Posts simulam capas da ‘Veja’ para associar Janja e Hilton a medidas rejeitadas por cristãos

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Por Luiza Vezzá — Aos Fatos | Valorize o que é real

Publicações nas redes sociais têm veiculado falsas capas da revista Veja para associar a primeira-dama Janja da Silva e a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) a pautas que tendem a ser rejeitadas por cristãos. Não é verdade que a esposa de Lula (PT) apoiaria um projeto que exclui Nossa Senhora Aparecida em favor da umbanda, nem que a parlamentar tenha apresentado medida para obrigar igrejas a casar pessoas trans.

Postagens com o conteúdo enganoso reuniam ao menos 300 mil visualizações e 13 mil curtidas no X até a tarde desta quinta-feira (1º).

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Projeto de Lei de deputado petista, com apoio de Lula, visa excluir Nossa Senhora Aparecida e favorecer umbanda

Captura de tela de uma publicação na rede social X trazendo a montagem de uma capa falsa da revista 'Veja'. Na imagem, uma mulher de pele clara, cabelos castanhos ondulados e óculos de grau usa uma regata branca de alças finas e apoia as mãos em uma superfície de madeira próxima a estátuas de entidades e santos. No topo da capa lê-se a marca 'veja' em letras vermelhas, o selo 'BRASIL' e a chamada 'Religião na política: o avanço de pautas ideológicas preocupa especialistas'. Na parte inferior, uma faixa vermelha traz a palavra 'POLÊMICA' e a manchete principal destaca em letras brancas e amarelas: 'Projeto de Lei de deputado petista, com apoio de Lula, visa excluir Nossa Senhora Aparecida e favorecer umbanda', acompanhada da linha fina 'Proposta gera revolta entre fiéis católicos e reacende o debate sobre a laicidade do Estado e o respeito às tradições religiosas do Brasil.'. Na parte superior externa da imagem, há o texto digitado: 'URGENTE 🚨, recebi essa foto por meio de fontes oficiais no WhatsApp, alguém confirma se é verdadeira .'. 

É falso que a primeira-dama Janja da Silva e o presidente Lula (PT) tenham declarado apoio a um projeto de lei de um deputado petista que visa “excluir” Nossa Senhora Aparecida e favorecer a umbanda.

Aos Fatos procurou por projetos de lei com esse teor no site da Câmara dos Deputados, mas nada foi encontrado. A busca foi feita por palavras-chaves “umbanda” ou “Nossa Senhora Aparecida”.

O único projeto proposto por um deputado da sigla em 2026 com menção à umbanda foi o PL 1.279/2026, protocolado no dia 18 de maio por Vicentinho (PT-SP). O texto, que ainda está em tramitação, busca a garantia de igualdade pelo Estado no tratamento e apoio a eventos de qualquer religião. Não há menção no texto à Nossa Senhora Aparecida.

Aos Fatos consultou o histórico de edições e não localizou exemplar similar ao da postagem desinformativa. A última vez que Janja ilustrou uma capa da Veja foi em abril de 2026, quando dividiu a página com a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro (PL).

A falsa capa também não segue padrões da publicação:

Montagem comparativa com duas capas da revista Veja e quatro pontos explicativos. À esquerda, a capa falsa mostra uma mulher de pele clara e cabelo escuro sorrindo, cercada por imagens de santos e divindades, acompanhada da manchete 'Projeto de Lei de deputado petista, com apoio de Lula, visa excluir Nossa Senhora Aparecida e favorecer umbanda'. À direita, a capa original exibe uma urna eletrónica dourada sobre uma coluna sob a manchete 'UM MONUMENTO À DEMOCRACIA'. Abaixo, um texto enumera as diferenças entre as duas imagens, destacando detalhes do título, da caixa das letras e das chamadas.
Capa falsa não segue os padrões editoriais da revista

Além disso, o post diz que essa edição da Veja seria de número 2.842, de 26 de setembro de 2026. Porém, a última edição da revista é a 3.014, de 25 de setembro de 2026, com o presidente do Senado, senador Davi Alcolumbre (União-AP), e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro na capa.

A edição 2.842 foi às bancas em 24 de maio de 2023 com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na capa.

A foto usada na falsa capa, entretanto, é real. O registro foi publicado pela própria Janja no X em 19 de fevereiro de 2021. Na legenda, ela afirmou: “Saudades de vestir branco e girar, girar, girar…”.

Em entrevista ao Fantástico em novembro de 2022, ela foi questionada sobre a foto e os ataques que recebeu por ter sido associada pejorativamente a religiões de matriz africana, e respondeu:

“Ter sido atacada por conta disso não me diminui. Pelo contrário, eu acho que ser ligada a uma religião de matriz africana só me dá orgulho. Talvez isso represente um pouco do que é os brasileiros e as brasileiras. Sabe? Eu sou aquela pessoa que me emociono na missa, com a fala do padre, e também me emociono com o tambor. Também me emociono com um hino de louvor a Deus. E muitas pessoas disseram para mim: ‘Você precisa apagar aquela foto’. Tem uma foto minha no Instagram com algumas imagens de orixás. Eu não vou apagar. Aquilo também me representa.”

CASAR OU CADEIA A chamada Lei Érika, que obrigaria igrejas a celebrar casamentos de pessoas trans, deve começar a tramitar no Congresso antes das eleições. A recusa poderia levar pastores à prisão por 10 a 13 anos e transforma a liberdade religiosa no tema central da campanha.

