Genoino: “Globo não exerce mais a tutela sobre o País”

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Por Dafne Ashton — Brasil 247

247 –O ex-presidente nacional do PT José Genoino afirmou que os acontecimentos que levaram ao cancelamento do debate presidencial da TV Globo representam uma mudança na relação entre a emissora e o sistema político brasileiro. Para ele, a Globo já não consegue exercer o papel de “tutora” da vida política nacional que, em sua avaliação, desempenhou durante décadas.

Em entrevista ao Bom Dia 247, Genoino sustentou que a controvérsia em torno das regras do debate mostrou que uma empresa de comunicação não pode se colocar acima da legislação eleitoral nem assumir a função de definir os limites da democracia. “Ela tem uma visão de democracia dela e acha que tem que exercer a tutela sobre o País”, afirmou.

O debate presidencial previsto para a noite de quinta-feira (1º) acabou cancelado depois de decisões judiciais que alteraram pontos do formato previamente estabelecido e da desistência de Flávio Bolsonaro (PL). O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já havia comunicado que não compareceria e concedeu, no mesmo horário, uma entrevista ao Flow Podcast. Segundo a Globo, as decisões judiciais interferiram nas regras acordadas para o encontro e levaram ao cancelamento.

Uma das decisões, da ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), impediu a Globo de exibir o púlpito vazio reservado a Lula e de dirigir perguntas ao candidato ausente. Outra decisão, do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a participação de Renan Santos (Missão).

É a partir desse episódio que Genoino questiona o papel assumido historicamente pela emissora nos processos eleitorais. Segundo ele, a Globo estabeleceu critérios próprios para definir quem teria espaço em suas entrevistas e debates e, depois, flexibilizou essas regras. Na avaliação do ex-presidente do PT, esse comportamento traduz uma concepção segundo a qual a emissora poderia atuar como árbitra do processo político.

“Ela própria criou uma interpretação de como dar espaço. Segundo, ela criou uma interpretação de que ela dá a palavra final sobre a democracia através desses grandes debates”, declarou.

Genoino também questionou o tratamento previsto para a ausência de Lula. Para ele, existe uma diferença entre informar ao público que determinado candidato não compareceu e transformar o espaço vazio em elemento do próprio debate, permitindo que adversários façam perguntas dirigidas a quem não está presente.

“Uma coisa é você ter uma cadeira lá e dizer que está ausente. Agora, você permitir o diálogo… Como é que você vai dialogar com uma cadeira vazia?”, questionou. Na avaliação do petista, esse formato configura “um tipo de tutela e de provocação”.

Ao desenvolver seu argumento, Genoino recorreu a eleições anteriores. Ele mencionou as campanhas presidenciais de 1994 e 1998, quando Fernando Henrique Cardoso não participou de debates no segundo turno, e a eleição de 2018, quando Jair Bolsonaro não compareceu a debates após o atentado sofrido durante a campanha. Para Genoino, esses antecedentes devem ser considerados na discussão sobre o tratamento dado pela televisão à ausência de candidatos.

A crítica de Genoino não se limita, porém, ao episódio desta semana. O ex-dirigente petista sustenta que o modelo de comunicação concentrado em grandes grupos privados produziu, ao longo da redemocratização, uma relação na qual veículos de grande alcance passaram a reivindicar para si uma posição de mediação do sistema político.

“A crise da Globo é a crise da tutela como poder moderador da democracia. Eles definem o que é democracia e eles vão ser tutores dessa democracia”, afirmou.

Para Genoino, o cancelamento do debate não significa o desaparecimento da influência da Globo, mas evidencia uma perda da capacidade da emissora de estabelecer sozinha as condições da disputa pública. “Eu acho que ontem ela sofreu uma derrota, uma derrota muito importante. Não é o final, mas é uma derrota histórica”, disse.

O ex-presidente do PT também relacionou essa mudança à expansão de novos meios de comunicação. Na mesma noite em que seria realizado o debate, Lula participou do Flow Podcast, opção que deslocou parte da atenção eleitoral da televisão aberta para uma plataforma digital. O presidente explicou no programa que considera pouco produtivos os debates de primeiro turno com muitos candidatos e afirmou preferir confrontos diretos, característicos de um eventual segundo turno.

Para Genoino, a multiplicação de canais digitais, podcasts, blogs e veículos independentes reduz a dependência das campanhas em relação às grandes redes de televisão. “Nós estamos saindo dessa camisa de força de uma mídia corporativa monopolista hereditária que quer dar a verdade”, declarou.

Ele acrescentou que a mudança não elimina o poder político e econômico dos grandes grupos de comunicação, mas cria outras possibilidades para candidatos, partidos e movimentos chegarem diretamente ao público. Nesse cenário, segundo sua análise, a televisão deixa de ocupar sozinha a posição de principal intermediária entre a política e o eleitorado.

Genoino resumiu sua avaliação afirmando que o episódio envolvendo o debate presidencial deve ser entendido como parte de uma transformação mais ampla no sistema de comunicação brasileiro. “A mídia corporativa monopolista hereditária não é neutra. Não existe neutralidade. Você pode lutar para ser imparcial, mas neutralidade não tem. As pessoas têm posição”, afirmou.

Na visão do ex-presidente do PT, o que ocorreu nesta reta final da campanha mostrou justamente os limites da pretensão de qualquer grupo de comunicação de funcionar como instância moderadora da democracia. Para ele, a definição das regras políticas cabe à legislação, às instituições e, em última instância, ao voto popular — e não a uma emissora de televisão.

Fonte: Brasil 247

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