Caso Master: cunhado de Vorcaro diz que banqueiro mantinha R$ 20 bi no exterior antes de ser preso

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Por Luis Mauro Filho — Brasil 247

247 – O advogado e pastor Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, afirmou que o empresário mantinha R$ 20 bilhões no exterior e relatou ter escondido dinheiro fora do Brasil diante do risco de bloqueio de seu patrimônio durante a crise do Banco Master. As declarações aparecem em gravações e áudios de WhatsApp obtidos pela revista Piauí e divulgados nesta quarta-feira (30).

Segundo a apuração, o material registra conversas entre Zettel e uma mulher identificada pelo nome fictício de Marina, com quem ele manteve um relacionamento entre o início de 2023 e sua prisão, em março deste ano. Além de assuntos pessoais, os diálogos revelam relatos sobre movimentações financeiras, pagamentos ligados a Vorcaro, o temor de medidas judiciais e a tentativa de Zettel de se afastar publicamente dos negócios do cunhado.

Em uma das conversas, feita em outubro de 2025, Zettel contou que havia viajado ao exterior para proteger parte de seus recursos caso suas contas fossem bloqueadas.

“Semana passada, o Banco Central deu três semanas para o Daniel reformular o banco, senão ele vai ser liquidado. Eu fui lá [no exterior], escondi um dinheiro, porque se der tudo errado e der uma merda danada e tudo meu for bloqueado, eu tenho que ter um dinheiro pra poder continuar vivendo e mantendo as coisas. Agora, eu estou no Brasil e confio em falar isso pra você. Lá eu não podia falar isso por telefone”, afirmou.

A conversa ocorreu poucas semanas antes da liquidação do Banco Master. Em 18 de novembro de 2025, o Banco Central determinou o encerramento das atividades da instituição. Na noite anterior, Vorcaro havia sido preso pela Polícia Federal enquanto tentava embarcar no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, com destino a Dubai.

Na véspera da liquidação, Zettel contou a Marina que viajava de Brasília para São Paulo ao lado do cunhado, a quem chamou de “príncipe”, em tom de sarcasmo.

“Graças a Deus, a gente achou que ia estourar algo de ruim, mas hoje não estourou nada. Eu vou te mantendo informada e mais tarde eu te ligo com calma pra gente conversar. Te amo, te amo, te amo.”

Depois da prisão de Vorcaro, Zettel relatou preocupação com a possibilidade de também se tornar alvo das autoridades.

“Você já deve ter visto as notícias, né?”, perguntou. “Pegaram os telefones, os iPads de todo mundo. O meu ainda não.”

Segundo ele, havia um telefone escondido em um compartimento de seu carro.

“Já fecharam o banco, bloquearam as contas, bloquearam os bens, ele tá preso, quatro diretores do banco estão presos, mas ainda tem outros mandados para serem cumpridos. Então, assim, eu tô tomando todo o cuidado do mundo.”

Zettel também contou que havia tomado Rivotril na noite anterior à operação e não percebeu as tentativas de seus advogados de acordá-lo.

“Eu enchi a cara de Rivotril para ter uma noite de sono tranquila. Os advogados bateram na minha casa à 1 hora da manhã. Esmurraram, ligaram na portaria. Eu não vi nada. Deus é bom, porque pelo menos eu dormi e descansei. Daí, acordei às 6 horas da manhã com oitenta chamadas no meu telefone.”

Relação com Vorcaro

As gravações divulgadas pela Piauí mostram uma relação marcada por dependência profissional, tensão e ressentimento entre Zettel e Vorcaro.

Nas conversas com Marina, Zettel descrevia o cunhado como alguém que pouco se dedicava ao banco e que teria passado a frequentar mais intensamente o trabalho apenas quando os negócios começaram a se deteriorar.

Nas mensagens trocadas diretamente com Vorcaro e obtidas pela Polícia Federal, segundo a revista, o tom de Zettel era diferente.