Montagem simulando a capa da revista ‘Veja’, com data de ‘30 de agosto de 2026’ e a manchete ‘CASAR OU CADEIA’. Abaixo do título, um texto afirma que a chamada ‘Lei Érika’ obrigaria igrejas a celebrar casamentos de pessoas trans e que a recusa levaria pastores à prisão. A imagem central mostra duas pessoas de pele clara e cabelo escuro preso, usando vestidos brancos e capas com as cores da bandeira trans (azul claro, rosa e branco), de costas, subindo a escada de uma ‘Igreja Evangélica’ de tijolos. No topo da imagem, acima da capa, há um comentário que diz: ‘CARAMBA 😯😱’.

Postagens desinformativas também mentem ao alegar que haveria um projeto de lei, apelidado de “Lei Érika”, que obrigaria igrejas a celebrarem casamentos entre pessoas trans, sob pena de prisão. Nas peças, também é utilizada uma falsa capa da revista Veja.

As publicações fazem referência à deputada Erika Hilton (PSOL-SP). Procurada por Aos Fatos, a equipe da parlamentar negou a existência do projeto e classificou a alegação como “completamente falsa e absurda”.

Aos Fatos também consultou o portal da Câmara dos Deputados, e não localizou nenhum projeto de lei em tramitação na casa com esse teor.

Diferentemente da peça desinformativa sobre Janja, essa se assemelha mais ao padrão da revista. No entanto, há dois indícios de que se trata de um capa inventada, especificamente na identificação da revista, onde se lê: “3010” e “30 de agosto de 2026”.

Não houve edição nesse dia e o exemplar com esse número foi publicado em 28 de agosto, com capa trazendo Lula e Flávio Bolsonaro em um ringue.

Captura de tela exibindo uma grade com 12 capas da revista Veja organizadas em duas fileiras de seis. Na fileira superior, da esquerda para a direita, veem-se a edição 'Veja Negócios' de 25 de setembro de 2026 sobre empresas à deriva, seguida da edição 3014 com dois homens de pele clara, cabelos e barbas curtas e escuras, usando ternos escuros, ao lado do texto 'SOU SEU IRMÃO'; a edição 3013 mostrando um plenário judicial com o texto 'CRISE SEM FIM'; a edição 3012 com um plenário rachado ao meio sob o título 'RACHA SUPREMO'; a edição 3011 com uma estátua da Justiça e o texto 'A CORTE NO BANCO DOS RÉUS'; e a edição 3010 com dois homens vestindo trajes esportivos escuros sob o título 'VALE-TUDO', sendo o da esquerda um homem de pele clara, calvo e com barba grisalha, e o da direita um homem de pele clara e cabelo curto escuro. Na fileira inferior, aparecem a edição 'Veja Negócios' de 28 de agosto de 2026 celebrando as melhores empresas do Brasil; a edição 3009 com três pessoas (uma mulher de cabelo loiro e dois homens de cabelo escuro) sobre o título 'BASTIDORES DO PODER'; a edição 3008 com um brasão da Polícia Federal em um alvo com o texto 'FOGO CRUZADO'; a edição 3007 mostrando o mesmo homem calvo e grisalho da esquerda e o homem de cabelo curto escuro da direita segurando uma bomba sob o título 'CONTAGEM REGRESSIVA'; a edição 'Veja Negócios' de 31 de julho de 2026 sobre a potência dos chips; e a edição 3006 exibindo uma urna eletrônica dourada sobre um pilar com o texto 'UM MONUMENTO À DEMOCRACIA'. Abaixo de cada capa, constam legendas em texto com a numeração, data e o título correspondente.
Não há capa da ‘Veja’ sobre suposto projeto de lei que obrigaria igrejas a casar transsexuais

Em sua carreira como deputada, Erika Hilton assinou duas propostas que mencionam a palavra “igreja”, mas não há qualquer citação à celebração da união de pessoas trans:

  • PL 250/2024: Solicitou a inscrição Xica Manicongo, a primeira travesti brasileira e denunciada à igreja pela prática de sodomia, no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria;
  • PL 5.034/2023: Buscou equiparar as ações e métodos que objetivam a conversão da orientação sexual e da identidade de gênero, inclusive por parte de membros da igreja, ao crime de tortura.

Histórico. O direito ao casamento LGBT no Brasil foi conquistado apenas em maio de 2013, quando o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) determinou que cartórios não poderiam se recusar a celebrar uniões entre pessoas do mesmo sexo.

Em 2015, foi celebrado o primeiro casamento homoafetivo com bênção da Igreja Católica da história do país, em Maceió (AL). Em 2018, a Igreja Anglicana celebrou a primeira união do estado de São Paulo e, em 2021, a primeira do Rio Grande do Sul.

Em 2019, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu, por oito votos a três, enquadrar os atos de homofobia e transfobia na Lei de Racismo (nº 7.716/1989). O crime é inafiançável e imprescritível.

O caminho da apuração

Aos Fatos buscou por projetos de lei que traziam os termos “Nossa Senhora Aparecida”, “umbanda” e “igreja” na ementa no site da Câmara dos Deputados. O mesmo foi feito com os termos relacionados à peça desinformativa sobre o suposto projeto de Erika Hilton.

A reportagem também consultou o acervo de edições da revista Veja e não localizou capas similares.

Aos Fatos entrou ainda em contato com a assessoria de Hilton.

Fonte: Aos Fatos | Valorize o que é real

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