Por João Lister — Brasil 247

A televisão brasileira se habituou a buscar nos Estados Unidos modelos de entretenimento, linguagens e maneiras de organizar o espetáculo. Essa influência não elimina sua criatividade, mas revela uma dependência que precisa ser interrogada: por que formatos concebidos em outra sociedade passam a ser tratados como instrumentos universais, adequados a qualquer realidade?

Na cobertura eleitoral, essa dependência assume consequências particularmente graves. Importa-se a encenação do confronto, reproduzem-se suas convenções e apresenta-se o resultado como uma exigência da democracia. Candidatos alinhados diante das câmeras, cronômetros, perguntas, réplicas e tréplicas: a repetição conferiu a essa fórmula uma autoridade que raramente se submete à avaliação de sua utilidade.

A discussão sobre sua qualidade costuma começar e terminar na conduta dos participantes. Pouco se pergunta se o próprio dispositivo favorece aquilo que promete oferecer: compreensão dos problemas nacionais e conhecimento dos projetos apresentados para enfrentá-los.

O cancelamento do debate presidencial da TV Globo previsto para 1º de outubro teve causas imediatas relacionadas às ausências dos principais candidatos e às decisões judiciais que alteraram as regras do encontro. Essas circunstâncias precisam ser reconhecidas. Entretanto, o episódio permite examinar uma crise mais profunda: o desgaste de uma fórmula cuja solenidade democrática já não corresponde à sua capacidade de esclarecer o eleitor.

Na entrevista ao Flow, naquela mesma noite, Lula apontou o centro dessa deficiência. A discussão não ganha continuidade. Intervenções curtas, respostas distantes umas das outras e provocações sucessivas impedem o desenvolvimento do raciocínio. Ao classificar esses encontros como “infrutíferos”, identificou uma dinâmica que favorece piadas, pegadinhas e frases destinadas à repercussão imediata. Nesse diagnóstico, está corretíssimo.

É uma crítica que merece ser compreendida em toda a sua extensão. O problema ultrapassa o excesso de candidatos, a distribuição dos minutos ou o comportamento de determinado participante. Envolve a transformação da política em produto audiovisual e a subordinação da reflexão às exigências de uma apresentação competitiva.

O confronto televisionado entre Kennedy e Nixon, em 1960, tornou-se um marco internacional da comunicação eleitoral. Sua projeção histórica, porém, não transforma aquela experiência em resposta permanente às necessidades de todas as democracias. Uma convenção de comunicação precisa ser julgada pelo que permite compreender, pelas relações que torna visíveis e pelas questões que deixa de fora.

O Brasil possui outra formação social, outra organização partidária e outras urgências. Nossa desigualdade exige compreender a relação entre renda, patrimônio, tributação, trabalho e acesso a direitos. A segurança pública envolve investigação, inteligência, circulação de armas, sistema prisional e financiamento das organizações criminosas. A soberania depende de capacidade tecnológica, indústria, energia, alimentos e posição internacional.

Esses assuntos possuem conexões, antecedentes e consequências. Quando são comprimidos em intervenções concebidas para produzir impacto imediato, perdem justamente aquilo que permitiria compreendê-los.

O mecanismo é conhecido. Um candidato formula uma pergunta que já contém uma acusação. O adversário consome sua resposta desfazendo a premissa, defendendo-se e procurando introduzir alguma proposta. A réplica recupera o ataque. A tréplica tenta encerrar com uma frase contundente. O cronômetro avança, o bloco termina e o assunto desaparece.

A encenação se movimenta. O conhecimento permanece quase imóvel.

O eleitor escuta promessas de melhorar a saúde, combater a criminalidade ou gerar empregos. Dificilmente consegue acompanhar a cadeia de decisões necessária para isso: quais medidas serão adotadas, como serão financiadas, em quanto tempo produzirão resultados, quais interesses serão contrariados e que obstáculos terão de ser enfrentados.

Sem essa cadeia, a proposta se reduz à declaração de intenção. E declarar boas intenções não exige compreender o país.

Todos podem defender uma educação melhor. As diferenças começam quando se examinam o financiamento, a formação dos professores, a evasão escolar e as condições de vida dos estudantes. Todos podem prometer prosperidade. A questão adquire substância quando se discutem distribuição de renda, produtividade, investimento, direitos trabalhistas e o lugar do Estado.

É precisamente quando o assunto começa a exigir pensamento que a dinâmica televisiva costuma interrompê-lo.

Existe, portanto, uma responsabilidade das emissoras que não pode ser transferida integralmente aos candidatos. A forma de organizar a comunicação estabelece incentivos. Quando a intervenção mais recompensada é aquela que constrange o adversário e rende um vídeo de poucos segundos, as campanhas prepararão constrangimentos e vídeos de poucos segundos.

Explicar exige etapas, condições e limites. Atacar exige um alvo.

Uma explicação pode ser complexa, admitir dificuldades e reconhecer que determinada medida produzirá resultados progressivos. Dentro da lógica do espetáculo, essas características podem ser apresentadas como hesitação. A frase agressiva, por sua vez, conquista aparência de firmeza mesmo quando não contém qualquer resposta ao problema discutido.

Confunde-se segurança na voz com consistência de pensamento. Confunde-se rapidez de reação com capacidade de governo.

As redes sociais aprofundaram essa distorção. O encontro televisionado passou a fornecer matéria-prima para cortes, memes e publicações de campanha. Uma intervenção pode fracassar como resposta e triunfar como conteúdo. A ressalva é retirada, a hesitação é isolada, a expressão facial é repetida e a frase se desprende do assunto que deveria esclarecer.

