Gustavo Gayer recebeu R$ 417 mil de empresário denunciado por fraudes em licitações, diz site
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – O deputado federal Gustavo Gayer (PL), candidato ao Senado por Goiás, recebeu mais de R$ 417 mil em doações eleitorais do empresário Rodrigo Gonçalves dos Santos, denunciado pelo Ministério Público do Pará (MPPA) sob acusação de participação em um esquema de fraudes em licitações públicas. Os recursos foram enviados em sete transferências e representam cerca de 22% da arrecadação da campanha do parlamentar.
As informações, segundo o site The Intercept Brasil, constam de dados declarados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e de documentos relacionados à investigação conduzida pelo MPPA. Até 29 de setembro, a cinco dias do primeiro turno, Santos figurava como o maior doador da campanha de Gayer.
Segundo a reportagem, as sete transferências foram realizadas via Pix entre o fim de agosto e o início de setembro, em valores que variaram de R$ 20 mil a R$ 100 mil.
As contribuições privadas têm peso relevante na campanha de Gayer, que afirma ter recusado recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha. O deputado declara que “abriu mão de milhões do fundo eleitoral” e afirma que, na eleição de 2022, “fez uma das campanhas mais baratas do Brasil sem usar nada de dinheiro público, decisão que estenderá à campanha de senador”.
Maior doador transferiu recursos em sete operações
Rodrigo Gonçalves dos Santos foi denunciado pelo MPPA em 11 de abril de 2025 sob a acusação de participação em um esquema de direcionamento de contratos públicos em Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará.
A denúncia não representa condenação, e a defesa do empresário contesta as acusações. O processo também é objeto de uma disputa judicial que ainda aguarda definição no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
De acordo com a reportagem, um documento apreendido durante as apurações indicaria que Santos teria desembolsado R$ 897 mil em propinas apenas em fevereiro de 2024. Segundo a acusação, os pagamentos corresponderiam a percentuais entre 6% e 10% dos contratos envolvidos.
O MPPA sustenta que o esquema teria contado com a participação de agentes públicos responsáveis por interferir nas concorrências e controlar o suposto fluxo de pagamentos.
Segundo a denúncia, um então pregoeiro teria atuado para inabilitar concorrentes ou negociar a desistência de empresas, com pagamentos que variariam entre R$ 20 mil e R$ 200 mil. Um ex-secretário municipal, ainda de acordo com a acusação, teria orientado empresas participantes e controlado o fluxo de propinas.
Contratos de quase R$ 83 milhões estão sob suspeita
Duas empresas de Santos, a RGS Engenharia e a Gonçalves & Dias Engenharia, obtiveram cinco contratos investigados pelo MPPA em Canaã dos Carajás. Juntos, os acordos somam quase R$ 83 milhões.
Os contratos incluíam obras de pavimentação e drenagem, além da construção de um parque de exposições.
Interceptações telefônicas utilizadas na investigação também registraram Santos informando a um ex-pregoeiro que apresentaria uma proposta com desconto de 20% em uma concorrência destinada à construção de unidades habitacionais.
Segundo a investigação, a informação antecipada teria permitido que outro empresário envolvido no caso ajustasse sua própria proposta. As empresas de Santos não venceram aquela licitação específica, mas o episódio foi incorporado à investigação sobre suposta violação do sigilo do certame.
O MPPA afirma ainda que empresários envolvidos no caso teriam recebido antecipadamente informações sobre obras e trabalhado junto a agentes públicos para adequar editais às características técnicas das empresas participantes do suposto esquema, dificultando a entrada de concorrentes.
Empresas receberam recursos de emendas parlamentares
Os negócios ligados a Santos ultrapassam Canaã dos Carajás e alcançam outros estados e contratos financiados com recursos federais.
Segundo o levantamento publicado pelo Intercept, a Gonçalves & Dias Engenharia, citada na investigação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MPPA, recebeu aproximadamente R$ 6,5 milhões relacionados a emendas parlamentares.
Os recursos tiveram origem tanto em emendas da bancada de Rondônia quanto em emendas de relator, modalidade que ficou conhecida como “orçamento secreto”.
A maior parcela mencionada pela reportagem foi direcionada, por intermédio do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), à pavimentação de vias em Ji-Paraná, Rondônia.
Dados do Portal da Transparência também indicam a existência de contratos ativos e já encerrados envolvendo a empreiteira e órgãos ou entidades federais. Somados, esses acordos ultrapassariam R$ 370 milhões.
