Globo e a profecia de Lula para 2026: “ano da verdade”

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Por Joaquim de Carvalho — Brasil 247

“Quem sabe um dia ela reconhece que eu era inocente e que ela prestou serviço a um crápula como o Moro?”

A frase foi dita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na noite desta quinta-feira, 1º de outubro, durante entrevista ao Flow Podcast. Lula falava da perseguição que sofreu durante a Operação Lava Jato e fez uma comparação histórica: lembrou que a Globo levou quase meio século para reconhecer que havia errado ao apoiar o golpe militar de 1964.

A frase completa é ainda mais dura:

“A imprensa avacalha com você a vida inteira e depois não tem a coragem de pedir desculpas. Ninguém que me acusou pediu desculpas até hoje. Mas um dia vão pedir. Quem sabe daqui a uns 50 anos, como a Globo só reconheceu o golpe militar depois de 50 anos… Quem sabe um dia ela reconhece que eu era inocente e que ela prestou serviço a um crápula como o Moro?”

Não deixa de ser simbólico que Lula tenha pronunciado essas palavras justamente na noite em que a Globo pretendia realizar seu último debate presidencial antes do primeiro turno.

Lula decidiu não comparecer. Preferiu o Flow.

Flávio Bolsonaro, que inicialmente confirmara presença, desistiu. No mesmo dia, decisões judiciais contrariaram o script da emissora: o TSE proibiu que fosse mantido um púlpito vazio para Lula e o STF determinou a inclusão de Renan Santos no debate. A Globo anunciou o cancelamento menos de uma hora antes do horário previsto, alegando que as decisões interferiam nas regras anteriormente acordadas.

Pela primeira vez em muito tempo, a Globo descobriu que pode organizar o palco principal    de uma eleição presidencial, mas ela não tem a última palavra. Há juízes no Brasil, e um dos protagonistas da eleição pode simplesmente escolher outro palco, como fez Lula.

O presidente estava no Flow. Flávio Bolsonaro, com medo de Renan Santos, fez uma transmissão pelas redes sociais. A emissora que durante décadas estabeleceu não apenas o cenário, mas em boa medida a liturgia das campanhas presidenciais brasileiras, terminou a noite sem debate.

O episódio talvez seja uma metáfora perfeita da mudança de época.

Em dezembro de 2025, Lula afirmou que 2026 seria “o ano da verdade”. Meses depois, tornou a ideia ainda mais explícita: “a verdade vai destruir a mentira”.

Certamente não estava se referindo especificamente à Globo.

Mas a história às vezes constrói suas próprias ironias.

A Globo conhece como poucas instituições brasileiras o peso de uma verdade que chega tarde.

Em 31 de agosto de 2013, as Organizações Globo publicaram um editorial histórico: “Apoio editorial ao golpe de 64 foi um erro”.

“À luz da História”, reconheceu o grupo, “não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro”.

Tinham transcorrido 49 anos desde o golpe.

O problema é que o apoio à ditadura não foi apenas uma decisão editorial abstrata.

A TV Globo começou a operar em abril de 1965, pouco mais de um ano depois do golpe, e foi durante o regime militar que se transformou na principal rede de televisão brasileira.

O relatório final da Comissão Nacional da Verdade registrou que o acordo entre a Globo e o grupo norte-americano Time-Life foi considerado inconstitucional por uma CPI da Câmara. Registrou também as boas relações entre Roberto Marinho e o então ministro do Planejamento Roberto Campos e concluiu que a empresa se transformou, “com o apoio do governo militar”, no maior conglomerado de telecomunicações do país.

Há uma frase particularmente reveladora daquele período. Em 1972, o general Emílio Garrastazu Médici declarou:

“Sinto-me feliz todas as noites quando assisto ao noticiário. Porque, no noticiário da TV Globo, o mundo está um caos, mas o Brasil está em paz.”

Era o Brasil da censura, das prisões políticas, da tortura e dos desaparecimentos.

Na tela da Globo, segundo o próprio ditador, reinava a paz.

Quarenta e nove anos depois do golpe, a empresa reconheceu o erro.

A pergunta que Lula lançou no Flow é se haverá um reconhecimento histórico sobre a Lava Jato.

Durante anos, Sergio Moro foi tratado como símbolo do combate à corrupção.

A Lava Jato dominou o Jornal Nacional, a GloboNews, os jornais, revistas, rádios e portais do grupo. Delações ainda sob investigação transformavam-se em manchetes. Operações policiais eram acompanhadas ao vivo. As acusações recebiam enorme exposição antes que os processos chegassem ao fim.

A Lava Jato ajudou a produzir uma devastadora criminalização da política. Dilma Rousseff sofreu impeachment em 2016. Lula foi condenado por Sergio Moro, preso em 2018 e impedido de disputar aquela eleição. Jair Bolsonaro venceu.

A frase de Lula no Flow ficará como provocação para o futuro: se a Globo precisou de quase meio século para reconhecer seu erro diante da ditadura e décadas para admitir o erro de 1989, quanto tempo levará para fazer um balanço público e profundo de seu papel na Lava Jato?

Lula colocou a pergunta sobre a mesa.

“Quem sabe um dia a Globo reconhece?”

Pode levar 50 anos.

Mas talvez não haja mais 50 anos disponíveis para esperar.

Porque a tecnologia mudou, a sociedade mudou, a comunicação mudou e o público já não depende de uma única tela para conhecer o Brasil.

A Globo chegou à noite de 1º de outubro preparada para oferecer ao país o seu grande espetáculo eleitoral.

As luzes estavam acesas.

Os estúdios estavam preparados.

Alguns candidatos já haviam chegado.

Mas o personagem central da eleição estava em outro lugar.

E a Globo cancelou o debate.

Há momentos em que uma época termina sem que ninguém anuncie seu fim.

Talvez tenhamos assistido a um deles.

2026, dizia Lula, seria o ano da verdade.

Talvez ele estivesse pensando em outra coisa.

Mas o trem da história tem seus próprios trilhos.

Fonte: Brasil 247

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