O acontecimento já nasce preparado para sua fragmentação.

Nesse processo, o público é estimulado a procurar o instante em que alguém foi desmoralizado. A discussão sobre o país se converte numa disputa pela posse de uma cena. O adversário precisa ser surpreendido, irritado ou colocado em posição embaraçosa. O resultado procurado é a imagem da vitória.

A satisfação oferecida ao espectador se aproxima da experiência de uma torcida. Ele reconhece seu lado, celebra a agressão bem-sucedida e compartilha a passagem que confirma sua identificação. Pode sair emocionalmente mobilizado sem ter compreendido melhor uma única política pública.

Essa é uma das consequências mais graves da espetacularização: a sensação de participação cresce enquanto a possibilidade de julgamento informado se estreita.

A mentira também encontra vantagens nesse ambiente. Uma acusação falsa pode ser formulada em segundos. Sua correção exige recuperar fatos, datas e circunstâncias. Quando o tempo se esgota antes que essa reconstrução seja concluída, a acusação permanece inteira na memória e a explicação chega mutilada.

O cronômetro registra igualdade. A comunicação produz uma assimetria.

Há, ainda, um empobrecimento do próprio conflito político. Projetos de sociedade divergem porque distribuem de maneira diferente recursos, direitos, riscos e oportunidades. A divergência envolve interesses materiais, concepções de justiça e escolhas sobre o futuro.

Quem financiará determinada política? Que setores pagarão mais impostos? Que direitos serão protegidos? Quais atividades receberão investimento? Como serão enfrentados os privilégios que bloqueiam uma mudança?

Essas questões podem revelar antagonismos muito mais profundos do que uma troca de insultos. Entretanto, exigem exposição, contexto e tempo. A provocação pessoal oferece um atalho: produz hostilidade sem precisar esclarecer o conflito que atravessa a sociedade.

Por isso, reconhecer a falência dessa fórmula não obriga a procurar uma nova versão do mesmo espetáculo.

É preciso abandonar a crença de que toda comunicação política relevante deve assumir a forma de debate entre candidatos. A fricção de ideias pode ser importante. Pode revelar diferenças, testar argumentos e expor contradições. Mas ela constitui apenas uma dimensão da formação do conhecimento político.

Compreender também exige escutar um raciocínio até o fim, conhecer uma trajetória, examinar uma proposta, acompanhar suas consequências e relacioná-la à experiência concreta da população. Há questões que se tornam mais claras pela exposição continuada, pela entrevista aprofundada, pela investigação jornalística ou pelo contato direto com a realidade social.

A exigência de esclarecimento não depende de colocar adversários diante de púlpitos.

Uma conversa prolongada pode permitir que uma ideia seja desenvolvida, questionada e retomada. Uma reportagem pode demonstrar o que determinada política produziu na vida das pessoas. Uma entrevista pode explorar a relação entre objetivos, decisões e resultados. A apresentação de um projeto pode tornar visíveis suas prioridades e os interesses que ele pretende enfrentar.

Essas possibilidades devem ser avaliadas pelo conhecimento que oferecem. Sua legitimidade não precisa ser medida pela semelhança com o ritual televisivo do confronto.

A entrevista de Lula no Flow ajuda a deslocar essa discussão. Ao apontar a ausência de continuidade nos debates, ele questiona uma convenção que as emissoras naturalizaram. A política pode ser comunicada por caminhos capazes de acolher uma elaboração que o cronômetro e a sucessão de ataques frequentemente destroem.

A televisão perde capacidade de compreender a transformação da comunicação quando insiste em considerar seu próprio ritual a medida de toda participação democrática.

Também merece atenção a ideia de que a população não suportaria uma discussão mais densa. Essa suposição ajuda a justificar a superficialidade oferecida a ela. Produz-se um conteúdo fragmentado, observa-se a reação ao fragmento e conclui-se que o público deseja apenas fragmentos.

O raciocínio é circular.

As pessoas convivem diariamente com problemas complexos. Administram rendas insuficientes, enfrentam dificuldades de acesso à saúde, lidam com transportes precários e tentam construir alguma segurança para seus filhos. Possuem experiência concreta das consequências das decisões políticas.

Uma comunicação que respeite essa experiência pode estabelecer conexões entre a vida cotidiana e as estruturas que a condicionam. Para isso, precisa oferecer linguagem compreensível e pensamento consistente. Acessibilidade não exige esvaziamento.

O cancelamento de uma transmissão deveria estimular essa reflexão. Continuar perguntando apenas quem compareceu, quem faltou ou quem teria vencido preserva o enquadramento que produziu o problema. A questão decisiva é o que a população consegue conhecer sobre o país e sobre aqueles que pretendem governá-lo.

Lula colocou o dedo nessa ferida ao denunciar uma dinâmica que não permite dar sequência às ideias. Sua crítica alcança a distância entre a importância da escolha presidencial e a pobreza do espetáculo preparado para representá-la.

Há milhões de pessoas esperando atendimento médico, famílias tentando pagar o aluguel, trabalhadores sem proteção e jovens sem perspectiva. Essas experiências exigem compreensão, responsabilidade e elaboração política. Merecem ocupar o espaço público com a profundidade de seus problemas.

A televisão brasileira precisa rever a pretensão de que uma convenção importada e repetida por décadas continue sendo o palco obrigatório da democracia.

O futuro do Brasil merece mais do que uma pegadinha bem executada.

Fonte: Brasil 247

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