“Irmão, eu não furo com vc não! Você sempre estará nas minhas prioridades! Até o fim!! E quando voltar, avisa! Quero te ver! Tô com saudade!”, escreveu.

Em outro momento, diante da falta de resposta do cunhado, afirmou: “Tô começando a achar que você realmente quer distanciamento de mim… nem me responde mais”.

De acordo com a reportagem, Zettel executava pagamentos, organizava assinaturas de contratos e atendia demandas pessoais de Vorcaro. As mensagens indicam que as movimentações financeiras dependiam da autorização do então controlador do Master.

A Piauí também afirma que Zettel operacionalizava repasses a advogados, auxiliares e outros personagens citados nas investigações.

Entre eles aparece o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Segundo a revista, Zettel tratou de parcelas relacionadas ao filme “Dark Horse”.

“O cara do ‘filme’ não sai da minha cola. Me mandou um fluxo gigante”, afirmou.

A reportagem relata que os pedidos chegavam a Zettel por intermédio do lobista Thiago Miranda e que Vorcaro também recebia cobranças relacionadas aos pagamentos.

As mensagens descritas pela revista também associam Zettel a estruturas financeiras investigadas pelas autoridades. Ele era proprietário do fundo Leal, que controlava o Arleen, utilizado na aquisição de participação no resort Tayayá.

Segundo a reportagem, Zettel também realizava pagamentos destinados a Luiz Philippi Mourão, conhecido como Sicário, apontado pelos investigadores como integrante de um núcleo responsável por monitoramento, obtenção de informações sigilosas, coação e intimidação de pessoas que poderiam contrariar interesses de Vorcaro.

Apesar de operacionalizar os repasses, Zettel não teria autonomia para escolher qual empresa faria cada pagamento. De acordo com as mensagens citadas pela reportagem, Vorcaro definia a empresa e liberava os recursos.

Em uma das conversas com Marina, Zettel afirmou que o cunhado “esticava demais a corda”.

Ao ouvir dela que Vorcaro seria “burro”, respondeu:

“Para umas coisas, ele é inteligente. Para outras, ele é burro. Ele é emocionalmente burro. Por ele ser inteligente, ele conseguiu fazer o dinheiro todo. Por ele ser burro emocionalmente, ele transformou a vida dele nesse circo.”

Tentativa de se afastar do Master

Depois da prisão de Vorcaro, Zettel afirmou que pretendia demonstrar não ter relação com o Banco Master desde 2024 e sustentar que suas empresas, especialmente a Moriah Investimentos, eram independentes dos negócios do cunhado.

“Eu tenho que trabalhar para me descolar dele de qualquer jeito”, disse.

A Piauí afirma, porém, que mensagens obtidas pela Polícia Federal mostram Vorcaro participando de decisões relacionadas à Moriah.

Em uma dessas situações, Zettel perguntou ao cunhado se o doleiro Lúcio Funaro havia sido contratado pela empresa, após receber uma cobrança. Vorcaro autorizou o pagamento, segundo a reportagem.

Zettel também atribuiu sua exposição pública às relações políticas que mantinha.

“Há um movimento para me desmoralizar porque eu sou o link do Daniel com o Tarcísio”, afirmou, em referência ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

Na eleição de 2022, Zettel doou R$ 2 milhões à campanha de Tarcísio e R$ 3 milhões à campanha de Jair Bolsonaro, segundo os dados citados pela matéria.

A revista relata que essas doações passaram a alimentar suspeitas sobre a possibilidade de Zettel funcionar como intermediário financeiro entre Vorcaro e figuras da direita. A reportagem não apresenta essa hipótese como conclusão judicial.

Relato sobre R$ 20 bilhões

O patrimônio de Vorcaro voltou a aparecer nas conversas após a primeira prisão do ex-banqueiro.

Zettel afirmou que o cunhado enfrentava dificuldades para acessar recursos.

“Ele está completamente sem dinheiro. Não está conseguindo acessar, não está conseguindo trazer.”

Na sequência, relatou que Vorcaro teria mantido uma quantia muito superior no exterior.

“Ele guardou 20 bi no exterior e não consegue ir lá, não consegue gastar, não consegue pegar. Porque se pegar, é preso de novo. Então, não adianta nada juntar dinheiro fora. Se ferra do mesmo jeito. Não sei até onde o Daniel tem essa consciência. Eu acho que ele é meio inconsequente.”

A cifra de R$ 20 bilhões aparece como uma afirmação feita por Zettel nas gravações divulgadas pela Piauí. O material apresentado pela revista não indica que as autoridades tenham confirmado oficialmente a existência ou a localização de todo esse montante.

Segundo a reportagem, cerca de R$ 2 bilhões em imóveis e outros bens ligados a Vorcaro haviam sido localizados até então para eventual ressarcimento de credores prejudicados pela quebra do Master.

A reportagem também menciona a liquidação da Titan Capital, holding controlada pelo ex-banqueiro nas Ilhas Cayman. Quando as autoridades chegaram à empresa, segundo a reportagem, não havia ativos disponíveis, enquanto as dívidas superavam R$ 1 bilhão.

A matéria cita ainda apuração da colunista Miriam Leitão, de O Globo, segundo a qual o liquidante do Master rastreou ao menos um fundo não declarado por Vorcaro que teria recebido recursos por intermédio de várias pessoas.

Esse fundo, diferentemente da Titan Capital, ainda teria ativos avaliados na casa do bilhão.

Alexandre de Moraes aparece em conversa

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, também foi mencionado por Zettel em uma das gravações obtidas pela Piauí.

“O Xandão é melhor amigo do Daniel. Tô contando com ele. Melhor amigo, faz jantar junto, sai junto.”

Zettel não explicou o que queria dizer ao afirmar que estava “contando” com Moraes. A declaração expressa a versão do empresário sobre a relação entre o ministro e Vorcaro e, isoladamente, não demonstra qualquer atuação de Moraes em favor do ex-banqueiro.

A conversa ocorreu em 2 de setembro de 2025, quando Zettel aguardava a decisão do Banco Central sobre a tentativa de compra do Master pelo BRB.

“Amanhã sai a decisão, está na pauta”, afirmou.

“Vou tomar remédio para dormir, porque amanhã a sorte está lançada […] Amanhã vou ficar com dor de barriga o dia inteiro.”

A operação acabou rejeitada.

Preocupação com dinheiro após a crise

Depois da primeira soltura de Vorcaro, Zettel também relatou dificuldades financeiras próprias e da família.

Segundo ele, bancos haviam encerrado contas e cortado linhas de crédito. Em uma conversa com Marina, afirmou ainda que sua empresa praticamente não tinha mais funcionários e que havia salário atrasado.

Ao ser questionado sobre a possibilidade de Henrique Vorcaro, pai de Daniel, ajudar financeiramente, respondeu:

“O pai dele é um idiota. Esquece aquele cara. Já te falei oitenta vezes. Ele só é egoísta, só olha o dele.”

Zettel também manifestou preocupação com a exposição pública da família durante o Réveillon em Trancoso.

“O problema é as pessoas quererem passar Réveillon lá e acharem que não vai ter um caminhão da Rede Globo na porta da porra da casa. Que não vai ter drone sobrevoando a casa… E os caras estão achando que eles vão ficar lá fazendo churrasco, ligando caixa de som.”

Vorcaro voltou a ser preso em março deste ano, na mesma operação que levou Zettel à prisão.

Segundo a Piauí, o ex-banqueiro tenta negociar um acordo de colaboração premiada. Zettel, até o momento da publicação da reportagem, não negociava delação.

As defesas de Fabiano Zettel e Daniel Vorcaro foram procuradas pela revista e não haviam se manifestado até a publicação da reportagem.

Fonte: Brasil 247

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