Lula x Flávio Bolsonaro: o que está em jogo na eleição
Por Leonardo Miazzo — Carta Capital
Menu
Professor do Departamento de Ciência Política da UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFJF
O projeto da atual coalizão bolsonarista é ainda mais extremo que sua versão pregressa, construída para a eleição de 2018
Uma das características da atual eleição é o descompasso entre sua importância e o modo pelo qual ela tem sido tratada no debate público. O presidente da maior potência do mundo intervém abertamente na política brasileira, o que é dito de forma explícita por ele e seus principais assessores, e a sensação de quem lê manchetes, ou assiste a telejornais, é que estamos diante de mais um pleito, sem maiores consequências para o País.
Há algo de rotina, já que, com honrosas exceções, a cobertura da política brasileira se acostumou a tratar as eleições como um jogo, no qual a dinâmica interna importa mais do que os eventuais resultados. Parte da culpa está na minha classe, de cientistas políticos, que popularizaram um vocabulário capaz de descrever os meandros da disputa institucional, mas incapaz de perceber ameaças maiores à democracia. Produz-se, com isso, uma representação míope da política, hábil em perceber o que está perto, mas incapaz de olhar para o horizonte.
O problema é que estamos diante de uma eleição com consequências potencialmente trágicas. Muitas vezes supervalorizamos a importância da política brasileira para o mundo, em exagero narcísico que nos toma como mais distintos, relevantes e especiais do que de fato somos. Neste caso, porém, não é ousado dizer que a eleição brasileira tem um enorme impacto para a conjuntura mundial e para o porvir histórico. A questão não é mais nacional, como em 2022, quando corríamos “apenas” o risco de perder a democracia aqui construída a duras penas nas últimas décadas.
A eventual vitória de Flávio Bolsonaro seria um sinal da força do projeto trumpista, que faz do domínio das Américas uma etapa fundamental. Pela extensão do seu território, tamanho da sua população, peso da sua economia e recursos naturais disponíveis, o Brasil tem um peso central para o imaginário geopolítico da ultradireita hoje no poder nos Estados Unidos. Por outro lado, a vitória de Lula não apenas indicaria a dificuldade de Trump de impor sua força mesmo em tradicionais zonas de influência, como fortaleceria uma das principais vozes com importância internacional a denunciar e resistir ao arbítrio imperialista do presidente norte-americano. Poucas vezes a política brasileira foi tão central na ordem internacional.
É necessário dizer que o projeto da atual coalizão bolsonarista é ainda mais extremo que sua versão pregressa, construída para a eleição de 2018. Não se trata de normalizar o governo anterior. Jair Bolsonaro é o personagem mais radical a ocupar a chefia do poder Executivo na história política brasileira. Embora a tortura fosse uma comprovada política de Estado, nem mesmo os líderes autoritários à frente da ditadura a defenderam abertamente contra adversários políticos, como ele já o fez algumas vezes. A ação do Estado durante a pandemia foi uma política de mortes em massa de poucos paralelos em nossa história. Ainda assim, estávamos diante de um projeto autoritário nacional, certamente articulado com atores globais influentes, mas profundamente relacionado não apenas a forças políticas aqui organizadas, como os militares, mas também devedor de alguns repertórios tradicionais do autoritarismo brasileiro.
Flávio Bolsonaro está à frente de algo diferente. No lugar de um projeto de País, temos a inserção subalterna do Brasil em uma ordem global da ultradireita, de modo que, com sua vitória, talvez passemos a pensar a própria identidade nacional de forma diversa. Como disse perfeitamente Odilon Caldeira, em publicação no seu Instagram, não estamos mais diante de uma organização imperialista tradicional, mas em um momento no qual o “bolsonarismo assume um protagonismo inversamente proporcional à noção de soberania nacional”. Se o slogan anterior era “mais Brasil, menos Brasília”, a sinceridade agora talvez indique para um mote do tipo “mais Ocidente, menos Brasil”. Definido de forma cultural e religiosa, esse Ocidente é liderado política, econômica e militarmente pelos Estados Unidos. Nunca um grupo com possibilidade real de dirigir o Estado brasileiro assumiu de forma tão explícita esse tipo de subalternidade.
O discurso já estava presente no governo anterior, sobretudo na voz dos discípulos de Olavo de Carvalho, como Ernesto Araújo e Felipe Martins. Agora, porém, tal discurso encontra outras redes e bases transnacionais. Não estamos mais diante da mambembe tentativa de uma internacional reacionária de Steve Bannon, mas das articulações amparadas nas redes sociais e nas big techs de personagens como Peter Thiel ou Alexander Karp, que são tanto figuras centrais no mundo empresarial quanto lideranças influentes dentro do Estado norte-americano. Antes representado pelo fiador Paulo Guedes, o discurso ultraliberal ganha novos contornos e se conjuga a argumentos de claro corte teocrático. Por fim, a defesa aberta da violência assume tintas ainda mais radicais, mas agora não mais com o tradicional repertório do conservadorismo militar brasileiro. No lugar do discurso de segurança nacional com protagonismo estatal, que ainda buscava revestir o arbítrio de alguma institucionalidade, temos o modelo Bukele, que pressupõe uma conjugação entre Estado e empresa no aparato punitivo.
Dados os caminhos usualmente tortuosos da política, tal projeto não será integralmente implantado no Brasil, já que uma das marcas da ultradireita contemporânea é justamente a composição entre o radicalmente novo e o arcaico, que forma um todo que retira parte da sua força das tensões e da incoerência. Teremos, porém, algo próximo, tocado por uma gestão familiar do Executivo, com o regresso à cena pública do pai, hoje presidiário, e do irmão fugitivo.
A coalizão liderada por Lula é, mais uma vez, fundamentalmente defensiva, preocupada em preservar algo da ordem de 1988. Ela não aponta para o futuro, mas, em tempos de forte movimento contra a democracia, é fundamental construir alguns diques e ganhar tempo. O horizonte de poucas possibilidades não torna essa eleição menos importante, mas sim ainda mais estratégica, pois a vitória é fundamental para que possamos, mais à frente, pensar em outros futuros.
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.
Desenvolvido por OKN Technology Agency
Fonte: Carta Capital