445% ao ano: crédito rotativo bate recorde de R$ 311 bilhões
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – O uso do crédito rotativo do cartão de crédito, que ostenta a taxa de juros mais alta e opressiva do mercado financeiro nacional, alcançou patamares recordes de contratação em 2026 e tornou-se o epicentro das atenções do governo federal para conter a espiral de endividamento da população, informa o G1. Diante da escalada sem precedentes, o presidente Lula (PT) afirmou na quinta-feira (1º) que está em discussões avançadas com o Banco Central para propor a limitação de apenas um cartão de crédito por pessoa no país.
Os dados mais recentes do Banco Central expõem a gravidade da conjuntura: as concessões na linha do rotativo somaram expressivos R$ 311 bilhões nos primeiros oito meses de 2026, estabelecendo o maior volume da série histórica para o período. Em comparação ao mesmo intervalo do ano anterior, quando as operações somaram R$ 266 bilhões, a alta evidencia o avanço da dependência desse tipo de crédito. O montante parcial acumulado até agosto já se aproxima do total registrado ao longo de todo o ano de 2025, quando as concessões fecharam em R$ 403 bilhões.
O presidente Lula criticou a facilidade irresponsável com que as instituições financeiras concedem limites de crédito, citando o impacto direto nas famílias e na economia doméstica. “Esses dias conheci um pai de um menino autista que recebeu o quarto cartão de crédito em casa e gastou R$ 80 mil e estava com uma dívida de R$ 80 mil. Nós precisamos fazer uma reformulação na economia brasileira. Galípolo sabe que precisamos moralizar um pouco essa questão de crédito, não é possível a gente permitir que a sociedade seja endividada da forma mais irresponsável possível”, declarou o presidente Lula.
A modalidade, acionada automaticamente quando o consumidor não realiza o pagamento integral da fatura até o vencimento, cobra a taxa de juros mais alta de todas no mercado: impressionantes 445% ao ano registrados em agosto deste ano. O patamar contrasta radicalmente com outras modalidades de crédito oferecidas no país, a exemplo do crédito consignado, cujas taxas anuais variam de cerca de 24% a 56% ao ano. Diante do custo abusivo e extorsivo, analistas financeiros reafirmam categoricamente que essa forma de crédito deve ser evitada pelos bancarizados, sendo recomendada a quitação de 100% do saldo da fatura a cada mês.
O volume de pessoas atingidas pelo juro recorde atinge escala massiva. Conforme o Banco Central, o Brasil contava com 101 milhões de usuários de cartão de crédito no início deste ano — o que significa que praticamente metade da população do país faz uso desse instrumento financeiro. Deste contingente, cerca de 40 milhões de brasileiros encontravam-se pendentes na linha do crédito rotativo em janeiro deste ano. A consequência direta de juros tão elevados é um índice de inadimplência devastador, que alcançou a marca de 63,5% na modalidade. Na prática, mais de R$ 60 a cada R$ 100 concedidos no rotativo não são honrados pelos tomadores.
A trajetória dessa linha financeira mudou drasticamente após o período pandêmico. De acordo com o histórico do Banco Central, entre os anos de 2012 e 2020, as concessões anuais do crédito rotativo nunca haviam ultrapassado o teto de R$ 225 bilhões. A dinâmica alternou períodos de alta e baixa, impulsionada em 2020 e 2021 pelas transferências do Auxílio Emergencial pago à população.
Contudo, com o encerramento do benefício emergencial a partir de 2022, somado ao forte pico inflacionário do período pós-pandemia — com o índice oficial registrando mais de 10% em 2021 (maior taxa em seis anos) e 5,8% em 2022 —, o recurso ao rotativo disparou. Os desembolsos saltaram para novos patamares estruturais, até superarem a marca de R$ 400 bilhões ao ano em 2025.
Em março deste ano, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, destacou que a população passou a incorporar linhas emergenciais e de custo proibitivo ao orçamento mensal. “Nossa dimensão do BC é como a gente consegue construir alternativas para o cliente ter uma opção mais adequada à situação dele”, disse o presidente do BC, Gabriel Galípolo, enfatizando a necessidade de “produzir arranjos mais saudáveis para quem está buscando crédito”.
No esforço para oferecer liquidez a taxas razoáveis, o governo federal lançou no ano passado o crédito consignado voltado a trabalhadores do setor privado, que liberou R$ 130 bilhões até junho deste ano. A medida permite o uso do FGTS como garantia do empréstimo, embora entidades de defesa do consumidor orientem cautela. Além disso, vigora desde janeiro de 2024 o teto aprovado pelo Congresso Nacional e pelo governo que limita o saldo devedor do rotativo: o valor total cobrado em juros e encargos não pode ultrapassar o valor original da dívida (uma dívida inicial de R$ 100, portanto, não pode exceder R$ 200 no total).
Fonte: Brasil 247