Trilha do Clima: percurso entre Juazeiro e a região da Serra dos Morgados em Jaguarari demonstra diversidade climática do Semiárido

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Por Ana Paula Cavalcanti — Combate Racismo Ambiental

Foto: Eixo Educação e Comunicação do Irpaa

Trilha do Clima: percurso entre Juazeiro e a região da Serra dos Morgados em Jaguarari demonstra diversidade climática do Semiárido

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Duas realidades reveladas em paisagens: uma da cidade de Juazeiro, muito urbanizada, com forte intervenção humana, inclusive com avanços de grandes empreendimentos energéticos; outra com aspectos mais rurais, na região da Serra dos Morgados, em Jaguarari, com vegetação densa. A primeira está abaixo de 400m de altitude; a última, aproximadamente, na casa dos 1.000 metros. E entre um cenário e outro, há uma diversidade de condições climáticas. 

Juazeiro está dentro da chamada “depressão sertaneja”, como é chamada a região dentro do Semiárido que tem um volume médio de chuvas inferior à 600 mm/ano, com evapotranspiração potencial na casa dos 3.000 mm/ano e que, em determinados intervalos de tempo, pode alcançar índices de aridez. Dentro do Semiárido também existem diversos microclimas que, em resumo, estão relacionados  a um conjunto de condições atmosféricas de uma área pequena e localizada, diferente do clima predominante na região ao redor, como em lugares situados em áreas serranas de Jaguarari, Campo Formoso e Senhor do Bonfim.

Em um intervalo de apenas 100 Km, aproximadamente, partindo de Juazeiro até a Serra dos Morgados, em Jaguarari, é possível observar mudanças nas condições climáticas, na vegetação e no solo. Relacionado a isso, também é perceptível o quanto a ação humana interfere nesse processo, por exemplo, por meio da urbanização e seus consequentes impactos na vegetação nativa. 

Todos esses assuntos integraram as discussões de uma “Trilha do Clima”, atividade formativa realizada com colaboradores/as do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa) e estudantes da República do Irpaa. A programação aconteceu ao longo desta terça-feira (29), com um roteiro iniciado na entrada de Juazeiro, pela BR 407, e concluído na Cachoeira Barrocas do Faleiro, da comunidade bonfinense Barrocas, localizada na região limítrofe com Jaguarari. 

No início e em trechos intermediários da trilha, são observadas condições que variam entre aridez, semiaridez e zona de transição. Já no final do percurso, há altitudes que alcançam a casa dos 1.000 metros, com características de subumidade e índices de chuvas acima dos 800mm.

Nesse trajeto, os/as participantes puderam observar, na prática, questões como a relação entre a altitude e o índice de chuvas. Ou seja, na medida em que aumenta a altura acima do nível do mar, os índices pluviométricos também tendem a aumentar. A paisagem muda conforme as condições  climáticas e, com ela, uma  série de outros aspectos, como as atividades e dinâmicas produtivas de cada lugar.

“Nas áreas mais áridas, com altitudes inferior a 500 m, de solo rasos e desprovidas de irrigação se faz mais adequado a criação de caprinos, ovinos e abelhas, como também requer áreas maiores e maior dependência da vegetação nativa como protetora do solo. Ao passo que nas áreas de transição – semiárida, algumas lavouras perenes já se fazem menos vulneráveis e a população de frutíferas nativas é mais abundante; bem como criações dependentes de grãos e tubérculos, como aves e suínos são viáveis ao modo de produção agroecológica. Já nas áreas de altitudes superior a 600m, de temperaturas mais amenas, maior precipitação e diversidade de fontes perenes de água, a agricultura em si se faz viável inclusive com plantas mais exigentes em água como é o caso do café, banana, desde que em sistema agroflorestal. Vimos isso na trilha do clima, sendo desenvolvido pelas famílias com muita naturalidade, evidenciando a importância de um olhar atento da extensão rural a essas distintas realidades como forma de fortalecer processo de adaptação à realidade climática e estabelecimento de produção que combina conservação ambiental e resiliência climática”, enfatiza o coordenador de projetos sociais no Irpaa, André Rocha.

