Quem fugiu do debate (e da Justiça) foi a Globo
Por Ricardo Amaral — Brasil 247
É puro suco de hipocrisia a alegação da Rede Globo para o cancelamento de última hora do debate entre candidatos à presidência na noite de quinta. A emissora nunca esteve diante de alegada “insegurança jurídica”. Esteve, sim, diante de três determinações liminares de ministros de tribunais superiores; nenhuma delas isenta de críticas e divergências bem ou mal fundadas, mas todas impondo a obrigação legal de serem cumpridas.
A Globo aceitou sem piar a primeira ordem, do ministro bolsonarista Nunes Marques, para dar palanque a Romeu Zema, ventríloquo do antipetismo. Mas rebelou-se publicamente contra a proibição de transformar em espetáculo a ausência de Lula e de dar palanque a Renan Santos, inimigo jurado de Flavio Bolsonaro. E foi para escapar a essas duas últimas ordens judiciais que a emissora cancelou o debate.
A “longa tradição” da Globo na promoção de programas de debate é bem diferente do que ela sustenta na nota em que anunciou o cancelamento. Em 1989, a emissora manipulou e falseou a edição do debate do segundo turno para favorecer Fernando Collor contra Lula. Em 1994 e 1998, simplesmente não promoveu debates, blindando seu então candidato, Fernando Henrique Cardoso, do confronto com Lula e outros adversários por mais duas vezes.
E não vamos esquecer de 2018, quando a Globo não permitiu o necessário confronto entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro no segundo turno, pretextando que este não poderia comparecer ao estúdio, quando na verdade o candidato da extrema-direita dava entrevistas ao vivo diariamente para quem quisesse transmitir.
Há muito tempo que os debates da Globo, da mesma forma que os de outros veículos, deixaram de servir à “discussão de ideias para o Brasil e oferecer aos eleitores a oportunidade de comparar projetos (…) e promover a democracia”, como diz a nota da emissora. Com poucas exceções, não passam de picadeiro para ofensas, ataques baixos, lacrações. Servem mais ao departamento comercial de quem os promove do que ao jornalismo e ao verdadeiro debate político.
No caso específico da Globo, servem principalmente à pretensão do grupo de protagonizar o processo eleitoral e político do país. Essa pretensão, incontrastável ao longo da história da emissora, é que foi contestada pelas ordens judiciais que ela se recusou a obedecer. Essa pretensão é que foi abalada pelo cancelamento de um debate sobre o qual ela havia perdido o controle.
A Globo, que tantas vezes decretou a morte de Lula e do PT em manchetes, editoriais e jornais televisivos, não morreu. Segue poderosa, embora não como antes, mas teve de fugir do debate e da Justiça, diante de novas realidades que vão se impondo no processo político e nos meios de informação da sociedade brasileira.
Fonte: Brasil 247