O Ministério dos Transportes e o DNIT afirmaram não possuir registros de irregularidades envolvendo a empresa. Os órgãos informaram que a companhia participa de um consórcio responsável por obras na BR-364 e disseram que providências serão tomadas caso recebam comunicação formal sobre eventuais ilícitos.
Atuação empresarial chegou a Goiás
O empresário que aparece como maior doador da campanha de Gayer também buscou negócios em Goiás, estado pelo qual o deputado disputa uma cadeira no Senado.
Documentos da Prefeitura de Goiânia citados pelo Intercept mostram que a Gonçalves & Dias Engenharia participou, no final de 2025, de uma disputa por um contrato público na capital.
A companhia chegou a apresentar uma das propostas mais vantajosas, mas foi inabilitada devido a problemas na documentação.
A defesa de Santos classificou o episódio como um procedimento “corriqueiro” e afirmou que a decisão foi aceita pela empresa porque ela já não teria interesse em prosseguir na concorrência.
Processo aguarda definição no STJ
A investigação sobre os contratos de Canaã dos Carajás tornou-se objeto de uma disputa no Superior Tribunal de Justiça.
A defesa do empresário recorreu ao STJ para pedir a anulação do processo, argumentando que teria ocorrido violação ao princípio do promotor natural na distribuição do caso dentro do Ministério Público do Pará.
Em 24 de março de 2026, o ministro Reynaldo Soares da Fonseca rejeitou inicialmente o pedido. Após novo recurso da defesa, porém, o magistrado reviu sua posição.
Em decisão monocrática de 12 de junho, Fonseca acolheu a solicitação e determinou o trancamento do processo.
A controvérsia, entretanto, ainda não está definitivamente encerrada. Segundo esclarecimento do STJ, a decisão não transitou em julgado e aguarda a análise colegiada de recursos apresentados pelo MPPA e pelo Ministério Público Federal (MPF).
O Conselho Nacional de Procuradores-Gerais do Ministério Público dos Estados e da União (CNPG) também se manifestou sobre a controvérsia, emitindo nota técnica favorável à legitimidade da investigação.
O MPPA argumenta que uma eventual confirmação da anulação poderá repercutir sobre outras investigações conduzidas contra organizações criminosas. Em nota ao Intercept, a instituição afirmou que a decisão poderá ter “efeitos de alcance imprevisível”.
Defesas contestam acusações e afastam irregularidades
A defesa de Rodrigo Gonçalves dos Santos e das empresas RGS Engenharia e Gonçalves & Dias Engenharia classificou as acusações apresentadas pelo MPPA como “completamente improcedentes”.
Os advogados sustentam que a decisão do STJ reconheceu a ilegalidade da investigação conduzida pelo Gaeco e afirmam que o empresário “não deve nada à Justiça”.
Questionado especificamente sobre os mais de R$ 417 mil destinados à campanha de Gustavo Gayer, Santos atribuiu as contribuições a um “alinhamento político-ideológico” e negou a existência de vínculos comerciais relacionados às doações.
Os advogados de Gayer, por sua vez, apontaram a decisão do STJ como um “fato judicial decisivo” favorável ao empresário e negaram proximidade pessoal entre o candidato e Santos.
A defesa do parlamentar afirmou ainda que Gayer não possui relação próxima com o empresário, assim como não manteria proximidade com os demais doadores de sua campanha, e declarou que o candidato desconhecia o interesse da companhia em contratos públicos no estado de Goiás.
O deputado é membro titular da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara dos Deputados. Questionado sobre eventual conflito ético, Gayer afirmou não enxergar incompatibilidade entre o combate ao crime organizado, o respeito às garantias constitucionais e o cumprimento das decisões judiciais.
A Procuradoria-Geral de Canaã dos Carajás também se manifestou e afirmou que a administração municipal é “vítima do esquema” investigado e que seus gestores não são alvos da apuração. Segundo a prefeitura, foram abertas investigações administrativas internas em colaboração com o MPPA e a Justiça.
O Ministério da Educação declarou não manter contrato com a Gonçalves & Dias e destacou que universidades federais têm autonomia para conduzir seus processos de contratação. A Universidade de Brasília (UnB), citada entre as instituições relacionadas aos contratos levantados pela reportagem, não se manifestou.
Fonte: Brasil 247