Além dos temas específicos sobre o clima, a vivência proporcionou esses diálogos com as comunidades para compreensão dos temas correlacionados, principalmente das questões produtivas e da organização social. Foram destaques a tradicional produção de café artesanal em Jaguarari, a produção de farinha na comunidade bonfinense Canavieira e a produção de bananas em Barrocas. Também foi possível discutir em alguns lugares como está o debate e processo de resistência aos empreendimentos energéticos que causam degradação ambiental e não dialogam com as comunidades.

Para exemplificar a importância de zelar pela biodiversidade, no entorno da comunidade Barrocal existem  18 nascentes em atividade,  além de outras duas que estão em processo de revitalização. É nesse contexto ambiental que existem mapeamentos para mineração e instalação de aerogeradores, diante dos quais a comunidade, felizmente, vem se mobilizando e resistindo.

Durante a avaliação da trilha, um dos integrantes da equipe do Irpaa, o coordenador de projetos sociais Judenilton Souza, pontuou que, além da questão climática, foi importante conhecer mais sobre o modo de vida nesses lugares, “para que as pessoas absorvam essa ideia de forma mais concreta. A gente dá um salto nesse debate, no ponto de vista de sair do abstrato, começar a andar vendo o clima de fato, as mudanças (…) fico feliz pelo resultado”.

Nesse mesmo sentido, as juventudes da República destacaram que a vivência proporcionou aprendizados importantes  de forma prática, tendo em vista que são discussões, às vezes, envolvem termos muito técnicos. Entre os apontamentos, eles/as comentaram as observações feitas no porte e características da vegetação e do solo e que isso contribui muito para formação, inclusive para que observem melhor as condições climáticas de onde vivem:

“Foi de suma importância isso, a gente ver que tá em um clima, tá de um jeito e ‘do nada’ já muda para outro, a vegetação é muito diferente. Na minha região também é assim, mas nunca que você fica ‘nossa é tão diferente’, você só vai (não repara na diferença)”, frisa Rafaela Lima, egressa da Escola Família Agrícola Regional (EFAR), de Brotas de Macaúbas-BA.

Para além de uma atividade formativa interna, por meio dessa vivência o Irpaa demonstra para educadores/as, profissionais de diversas áreas, instituições de ensino, entre outras organizações, a necessidade de politizar as discussões das questões climáticas a partir da diversidade do Semiárido, da contextualização do ensino e das políticas públicas, bem como de pautar os desafios atuais, a resiliência das comunidades e as causas da degradação ambiental que, de fato, vêm potencializando a emergência climática.

“A gente percebe que essa metodologia de estudo do clima por meio da trilha favorece a compreensão de conceitos e diferenciação das diversas predominâncias climáticas que existem na região (…) como é o caso dos territórios visitados aqui nos municípios de Juazeiro, Jaguarari, Campo Formoso e Senhor do Bonfim. É importante que educadores, pesquisadores, estudantes, gestores públicos, lideranças comunitárias e agentes de ATER se apropriem dessas particularidades, pois apesar do avanço na designação da região como semiárida, em detrimento do antigo polígono das secas, que abriu caminho para o paradigma da Convivência em vez de combate à seca, é uma categoria climática considerada genérica para a diversidade de microclimas existentes. Logo, se faz necessário encurtar a escala de categorização climática para melhor planejamento e gestão dos bens naturais existentes, considerando suas limitações e potencialidades”, conclui André Rocha.

A metodologia utilizada nessa vivência e os conhecimentos proporcionados só reforçam o que a Convivência com o Semiárido já pauta há mais de 30 anos: o Semiárido é diverso, o modo de viver dos povos e toda a biodiversidade dessa região têm muito a ensinar. 

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