Pentágono cria comando de guerra autônoma com uso de IA, drones e robôs
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – O Pentágono anunciou a criação de um comando militar dedicado à guerra autônoma, com uso de inteligência artificial (IA), drones, robôs e sistemas de armas não tripulados. A iniciativa representa uma das mudanças mais significativas na estrutura militar dos Estados Unidos nos últimos anos e evidencia como a IA está deixando de ser apenas uma tecnologia auxiliar para ocupar posição central no planejamento das guerras do futuro.
O Autonomous Warfare Command (AutoWarCom) foi anunciado pelo secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, durante seu discurso “State of the Force”, realizado nesta quarta-feira (30) na base do Corpo de Fuzileiros Navais em Quantico, na Virgínia.
A nova estrutura terá o status de comando combatente funcional e será liderada por um oficial de quatro estrelas. A meta anunciada pelo Pentágono é que esteja estabelecida até 1º de outubro de 2027.
Segundo Hegseth, a missão será disseminar capacidades robóticas e autônomas por todas as Forças Armadas norte-americanas. O portfólio previsto inclui drones, inteligência artificial e sistemas de comando e controle.
IA muda a lógica da guerra
A decisão reflete uma avaliação do Pentágono de que a tecnologia militar está evoluindo em velocidade superior à capacidade tradicional de aquisição e adaptação das Forças Armadas.
“O ritmo da guerra está mudando mais rápido do que o processo para apoiá-la”, afirmou Hegseth.
O problema identificado pelos estrategistas norte-americanos é econômico e militar. Durante décadas, os Estados Unidos apostaram na superioridade proporcionada por equipamentos extremamente sofisticados — e também extremamente caros.
A disseminação de drones baratos, sistemas autônomos e inteligência artificial altera essa equação. Equipamentos que custam uma pequena fração do preço de aviões, navios ou mísseis tradicionais podem realizar missões de reconhecimento, saturar sistemas defensivos e atacar alvos com elevada precisão.
O próprio memorando que estabelece o caminho para o novo comando reconhece essa transformação. Segundo o documento, avanços na computação tornaram possível produzir armas precisas e de baixo custo em grande escala, criando novas ameaças às plataformas militares tradicionais.
“Qualidade e quantidade”
Hegseth defendeu que os Estados Unidos não abandonem seus sistemas militares sofisticados, mas os complementem com uma enorme quantidade de equipamentos autônomos mais baratos.
A estratégia parte da ideia de que as guerras contemporâneas exigem simultaneamente plataformas de alta tecnologia e capacidade de produzir e substituir rapidamente drones e robôs.
Essa necessidade ficou particularmente evidente na guerra da Ucrânia, que transformou os sistemas não tripulados em elementos cotidianos do campo de batalha. Drones são empregados para reconhecimento, vigilância, direcionamento de artilharia e ataques diretos.
Para o Pentágono, uma das principais lições do conflito não é simplesmente que drones vencem guerras, mas que as Forças Armadas precisam possuir estruturas capazes de modificar rapidamente seus equipamentos e suas táticas conforme o adversário também se adapta.
Uma estrutura incomum no Pentágono
A criação de um comando combatente é uma decisão institucional de grande porte.
O AutoWarCom deverá se tornar o 12º comando combatente dos Estados Unidos. Estruturas desse tipo possuem enorme influência sobre planejamento, orçamento, operações e desenvolvimento das capacidades militares norte-americanas.
O Pentágono pretende conceder ao novo comando poderes semelhantes aos de uma força militar para acelerar aquisição, desenvolvimento e implantação de sistemas autônomos.
Também serão criadas carreiras específicas para militares especializados nesse novo tipo de guerra. Exército, Marinha e Força Aérea deverão desenvolver estruturas profissionais destinadas à formação de uma geração de combatentes especializados em autonomia.
Antes de o comando entrar plenamente em operação, o Pentágono implantará o Project Agincourt, uma estrutura intermediária destinada a testar novos modelos de aquisição e preparar a criação do AutoWarCom.
Operadores, engenheiros e empresas
Uma das principais mudanças pretendidas é aproximar diretamente militares, engenheiros e empresas de tecnologia.
Em vez de depender exclusivamente dos longos processos tradicionais de compra do Pentágono, o novo modelo pretende criar ciclos rápidos nos quais equipamentos possam ser testados no campo, modificados e novamente produzidos.
A ideia é que decisões e recursos sejam colocados mais próximos das unidades operacionais, reduzindo o intervalo entre a identificação de uma necessidade e a chegada de uma solução tecnológica aos militares.
Essa transformação também pode modificar profundamente o complexo industrial-militar norte-americano. Além das gigantes tradicionais da indústria de defesa, empresas especializadas em software, inteligência artificial, robótica e drones tendem a ganhar importância crescente.
IA militar desperta preocupações
A aceleração da autonomia militar, entretanto, também amplia um debate internacional ainda sem respostas definitivas.
Uma das questões fundamentais é determinar quanto controle humano permanecerá sobre decisões tomadas por sistemas de inteligência artificial, principalmente quando essas decisões puderem resultar na morte de pessoas.
Sistemas autônomos podem analisar grandes volumes de informações, identificar padrões e reagir em velocidades impossíveis para operadores humanos. Mas erros de classificação, falhas de software, manipulação de dados ou decisões imprevisíveis podem produzir consequências graves em ambientes militares.
O problema se torna ainda mais sensível diante da competição tecnológica entre Estados Unidos e China.
Washington e Pequim investem pesadamente em inteligência artificial, computação avançada, drones e sistemas autônomos. O risco é que a percepção de uma corrida tecnológica leve as potências a acelerar a implantação militar dessas ferramentas antes da construção de mecanismos internacionais capazes de estabelecer limites e salvaguardas.
A guerra entra na era da inteligência artificial
O Pentágono já possui estruturas dedicadas à ameaça representada por drones, como a Joint Interagency Task Force 401, criada para coordenar esforços contra sistemas não tripulados. O novo comando, porém, representa um salto institucional: a autonomia passa a ocupar posição própria na arquitetura militar dos Estados Unidos.
A decisão indica que Washington não considera mais drones, robôs e IA apenas complementos das forças convencionais.
Eles começam a ser tratados como elementos estruturantes da guerra.
O impacto poderá ser comparável às grandes transformações militares provocadas anteriormente pela aviação, pelos mísseis e pelas tecnologias nucleares. A diferença é que, desta vez, parte crescente das funções de percepção, análise e decisão poderá ser executada por máquinas.
Com a criação de um comando de quatro estrelas especificamente dedicado à guerra autônoma, os Estados Unidos dão um sinal inequívoco: a corrida militar da inteligência artificial já começou a transformar não apenas as armas, mas a própria organização das Forças Armadas.
Fonte: Brasil 247