Morre Márcio Chaer, um dos maiores jornalistas brasileiros, que deixa centenas de amigos no mundo do jornalismo e do Direito
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – O jornalismo brasileiro perdeu neste sábado (3) um de seus grandes nomes. Morreu em São Paulo o jornalista Márcio Chaer, fundador e diretor do Consultor Jurídico (ConJur), publicação que transformou a cobertura do mundo do Direito no Brasil e se tornou referência obrigatória para jornalistas, advogados, magistrados, integrantes do Ministério Público e estudiosos das instituições brasileiras.
Chaer sofreu um infarto nesta tarde. Mais do que fundador de um veículo de comunicação, Chaer foi um construtor de pontes entre dois universos que ajudou a aproximar como poucos: o jornalismo e o Direito. Ao longo de décadas, formou jornalistas, reuniu alguns dos mais importantes juristas brasileiros em torno do ConJur e criou um espaço permanente para o debate sobre Justiça, democracia, garantias individuais e Estado de Direito.
Fundado em 1997, o Consultor Jurídico tornou-se uma das mais importantes publicações especializadas do País. Seu trabalho diário de acompanhamento de decisões judiciais, tendências jurisprudenciais, atividades legislativas e debates jurídicos produziu um acervo de mais de 175 mil textos de acesso gratuito. A publicação tornou-se também fonte frequente para outros grandes veículos de comunicação.
Uma referência para o mundo jurídico
A dimensão da obra construída por Chaer pode ser medida pela influência alcançada pelo ConJur dentro do próprio Judiciário. O veículo tornou-se o mais citado na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, com centenas de referências em acórdãos e decisões monocráticas.
Chaer entendia o jornalismo como serviço público. Sob sua direção, o ConJur estabeleceu como princípio editorial oferecer informação jurídica clara, sintética e útil — não apenas aos operadores do Direito, mas também ao cidadão interessado em compreender o funcionamento das instituições. Essa concepção ajudou a transformar uma publicação especializada em uma instituição do jornalismo brasileiro.
Ao longo dos anos, o ConJur também assumiu posições contramajoritárias em alguns dos momentos mais tensos da vida institucional brasileira. Durante a Lava Jato, quando grande parte da imprensa tratava a operação de forma favorável, a publicação abriu espaço para questionamentos sobre abusos, violações de garantias e procedimentos adotados por investigadores e pelo então juiz Sergio Moro. O mesmo espírito crítico marcou a cobertura do Mensalão, da Operação Satiagraha e das chamadas Dez Medidas Contra a Corrupção.
Jorge Messias lamenta a morte
A morte de Márcio Chaer provocou manifestações de pesar no mundo jurídico.
O ministro-chefe da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, afirmou ter recebido a notícia com profundo pesar. “Jornalista dedicado e importante difusor da cultura jurídica nacional, deixa uma contribuição inestimável e uma marca especial em todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo e acompanhar seu trabalho. Neste momento de dor, manifesto minha solidariedade aos familiares, e demais amigos, desejando-lhes força e serenidade”, declarou Messias.
A definição sintetiza uma dimensão fundamental da trajetória de Chaer. Ele não se limitou a noticiar o Direito: ajudou a difundir a cultura jurídica brasileira, tornando discussões antes restritas aos tribunais e às universidades acessíveis a um público muito mais amplo.
“Um dos maiores jornalistas brasileiros”
O jurista Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do Grupo Prerrogativas, também prestou homenagem a Chaer. “Um dos maiores jornalistas brasileiros e um grande defensor do Estado de Direito e das garantias individuais, além de difusor da cultura jurídica por meio do ConJur”, afirmou.
“Marcio Chaer foi a cara da coragem e da ética, que é o avesso do massacre de reputações e do moralismo calculado e ambicioso. O país perdeu um grande profissional e um maravilhoso ser humano”, acrescentou o advogado Walfrido Warde. “ Uma tragédia, uma tristeza, partiu um grande jornalista, uma figura muito importante, um grande amigo, sem palavras para descrever esse sentimento”, pontuou o advogado Pierpaolo Bottini.
A relação de Chaer com o universo jurídico ultrapassava a dimensão profissional. Durante décadas de atuação, construiu amizades profundas entre advogados, ministros, magistrados, professores, procuradores e jornalistas.
Era também amigo pessoal de muitos dos profissionais que acompanharam sua trajetória, entre eles Leonardo Attuch, fundador e editor do Brasil 247, Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, e Fausto Macedo, do Estado de S. Paulo, entre tantos outros jornalistas, que sentirão sua falta. “Estamos todos perplexos e estarrecidos”, afirmou Attuch. “Perdemos, acima de tudo, um grande amigo”.
Uma vida dedicada ao jornalismo
A obra de Chaer, porém, permanecerá muito além das relações pessoais que construiu.
O ConJur criou ainda, a partir de 2007, a coleção Anuário da Justiça, destinada a registrar perfis, decisões e tendências dos ministros, desembargadores e juízes dos principais tribunais brasileiros. A coleção ultrapassou 70 edições e tornou-se fonte de consulta para advogados, promotores, magistrados e jornalistas.
Sob a liderança de Chaer, a publicação também organizou encontros jurídicos no Brasil e no exterior, estabeleceu relações com universidades e instituições internacionais e ampliou sua atuação editorial para a publicação de livros e obras de referência.
Chaer criou uma comunidade. Ao redor do ConJur, aproximou gerações de jornalistas e juristas. Cultivou fontes que se transformaram em amigos, amigos que se tornaram colaboradores e colaboradores que ajudaram a construir uma publicação cuja influência passou muito além de sua redação.
Por isso, sua morte não representa apenas a perda do fundador de um importante veículo de comunicação. Representa a despedida de um jornalista que ajudou a mudar a maneira como o Brasil acompanha, compreende e debate sua Justiça.
Márcio Chaer deixa uma obra jornalística de enorme relevância, uma instituição consolidada e centenas de amigos espalhados pelas redações, escritórios de advocacia, universidades e tribunais do País.
Deixa, sobretudo, uma marca rara: a de quem fez do jornalismo não apenas uma profissão, mas uma forma permanente de defender o direito à informação, o contraditório, as garantias individuais e o Estado de Direito.
O jornalismo brasileiro e o Direito estão de luto.
Fonte: Brasil 247