Vijay Prashad: “A Rússia está vencendo a guerra”
Por Dafne Ashton — Brasil 247
247 – O historiador indiano Vijay Prashad, diretor do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, avalia que a Rússia está em vantagem militar na guerra da Ucrânia e que Kiev dificilmente terá condições de recuperar pela força os territórios atualmente controlados por Moscou. Para ele, a insistência em objetivos militares que considera inalcançáveis tem dificultado uma saída negociada para o conflito.
Em entrevista ao jornalista Breno Altman, no programa 20 Minutos, do Opera Mundi, Prashad também contestou a interpretação de que a ofensiva russa na Ucrânia faria parte de um projeto de expansão territorial que poderia posteriormente atingir outros países europeus. Segundo ele, é necessário distinguir os objetivos territoriais declarados por Moscou na Ucrânia de uma suposta intenção de avançar militarmente sobre o restante da Europa.
“A Rússia está vencendo a guerra?”, perguntou Altman. “Parece que sim”, respondeu Prashad. Na avaliação do historiador, a capacidade ucraniana de realizar ataques dentro do território russo não significa que Kiev tenha condições de alterar a situação territorial no campo de batalha.
Questionado especificamente sobre a possibilidade de a Ucrânia, com o apoio da União Europeia, reverter a correlação militar e recuperar o Donbass, Prashad foi categórico: “Não acredito. Não acredito. Acho que os russos nunca permitirão isso. Eles têm capacidade militar suficiente”.
A análise apresentada pelo historiador parte da compreensão de que os objetivos russos estão concentrados principalmente na Crimeia, no Donbass e na faixa territorial que conecta essas regiões. Prashad lembrou que Moscou considera a incorporação da Crimeia uma questão não negociável e sustenta que os territórios do Donbass sob seu controle não voltarão à administração ucraniana.
Ao mesmo tempo, ele rejeitou a tese de que esses objetivos representem necessariamente o início de uma ofensiva destinada a ocupar toda a Ucrânia e posteriormente avançar sobre países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
“Eles não têm nenhum objetivo de tomar Kiev. Não têm nenhum objetivo de absorver toda a Ucrânia, muito menos a Polônia, depois a Alemanha, os Países Baixos e a França”, afirmou. Em outro momento, recorreu à ironia para sintetizar seu argumento: “Eles não querem levar tanques russos até Madri”.
A posição apresentada por Prashad se contrapõe ao argumento adotado por governos europeus de que uma derrota ucraniana poderia ampliar os riscos de segurança para outros países do continente. O historiador sustenta que a caracterização da Rússia como uma ameaça existencial para a Europa acaba impondo à Ucrânia objetivos que não correspondem à realidade militar do conflito.
“Os que apoiam Zelensky estão dizendo que a Rússia é uma ameaça existencial para a Europa e que a Rússia precisa perder”, afirmou. Para Prashad, essa abordagem coloca o governo ucraniano diante de uma posição maximalista, na qual qualquer acordo que reconheça perdas territoriais passa a ser tratado como inaceitável.
A própria Rússia afirma publicamente não pretender atacar países europeus. Em setembro, o ministro das Relações Exteriores russo, Sergey Lavrov, reiterou essa posição e disse que Moscou responderia caso fosse atacada. Trata-se, porém, da posição oficial do governo russo, e não de uma comprovação independente sobre suas intenções futuras.
Prashad defende que a discussão sobre uma saída para a guerra deveria partir da correlação de forças existente no terreno. Ele citou disputas territoriais ocorridas ao longo da história para argumentar que fronteiras podem se transformar em objeto de negociação política, inclusive mediante mecanismos internacionais e consultas às populações envolvidas.
“Sentem-se à mesa, tomem uma decisão, façam um referendo, tragam a ONU, seja o que for”, afirmou.
A possibilidade de retomada das negociações continua presente no debate diplomático. No início de setembro, o Kremlin declarou estar aberto a novas conversas envolvendo Rússia, Ucrânia e Estados Unidos, embora naquele momento não houvesse data ou local definidos para uma nova rodada.
Na avaliação de Prashad, entretanto, existe uma divergência entre setores dirigentes dos Estados Unidos e da Europa que dificulta a construção de um acordo. Segundo ele, parte da estrutura de poder norte-americana considera que Washington deveria reduzir o envolvimento na guerra da Ucrânia e concentrar sua estratégia internacional na disputa econômica com a China, enquanto governos europeus mantêm uma postura mais voltada para a contenção da Rússia.
Essa diferença, afirma, contribui para prolongar uma guerra que já assumiu características distintas das grandes ofensivas terrestres do início do conflito.
Prashad observa que a Rússia também enfrenta limitações, especialmente demográficas, para sustentar operações terrestres de grande escala. Por isso, segundo ele, Moscou passou a depender cada vez mais de drones, ataques a distância e operações destinadas a conservar posições, em vez de grandes movimentos de tropas e blindados para conquistar extensas áreas.
“Eles estão travando agora, efetivamente, uma guerra aérea, uma guerra de drones, uma guerra de posição”, explicou. “Não é realmente uma guerra de movimento.”
Essa característica ajuda a explicar, na avaliação do historiador, por que a vantagem militar russa não deve ser interpretada automaticamente como preparação para uma marcha sobre a Europa. Seu argumento é que Moscou procura consolidar posições consideradas estratégicas dentro do território ucraniano, ao mesmo tempo em que evita uma expansão terrestre que exigiria recursos humanos e militares muito maiores.
O risco central, segundo Prashad, está justamente na possibilidade de o conflito ultrapassar as fronteiras da Ucrânia por meio de uma escalada entre Rússia e Otan. Ele citou como exemplo hipotético um ataque russo comprovado contra uma instalação militar alemã ou uma base norte-americana na Alemanha.
Uma ocorrência desse tipo, advertiu, poderia alterar imediatamente a dimensão da guerra e abrir caminho para um confronto direto entre potências nucleares.
Para Prashad, portanto, reconhecer a atual correlação militar não significa prever uma ocupação russa da Europa. Significa, em sua análise, admitir que a Ucrânia enfrenta limites para recuperar militarmente os territórios perdidos e que uma saída para a guerra dependerá, em algum momento, de negociação sobre questões territoriais que hoje permanecem sem solução.
Fonte: Brasil 247