Polícia Federal realizou uma operação preventiva para investigar possíveis ameaças contra instalações diplomáticas, em cooperação com agências de inteligência estrangeiras. A corporação informou que, até o momento, não encontrou elementos que confirmassem os riscos investigados nem identificou suspeitos ligados a organizações criminosas.
O caminho da apuração
Entre sexta-feira (2) e sábado (3), Aos Fatos identificou a circulação de publicações que associam o fechamento de representações diplomáticas no Brasil a um suposto plano para anular o resultado das eleições presidenciais de 2026 em diferentes redes.
Em seguida, a reportagem consultou comunicados das embaixadas dos Estados Unidos e da Austrália no Brasil, bem como informações divulgadas pela Polícia Federal e imprensa.