‘Balbúrdia’ do STF chega a debate da Globo e desestabiliza eleição de forma inédita

0

Por Fabio MuraKawa — JOTA

Desde que o celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro implodiu a paz no Supremo Tribunal Federal (STF), a balbúrdia judicial em Brasília escalou para níveis estratosféricos, chegou nesta quinta-feira (1º/10) ao debate da TV Globo e se tornou o mais grave fator de instabilidade de uma eleição presidencial desde a redemocratização. 

Em cima da hora, atos dos ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Kassio Nunes Marques, presidente da Corte, e Estela Aranha, e do ministro do STF Gilmar Mendes redesenharam o programa, alterando participantes e regras quando tudo já estava montado. O Judiciário passou a definir não apenas quem estaria no palco, ao forçar a participação de Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), mas o que poderia ou não ser mostrado na transmissão. A própria Globo atribuiu o cancelamento do debate à “insegurança jurídica”.

Conheça o JOTA PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transparência e previsibilidade para empresas

As decisões atingiram em cheio a estratégia de Flávio Bolsonaro (PL). Sua campanha vinha preparando perguntas e provocações ao púlpito vazio de Lula (PT), numa tentativa de transformar a ausência do presidente em símbolo de covardia. A entrada de Renan Santos criou outro problema.

Entre os candidatos de direita, Renan é, justamente, quem faz os ataques mais duros a Flávio. Já o chamou de “bandido” e “ladrão” e, em atos de campanha, tem colocado o filho de Jair no mesmo balaio de “corrupto” de Lula. O presidenciável do PL, que esperava participar de uma “conversa entre amigos” em ambiente controlado, desistiu do debate da Globo depois das mudanças.

Lula, por sua vez, fez jus mais uma vez à velha fama de presidente com sorte. Bancou uma decisão que boa parte de seus aliados considerava arriscadíssima. Sidônio Palmeira e outros integrantes da campanha defendiam sua presença e temiam entregar a Flávio, a três dias da votação, duas horas gratuitas na emissora de maior audiência do país para atacá-lo sem contraponto. 

O risco que Lula decidiu correr praticamente desapareceu sem que ele precisasse mudar de ideia. O púlpito vazio foi proibido, o adversário que pretendia chamá-lo de covarde acovardou-se e, por fim, o próprio debate deixou de existir. 

Interferência da Justiça

Pela primeira vez em décadas, uma eleição presidencial chegará ao fim do primeiro turno sem que os dois candidatos que lideram as pesquisas tenham se enfrentado num debate. Mas o episódio é muito maior do que a sorte de Lula ou o prejuízo eleitoral de Flávio. A eleição de 2026 ocorre sob uma interferência judicial de intensidade incomum, com decisões sucessivas afetando propaganda, conteúdo nas redes, participação em debates e as próprias regras desses encontros. 

Isso acontece ao mesmo tempo em que o Supremo trava sua guerra interna mais grave, deflagrada pela divulgação das mensagens extraídas do celular de Vorcaro, antagonizando os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes. O resultado da eleição ajudará a configurar o equilíbrio de forças na mais alta Corte brasileira nas próximas décadas. A vitória de Lula ou de Flávio é que definirá para onde a balança vai pender, o que também motiva a sucessão de liminares e ofícios vista nas últimas semanas.

É por isso que o cancelamento do debate não deve ser tratado como uma excentricidade de campanha. É mais um sintoma da deterioração institucional exposta pelo caso Master. Mesmo onde não há ilegalidade explícita, a sensação é a de que as pessoas que comandam as instituições atuam, no mínimo, em nível moral questionável. 

Democracia doente

O cancelamento de um debate presidencial horas antes de começar não é apenas danoso à democracia. É sintoma de algo mais grave, de um sistema democrático que está adoecido e disfuncional. Só em uma democracia muito doente é possível a um banqueiro construir — com dinheiro advindo de fraudes bilionárias e uma profusão de festas com prostitutas — uma rede de relações que alcança o coração do Executivo, do Congresso, do Supremo e do Ministério Público. 

Sintoma de uma democracia doente é também ter ministros da mais alta Corte em guerra aberta entre si, enquanto tentam influenciar o resultado das urnas. É o país chegar à eleição com um ex-presidente condenado e preso por tentativa de golpe de Estado, enquanto um de seus filhos conspira com a Casa Branca para viabilizar a vitória do irmão. É ver a pauta eleitoral de impeachment de ministros do STF extrapolar a bolha bolsonarista, diante da promiscuidade escancarada pelo WhatsApp de Vorcaro.

No meio de tudo isso, o eleitor foi privado do básico. A dois dias de escolher o próximo presidente da República, o Brasil pouco discutiu sobre Lula e Flávio Bolsonaro. O processo eleitoral, até aqui, foi quase todo sobre escândalos de corrupção e guerra institucional. 

A democracia, tão evocada pelos candidatos e tão desrespeitada pela cúpula do Poder, é mera coadjuvante nesta eleição.

Fonte: JOTA

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *