Lula falha ao falar apenas com quem já vota nele
Por Luan Monteiro — Jornal Opção

Há uma contradição na estratégia para a reeleição de Lula que pode custar caro à própria esquerda: o presidente parece cada vez mais interessado em falar com quem já está convencido e menos disposto a enfrentar justamente quem ainda precisa ser convencido.
Lula evita debates, escolhe ambientes mais controlados e concentra a comunicação em entrevistas, redes sociais, eventos e espaços nos quais sua campanha consegue administrar melhor a mensagem. É uma estratégia compreensível para quem está no poder e conhece o custo de uma frase mal colocada. Mas eleição não se ganha conversando apenas com a própria torcida.
Debate não existe para convencer petista. Muito menos para convencer bolsonarista. Existe para colocar candidatos diante de perguntas que não foram previamente escolhidas por suas assessorias e diante de eleitores que ainda não decidiram o voto. Quando Lula não comparece, o espaço continua existindo. E alguém o ocupa.
Flávio Bolsonaro sabe disso. Ao decidir participar de debates mesmo quando Lula não está presente, o senador transforma a ausência do adversário em oportunidade. Pode falar diretamente ao eleitor, apresentar sua versão dos fatos, atacar o governo e tentar construir uma imagem própria sem a contestação imediata do presidente. É um movimento politicamente inteligente. E por isso a campanha de Lula deveria se preocupar.
A volta do bolsonarismo ao Palácio do Planalto não dependeria apenas da força da família Bolsonaro. Dependeria também da capacidade da esquerda de deixar de conversar exclusivamente com seu eleitor tradicional e disputar quem está fora da bolha. E é nesse ponto que o caso Banco Master entra na eleição.
O escândalo não deveria ser apresentado como uma história atribuída à esquerda e à direita de forma conjunta. As conexões políticas que vieram a público mostram uma presença expressiva de nomes da direita e do centrão. A própria imprensa tem mostrado que os principais personagens políticos associados ao caso estão majoritariamente nesses campos.
O BRB, banco controlado pelo governo do Distrito Federal de Ibaneis Rocha, do MDB, tentou comprar o Banco Master. A operação acabou não sendo aprovada pelo Banco Central e, posteriormente, as relações entre as duas instituições passaram a ser alvo de investigações e questionamentos. O próprio Senado já discutiu os impactos das operações do BRB com o Master, incluindo ativos classificados como irregulares ou de difícil recuperação.
Além disso, documentos e investigações também colocaram sob escrutínio a atuação de políticos que transitaram pelo entorno de Daniel Vorcaro, banqueiro do Master. Reportagens apontaram articulações de parlamentares e dirigentes políticos em defesa de interesses relacionados ao banco. A presença de nomes da direita e do centrão é relevante para que seja um erro político deixar que o caso seja apresentado como se tivesse origem exclusivamente no campo governista.
Isso não significa que Lula possa simplesmente transformar o Master em arma eleitoral. Isso ocorre porque há personagens ligados ao campo governista que também aparecem nas investigações e nas relações políticas envolvendo Vorcaro. O caso é complexo e ainda está sendo investigado. Há acusações que precisam ser comprovadas e versões que precisam ser confrontadas. Mas justamente por isso o debate público é necessário.
E é aí que a estratégia de Lula começa a parecer contraditória. Se o presidente não vai aos debates, quem fará as perguntas sobre o Master? Quem perguntará a Flávio Bolsonaro sobre sua relação com Vorcaro? Quem perguntará sobre o financiamento relacionado ao filme Dark Horse? Quem questionará o senador sobre os episódios que estão sob investigação?
A ausência de Lula não elimina essas perguntas, mas dá a direita o poder da narrativa. Isso faz com que essas perguntas sejam feitas em outros ambientes e, eventualmente, pelos próprios adversários, com a narrativa que lhes interessa.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, chega à disputa carregando uma questão especialmente delicada: mensagens divulgadas nas investigações mostram que ele pediu recursos a Vorcaro para a produção do filme sobre Jair Bolsonaro. A relação é objeto de apuração e precisa ser tratada com a cautela própria de uma investigação em andamento.
Esse seria exatamente o tipo de assunto que um debate presidencial deveria permitir ao eleitor conhecer melhor. Não para que Lula faça acusações. Para que pergunte. Para que Flávio responda. Para que o eleitor compare. Esse é o ponto que parece escapar à estratégia atual do PT: não basta ter razão sobre um assunto; é preciso disputar a narrativa sobre ele.
A direita brasileira aprendeu há muito tempo a ocupar espaços de comunicação. Redes sociais, podcasts, entrevistas, transmissões ao vivo e discursos para públicos específicos fazem parte de uma máquina política que não depende da televisão tradicional.
Se Lula abandona os debates, não está abandonando apenas um palco. Está entregando ao bolsonarismo a possibilidade de transformar cada ausência em argumento. E isso pode ser particularmente perigoso numa eleição polarizada. Hoje, a campanha de Lula parece partir de uma premissa: quem rejeita o bolsonarismo acabará votando em Lula. Mas não é isso que parece estar acontecendo.
Existe uma parcela de eleitores que rejeita Bolsonaro, mas também tem críticas ao PT. Existe quem esteja cansado da polarização. Existe quem ainda não tenha escolhido. Existe quem queira ouvir propostas antes de decidir. Esse eleitor não está necessariamente procurando mais um comício.
Eles, quando não encontra as respostas de Lula, pode acabar ouvindo apenas o adversário. É assim que uma campanha pode cometer um erro silencioso: não perder votos entre os seus, mas deixar de conquistar os votos de quem ainda não é seu.
A extrema direita não precisa que Lula desapareça da eleição. Basta que Lula fale apenas com quem já vota nele. Porque política também é ocupação de espaço. E espaço político abandonado não fica vazio e, hoje, Flávio, busca ocupar esse espaço.
A questão, portanto, não é se Lula deveria participar de ao menos um dos debates por uma obrigação moral. É uma decisão estratégica de campanha.
Além disso, existe outra questão: se a esquerda realmente considera o retorno do bolsonarismo um risco, por que está deixando seu principal adversário falar sozinho justamente nos espaços em que deveria ser confrontado?
O eleitor não precisa de uma campanha que fale apenas para quem já escolheu. Precisa de candidatos dispostos a responder às perguntas que ainda não têm resposta. E talvez seja justamente aí que Lula esteja faltando à própria campanha.
Nesta quinta-feira, 1º, Flávio e outros candidatos da direita terão o palco apenas para si. O espaço do maior telejornal do país será ocupado para atacar Lula durante toda a duração do debate e, no fim, ele não estará lá para se defender e pode sair cada vez mais enfraquecido.
Em uma eleição que poderia ser decidida no primeiro turno, Lula ficou todo o período de campanha tentando levá-la para a segunda rodada. Mesmo Flávio tendo todos os escândalos possíveis se tornando públicos, ele ainda herda muitos votos de seu pai. Essas pessoas não mudarão o voto. Isso pode complicar a vida do presidente no segundo turno.
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