Saúde mental precisa deixar de ser promessa e virar política pública
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Saúde
Luiz França
1/10/2026 18:00
Durante muito tempo, falar de saúde mental no Brasil foi quase sinônimo de falar de doença. Procurava-se ajuda quando a crise já estava instalada, quando a família já não sabia o que fazer ou quando o sofrimento havia chegado ao limite.
Esse modelo precisa mudar.
Saúde mental também é prevenção. É acolhimento. É conseguir identificar os primeiros sinais de sofrimento. É ter onde procurar ajuda antes que uma situação se transforme em emergência. E é compreender que esse debate não pode ficar restrito aos consultórios: precisa estar nas escolas, nas unidades de saúde, nos ambientes de trabalho, nas comunidades e no Congresso Nacional.
Falo sobre esse assunto não apenas como alguém preocupado com uma questão de saúde pública. Falo também a partir de uma experiência que transformou profundamente a minha vida.
A perda de um filho me colocou diante de uma dor que nenhuma família deveria experimentar. Em vez de permitir que essa história permanecesse apenas no campo pessoal, busquei transformá-la em instrumento de reflexão, acolhimento e ajuda a outras pessoas.
Foi dessa caminhada que nasceu o livro Reset — Saúde Mental e Resiliência, no qual compartilho experiências e reflexões sobre luto, recomeço, saúde emocional e a importância de reconhecer quando é hora de buscar ajuda.
Mas esse trabalho não ficou apenas nas páginas de um livro.
Por meio do Instituto Rumo Certo DF, que fundei, desenvolvemos ações sociais e iniciativas relacionadas à saúde mental, ao autismo, à inclusão e ao acolhimento de pessoas em situação de vulnerabilidade. Também realizamos o Workshop Reset, reunindo profissionais, especialistas e a sociedade para discutir ansiedade, depressão, dependência química, saúde mental no ambiente de trabalho e a realidade emocional das mães atípicas.
Essa experiência me ensinou algo essencial: muitas vezes, o sofrimento acontece silenciosamente. Por isso, saúde mental não pode ser tratada apenas quando uma crise já se instalou. Precisamos chegar antes, acolher antes e oferecer caminhos antes que seja tarde.
O Brasil já possui uma estrutura pública dedicada a esse atendimento. A Rede de Atenção Psicossocial, a RAPS, reúne serviços que vão da atenção básica aos Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS, além do atendimento hospitalar e de urgência.
A existência dessa rede, no entanto, não encerra o problema. O desafio é fazer com que o atendimento chegue a quem precisa, no momento em que precisa.
É justamente nesse ponto que o Congresso Nacional pode exercer um papel ainda mais relevante.
Saúde mental precisa ter mais espaço no orçamento público. É necessário ampliar os recursos destinados à prevenção, ao atendimento psicológico e psiquiátrico e ao fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial.
As emendas parlamentares também podem ser instrumentos importantes nessa construção. Uma parcela maior desses recursos pode ajudar estados e municípios a ampliar estruturas, qualificar serviços e fortalecer equipes que atendem diariamente pessoas em sofrimento psíquico.
Mas financiamento, sozinho, não resolve tudo.
É preciso aprimorar políticas públicas, fiscalizar sua execução e construir uma agenda permanente de saúde mental no Congresso. Uma agenda capaz de integrar saúde, educação e assistência social e que trate prevenção e acolhimento como prioridades.
Crianças e adolescentes merecem atenção especial. A escola é um dos espaços em que mudanças de comportamento e sinais de sofrimento podem ser percebidos precocemente. A integração entre comunidade escolar, famílias e rede pública de saúde pode permitir que o cuidado comece antes que uma situação se transforme em crise.
As famílias atípicas também precisam estar no centro desse debate. O diagnóstico precoce do autismo deve estar acompanhado de acesso a equipes multidisciplinares, inclusão escolar, continuidade do tratamento e suporte às famílias.
Porque cuidar da pessoa com autismo também significa olhar para quem cuida.
Há, portanto, um caminho possível: mais prevenção, mais recursos, fortalecimento da rede pública e políticas capazes de chegar às pessoas antes da crise.
O Congresso dispõe de instrumentos para contribuir com esse avanço. Pode aperfeiçoar a legislação, discutir o orçamento da União, fiscalizar políticas públicas, direcionar recursos e cobrar resultados.
O que não podemos é aceitar que saúde mental ganhe atenção apenas diante de uma tragédia ou durante campanhas de conscientização.
Também precisamos superar a ideia de que procurar ajuda é sinal de fraqueza.
Quantas pessoas continuam sofrendo em silêncio porque têm vergonha de dizer que não estão bem? Quantas famílias percebem que alguma coisa está errada, mas não sabem onde procurar ajuda? Quantos casos poderiam ter outro desfecho se houvesse acolhimento no momento certo?
Não existem respostas simples para perguntas tão difíceis. E seria irresponsável afirmar que uma lei, uma emenda ou um programa resolverá sozinho um problema dessa dimensão.
Mas o Poder Público pode fazer mais.
Pode ampliar o acesso. Pode fortalecer a prevenção. Pode apoiar as famílias. Pode destinar recursos. E, sobretudo, pode construir uma rede capaz de chegar às pessoas antes que seja tarde.
Minha experiência pessoal me aproximou desse debate. O Reset e o trabalho desenvolvido pelo Instituto Rumo Certo DF me permitiram conhecer ainda mais de perto histórias de pessoas e famílias que precisam de acolhimento.
Mas saúde mental não pertence a uma pessoa, a um partido ou a uma eleição. É uma questão de saúde pública.
O Brasil precisa falar mais sobre saúde mental. Mas precisa, principalmente, fazer mais.
Porque transformar escuta em ação é o primeiro passo para transformar sofrimento em cuidado.
E saúde mental não pode continuar sendo apenas uma promessa. Precisa ser política pública.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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Fonte: Congresso em Foco