Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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Jornalista e cientista social. Trabalhou nos principais jornais do país. Foi assessora do Instituto Lula.

A investida contra a santa pobre, negra e brasileira foi mal digerida pelo eleitorado

Em processos políticos alta e artificialmente polarizados como o brasileiro, há momentos em que a história se mostra à luz do dia. Situa­ções que geram grande comoção social são capazes de se constituir na última peça de um quebra-cabeça incompleto, aquela que falta e, quando aparece do nada e se encaixa, permite a visão do que estava encoberto. É como um Wi-Fi que conecta o inconsciente coletivo.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, sem fazer esse cálculo, ligou o ­Wi-Fi. A exposição de um fato, o temor da CNBB com a onda crescente de agressão contra a Igreja Católica e demais religiões, insuflada pelo pentecostalismo de extrema-direita, ganhou um símbolo de resistência não apenas religioso, mas fundamentalmente político, às vésperas do primeiro turno: Nossa Senhora Aparecida, declarada padroeira do Brasil em 1930.

Como em qualquer guerra ideológica capitaneada pela extrema-direita ao longo deste século, e em todo o mundo, a investida evangélica sobre o poder da República elegeu um único alvo como catalisador da guerra político-religiosa local. Recaiu sobre a santa brasileira o papel de “representação do mal”, uma ideia que deveria ser a catalisadora de reações violentas e radicais destinadas a insuflar a intolerância religiosa e política. O ódio deveria ser o elemento galvanizador do voto e de ações extremistas de direita na luta pela hegemonia religiosa levada a termo pelo evangelismo do espetáculo e do negócio sedimentado nos Estados Unidos e transportado para o Brasil por pastores que se tornaram biliardários donos de igrejas e proprietários de templos e de fiéis.

Flávio Bolsonaro pretendia dar a senha, e um sentido, aos ataques repetidos contra símbolos, imagens e locais de cultos religiosos não apenas da Igreja Católica, mas das religiões de matriz africana e indígena, que se intensificaram desde as eleições que levaram Jair Bolsonaro ao poder, em 2018, segundo levantamento feito pela CNBB. No início da campanha, o filho de Jair disse que seu primeiro ato como presidente da República seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo” – mesma frase usada por seu mentor evangélico, J.B. de Carvalho, ao propor “destronar” Nossa Senhora Aparecida do lugar que ocupa no imaginário popular, de mãe espiritual dos brasileiros.

A promessa de Flávio seria um compromisso formal de adesão à Teoria do Domínio, abraçada pelos extremistas evangélicos no mundo todo: a união da política e da religião para construção de uma teocracia a serviço do radicalismo político cristão e das elites econômicas e financeiras do capitalismo internacional e, em particular, dos Estados Unidos, cujo presidente, Donald Trump foi eleito, e é sustentado, por essas forças.

Existem evidências soberbas de que esse projeto nacional foi alimentado e financiado pelas forças conservadoras ultraliberais e evangélicas internacionais, as mesmas que são parte do projeto conservador de Donald Trump e cúmplices da plutocracia que ocupou o poder nos Estados Unidos e, de lá, expandiu influência, financiou e treinou os brasileiros que trouxeram para o Brasil o ovo da serpente que deveria gerar um governo teocrático, submisso aos EUA e cúmplice do avanço estadunidense sobre a soberania do País.

Foi um erro de cálculo dos religiosos que galgaram o poder político com a ascensão de Jair e pretendiam consolidar esse reinado no governo de um novo Bolsonaro. Ao longo de sua campanha eleitoral, a agressividade, o uso da religião e as fake news produzidas incessantemente por essa parcela política, evangélica e com vínculos com um império que declara intenções de saque ao País caíram no estômago como pedras.

O vínculo do imaginário popular com Nossa Senhora Aparecida é real. Atavismo em estado puro, que de alguma forma deve contaminar os 40% de evangélicos que, segundo documentos da CNBB, têm origem no catolicismo. Ela é uma expressão de nossa soberania: brasileira e negra, foi achada em um rio e trazida à divindade pela rede de pescadores pobres. Vestiu o manto de uma princesa que lhe atribuiu milagre e é aceita e abrigada também pelas religiões de origem africana. É a mãe de Deus mais sincrética de todo o mundo. E é ameaçada num momento em que a soberania do próprio País é perigosamente colocada em risco por uma nação estrangeira, à qual se aliam um candidato a presidente e sua família. A construção simbólica de uma santa que pode perder o seu trono, e de um país que pode deixar de ser uma pátria, pode ter sido fatal para o projeto teocrático e entreguista de Flávio Bolsonaro e dos pastores das igrejas evangélicas envolvidas. •

Publicado na edição n° 1433 de CartaCapital, em 07 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Senhora Aparecida, rogai por nós’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


Maria Inês Nassif

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Fonte: Carta Capital

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