Por Marcelo Soares — Revista Pesquisa Fapesp

Nos primórdios do Instituto Butantan, dizem as histó­rias, Vital Brazil e sua equipe pioneira chegaram a aplicar em si mesmos doses controladas de venenos ou do soro experimental que criavam. Não havia os protocolos éticos atuais, e foi em parte com essas pesquisas que o Brasil ganhou uma insti­tuição científica mundialmente reconhecida.

Hoje, pisar em jararacas pela ciência é considerado algo tão exótico que nos traz um troféu Ig Nobel, como veremos nesta edição. Em seus melhores momentos, o prêmio da revista Annals of Improbable Research celebra com humor a criatividade metodológica. (O artigo foi retratado porque, segundo o comitê de ética, eles pisaram em cobras recém-nascidas. A equipe discorda.)

Neste mês, trazemos também as homenagens mais tradicionais, como os ganhadores do Prêmio Fundação Conrado Wessel, e os livros lançados por pesquisadores brasileiros. E vai ter moda de viola em Barão Geraldo!

Prêmio Wessel

Mario Murakami, engenheiro de alimentos e doutor em física nuclear pela Unesp, foi reconhecido com o Prêmio Fundação Conrado Wessel de Ciência. Diretor do Laboratório Nacional de Biorrenováveis do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Mate­riais e coordenador do Programa FAPESP de Pesquisa em Transição Energética, ele pesquisa os desafios da bioenergia, bioeconomia e biorrenováveis.

O prêmio de Cultura foi para o padre Júlio Lancellotti, reconhecido nacional e internacionalmente por seu trabalho de acolhimento e atenção à fatia mais excluída da população de São Paulo. Cada um receberá um prêmio de R$ 500 mil em dinheiro, numa cerimônia que ocorrerá em outubro.

“São escolhas que reafirmam o propósito do Prêmio FCW de reconhecer trajetórias de excelência, impacto social e compromisso ético”, disse Carlos Vogt, diretor­-presidente da fundação e ex-presidente da FAPESP.

Ig Nobel

O bem-humorado prêmio a pesquisas científicas pouco ortodoxas foi concedido, na categoria Biologia, a um grupo de pesquisadores brasileiros e foi repre­sentado por João Miguel Alves Nunes, atualmente estudante de doutorado no IB-USP. Eles avaliaram o que faz com que uma jararaca-da-mata (Bothrops jararaca) dê o bote quando é pisada — e desco­briram que não é sequer preciso tocar na cobra para que ela reaja. No Brasil, estima-se que mordidas dessa jararaca correspondem a 90% dos acidentes registrados envolvendo humanos e cobras.

A metodologia foi o que chamou a atenção da banca: em ambiente controlado, com botas de segu­rança, os autores pisaram perto e sobre diversas partes do corpo de 75 cobras peçonhentas, com várias intensidades, registrando em relação aos cien­tistas o tamanho do corpo, sexo, temperatura do corpo, temperatura ambiental e hora do dia em que a interação ocorria. À imprensa, Nunes disse que descobriu no experimento ser alérgico ao veneno.

Residência artística

Ivan Vilela, violeiro, professor da USP e pesquisador de cultura popular, iniciou em setembro uma residência artística no Instituto de Estudos Avançados da Unicamp (IdEA). Até dezembro, ele dará palestras e minicursos sobre temas que capturam sua atenção, como as tradi­ções culturais orais e o Clube da Esquina. De 5 a 9 de outubro, ele oferece uma oficina para os estudantes de música do Instituto de Artes da universidade.

Comunicação da ciência

Em 26 e 27 de outubro, o Centro Alemão de Ciência e Inovação (DWIH) realiza no Goethe-Institut São Paulo o encontro “Science Communication in Transition: Strategies, Responsibilities and Emerging Challenges in Germany and Brazil”.

Os palestrantes alemães incluem os pesquisadores Benedikt Fecher, diretor da Wissenschaft im Dialog (WiD), Jeanne Rubner, da Universidade Técnica de Munique, e Monika Taddicken, da Universidade Técnica de Braunschweig, além do jornalista Markus Lehmkuhl. Do Brasil, participam os jornalistas Bruno de Pierro, Daniel Dieb, Luiza Caires, Meghie Rodrigues e Karina Toledo, editora da Agência FAPESP, além dos pesquisadores Juri Castelfranchi e Mariana Rodrigues Pezzo. Mais informações e inscrições estão no site do DWIH-São Paulo: tinyurl.com/2s3rntat.

Estante

A ciência do universo: (quase) tudo o que você sempre quis saber sobre o cosmos, mas nunca perguntou

Rogério Rosenfeld (Companhia das Letras)

O professor de física teórica da Unesp explica as descobertas da área que ajudaram a entender o mundo desde os primeiros modelos cosmoló­gicos baseados na Teoria da Relatividade Geral.

Matemática para seres humanos (e alguns robôs)

Marcelo Viana (Tinta-da-China)

O diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) organiza textos seus publicados no jornal Folha de S.Paulo, mostrando como a matemá­tica se manifesta em diversos aspectos do cotidiano.

Estrela do novo rumo: literatura negra e os sentidos da modernidade periférica

Mário Augusto Medeiros da Silva (Zahar)

O sociólogo, professor da Unicamp e pesquisador da cultura produzida pelos negros no Brasil analisa a luta pela abertura dos espaços culturais de São Paulo a autores, de Carolina Maria de Jesus aos Racionais MCs.

Presença indígena no Brasil

Mércio Pereira Gomes (Contexto)

Um dos mais longevos presidentes da Funai (2003-2007), o professor de antropologia da UFRJ analisa a demografia indígena no Brasil, mostrando que a população dos povos originários tem aumentado.

Ecologias de crise: uma teoria cibernética da radicalização

Leticia Cesarino (Ubu)

A pesquisadora da UFSC investigou como a parti­cipação em ambientes digitais pode levar usuários a aderir ao extremismo e cometer atos de violência extrema, de cunho político ou não.

Anote na agenda

30.set a 2.fev. | FICA-SP (Fixação e Incentivo à Carreira Acadêmica em São Paulo)

Doutores em início de carreira com alto potencial acadêmico e sem vínculo empregatício, com base em São Paulo, podem se inscrever na segunda chamada do FICA-SP. Serão selecionados até 100 projetos, em várias áreas acadêmicas. O programa é uma parceria da FAPESP com o CNPq e a Capes.

5 e 6.nov. | 1º Congresso Acadêmico Brasileiro de Cannabis Medicinal

Estão abertas as inscrições para o Cabcann-FCF/USP, que ocorrerá no campus USP Butantã. Criado por Paulo Chanel Deodato de Freitas, o evento tem apoio da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que regulamentou o cultivo, a pesquisa, a fabricação e a comercialização de cannabis para fins medicinais e científicos no Brasil.

Fonte: Revista Pesquisa Fapesp

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