Conheça Nauhany Silva, promessa do tênis brasileiro
Por NINJA Esporte Clube — Mídia NINJA

Com apenas 16 anos, ela é Campeã do Roland-Garros Junior e a mais jovem brasileira no ranking da WTA
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1 de outubro de 2026
17:15
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Por Renan Paiva
No Real Parque, comunidade da Zona Sul de São Paulo cercada por um dos bairros mais valorizados da cidade, não havia quadra de tênis por perto. Nauhany Vitória Leme da Silva aprendeu a jogar contra a parede de casa, batendo em bexigas e bolas grandes que o pai comprava. Quando dava, os dois iam ao Parque Villa-Lobos, ou jogavam no asfalto da rua, com uma fita esticada entre duas árvores servindo de rede.
Hoje, aos 16 anos, Naná, como é conhecida, está entre as principais promessas do tênis brasileiro. Em julho, chegou à final juvenil de duplas de Wimbledon. Foi a primeira vez que duas brasileiras disputaram uma decisão de Grand Slam no juvenil, em qualquer modalidade.
Uma raquete de presente de nascença
Segundo reportagem da Olympics.com, Naná ganhou sua primeira raquete ainda no berço, de presente do pai, Paulinho Silva, que se tornou seu primeiro treinador. Antes de ter contato com o esporte, ele gostava mais de futebol, mas passou a treinar a filha nos fins de semana depois que ela pediu ajuda para evoluir.
Sem quadra formal, pai e filha se adaptavam ao que existia: gramado de praça, asfalto de rua, quadra pública quando havia vaga. Naná tem uma irmã mais nova, Natália, de 7 anos, que vem seguindo o mesmo caminho, treinada pelo mesmo pai, nos mesmos lugares.
2024: o ano em que tudo acelerou
Em abril de 2024, Naná venceu o Roland-Garros Junior Series by Renault, disputado em São Paulo, e garantiu vaga por convite na chave juvenil de Roland-Garros, em Paris. Em agosto, tornou-se a brasileira mais jovem a vencer uma partida profissional, aos 14 anos, no W35 de São Paulo, torneio do circuito mundial da ITF.
O passo seguinte veio em setembro: aos 14 anos, 6 meses e 10 dias, ela entrou no ranking da WTA na 1.291ª posição, tornando-se a brasileira mais jovem da história a figurar na lista profissional. Os pontos vieram de três torneios no interior paulista, em um deles, ela bateu uma adversária romena 11 anos mais velha, de virada, sem ter ranking algum, enquanto a rival ocupava a 891ª posição do mundo.
Ainda em 2024, treinou ao lado de Bia Haddad, então principal tenista brasileira no circuito profissional, e participou de atividades com a seleção adulta. Em outubro, um título no Australian Open Junior Series garantiu vaga no juvenil do Aberto da Austrália.
2025: mais recordes, mais estrutura
O ano seguinte trouxe outra marca histórica: no SP Open, Naná se tornou a primeira tenista nascida em 2010 a vencer uma partida no WTA Tour — o circuito profissional adulto, não o juvenil. Também em 2025, conquistou seu primeiro título profissional de simples, em São João da Boa Vista, e passou a representar o Brasil na Billie Jean King Cup, principal competição por equipes do tênis feminino mundial.
A entrada no circuito trouxe uma estrutura que não existia nos tempos da parede de casa: treinadores, preparação física, acompanhamento psicológico, viagens frequentes. Nada disso se sustenta só com resultado, depende de patrocínio, planejamento e de um projeto por trás.
Wimbledon 2026: a final que fez história
Foi em Londres, em julho deste ano, que a carreira de Naná deu seu salto mais visível até aqui. Ao lado de Victoria Barros, parceira de longa data, ela chegou à final de duplas juvenis de Wimbledon, depois de uma virada na semifinal contra a dupla sérvio-russa Anastasija Cvetkovic e Polina Berezina, por 4/6, 6/2 e 10-1 no match tie-break.
Barros e Naná se tornaram a primeira dupla feminina 100% brasileira em uma final de Grand Slam juvenil, e as primeiras brasileiras, em qualquer modalidade, a chegar a essa fase do torneio. Na decisão, perderam para as tchecas Jana Kovackova e Katerina Zajickova por 7/6(7), 6/7(5) e 10-6 no super tie-break, depois de 1h53 de jogo.
A mesma semana teve um segundo capítulo para o tênis brasileiro: Luis Guto Miguel, então número 1 do ranking juvenil masculino, conquistou o título de duplas ao lado do esloveno Ziga Sesko, replicando o feito de Orlando Luz e Marcelo Zormann, últimos campeões brasileiros da chave, em 2014. Era a primeira vez que o país disputava duas finais juvenis no mesmo Grand Slam.
O projeto por trás da raquete
Naná, Victoria Barros e Guto Miguel têm uma origem em comum: os três passaram pela Rede Tênis Brasil, projeto sem fins lucrativos que se descreve como o maior programa de formação de tenistas juvenis da América Latina. A proposta é levar o esporte a escolas públicas, com aulas gratuitas, reforço escolar e formação de professores, driblando justamente a barreira de custo que mantém o tênis restrito a clubes e estruturas privadas no Brasil.
Em setembro de 2026, Naná ocupa a 601ª posição no ranking WTA de simples e a 444ª em duplas, além do 9º lugar no ranking juvenil da ITF. Neste ano, já foram três títulos juvenis, Banana Bowl, Brasil Juniors Cup e o J300 de Santa Cruz, mais duas conquistas em duplas. O saque, um dos pontos fortes do seu jogo, já foi cronometrado a 189 km/h.
Quem chega ao tênis no Brasil
A história de Naná também é uma resposta parcial a uma pergunta maior: quem consegue chegar ao tênis no país do futebol? Aqui, a bola costuma rolar primeiro na rua, na escola, no campinho. O tênis, historicamente, pede quadra, raquete e clube, um caminho que depende de dinheiro antes de depender de talento.
Naná chegou por outra porta: pela parede da própria casa, pela fita entre duas árvores, por um pai que decidiu ensinar o que não tinha aprendido a jogar. Reconhece esse papel dele em entrevistas, diz que, sem ele, não teria conhecido o tênis nem chegado ao ranking da WTA. Ainda há muito torneio, muita vitória e muita derrota pela frente. Mas o caminho até aqui já mostra que uma raquete pode encontrar uma criança em lugares que o esporte não costuma olhar.
Fonte: Mídia NINJA
