Eleição é sobre o que nos importa de verdade
umsoplaneta

Em maio, finalizei um capítulo de cinco anos como sócia da KPMG porque queria um tempo para refletir sobre vários aspectos da minha vida professional e pessoal. Fiz então um mini sabático, em maio e junho deste ano, para pensar em quais temas quero focar na minha próxima etapa.
Há um tema que não sai dos meus pensamentos. Ele já estava presente antes do mini sabático, esteve comigo durante ele e ainda me acompanha. O tema? O fato de que estamos vivendo um momento de disputa acirrada pela visão de futuro que cada um de nós temos. Sim, disputa. Há campanhas de convencimento potentes ativadas para ganhar a sua imaginação e definir as suas expectativas sobre o seu e nosso futuro.
Essa disputa é muito importante. Porque o futuro não é uma previsão, algo dado, uma estação para onde o presente nos leva. O futuro começa em nossa imaginação, com o que desejamos, e vai se tornando realidade através de cada decisão que tomamos hoje, com este futuro na cabeça. Essas decisões são do interesse de muitos.
Pessoas que tem poder – político, financeiro, outros – dedicam boa parte do seu tempo pensando nisso e definindo o futuro que lhes interessa e como vão chegar lá. Isso não é uma novidade. Eles usam muitos recursos para convencer outros de que o futuro bom para eles é bom para todos. Mas, o que está mais explicito recentemente é o fato de que um grupo de pessoas com enorme poder vem investindo há décadas para que pessoas do mundo todo compartilhem uma visão específica em vários lugares, desde o nível regional ao global.
Digo específica, porque há componentes bem definidos nessa visão: um futuro onde conflitos armados são normais, onde a violência generalizada é banalizada, atos de discriminação por gênero ou origem ou grupo social são parte do nosso cotidiano, assim como deveriam ser integrados o controle sobre as decisões individuais através da tecnologia, entre outros aspectos que tem sido disseminado como um futuro “inevitável”.
Essas campanhas utilizam recursos do áudio visual extensivamente, inclusive criando dados e pessoas que não são reais. Esses recursos são importantes para as campanhas porque nós humanos aprendemos através da observação. Nossos neurônios são ativados da mesma forma, tanto quandos fazemos algo nós mesmos, ativamente, ou se vemos alguém fazendo. Aprendemos sempre quando vemos humanos performando uma tarefa. Fica guardado em nosso cérebro. Pense em como crianças imitam adultos.
Agora pense, por exemplo: quantas vezes você está exposto a conteúdo violento contra homens, mulheres e crianças, nos filmes, vídeo games e notícias? Será por isso que isso tudo vai parecendo normal? Será por isso que há mais pessoas aptas a violência na sociedade?
Mas, há esperança! Um dos aspecto mais incríveis da natureza humana é que nós humanos temos várias formas de reagir ao ambiente ao qual somos expostos e mudá-lo. Este fato está presente em toda a história da humanidade. Nós não deixamos a idade da pedra porque acabaram-se as pedras, mas porque entendemos algo novo, nunca antes pensado. Inúmeras vezes na nossa história abandonamos algo usual por algo novo e melhor. Seguimos criando o novo, o que simplesmente não existia antes. Criamos os templos religiosos, os satélites e naves espaciais, os computadores, a democracia, a escravidão, a escola, a saúde, os rituais,… enfim.
Em tempo de eleições somos provocados a pensar que futuro queremos e quem serão nossos aliados para chegar lá. Mas, como estamos enferrujados para pensar em futuros de alguns anos, pois o cotidiano nos engole, vamos meio a contragosto tentar fazer uma ginástica mental que não estamos acostumados a fazer.
Uma pena, pois eleições são um dos poucos momentos em que somos convidados – de forma direta ou não – a parar para pensar, ainda que por um curto espaço de tempo, que futuro queremos nos próximos quatro anos? Quem são nossos aliados para a construção deste futuro que queremos?
Se no meio dessa cacofonia, com as campanhas por uma visão especifica como pano de fundo, conseguirmos refletir quais pontos são de fato os que mais nos importam, escutamos com maior cuidado as/os candidatas/os, filtramos o que interessa do ruído e conseguimos começar a ter uma ideia mais clara sobre quem pode ser considerada/o aliada/o.
Eleições são na verdade um momento exatamente sobre esta pergunta: o que te importa de verdade e quem são seus aliados para conseguir isso?
Eu voto por um futuro inclusivo, igualitário, inovador e abundante! Acho que para chegar lá precisamos de educação pública e gratuita de qualidade, um sistema de saúde público de excelência, além de outras agendas que me interessam, como o salário mínimo que se possa viver dele e construção de moradias em lugares seguros, considerando as mudanças climáticas. Assim, vou escutando diariamente o horário eleitoral pensando nisso.
E você? O que te importa de verdade?
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Fonte: umsoplaneta