Paraguai planeja usar energia de Itaipu para virar hub de inteligência artificial, diz vice-ministro
Por Victoria Lacerda — JOTA
O vice-ministro da Indústria do Paraguai, Javier Viveros, apresentou durante o JOTA Global , realizado em Nova York na última quarta-feira (23/9), os planos do país para o projeto Yguazú Digital, um empreendimento binacional com Taiwan que pretende usar parte da energia excedente da hidrelétrica de Itaipu para criar um hub de inteligência artificial na região. O memorando entre os dois países foi assinado em maio, o projeto está em fase de estudos de viabilidade, e o tratado formal deve ser assinado no segundo semestre de 2027.
“Naquela época, decidimos transformar água em eletricidade. Agora, o Paraguai tenta transformar essa eletricidade em inteligência”, disse Viveros, referindo-se à construção de Itaipu há cerca de 50 anos. Ele aponta que o projeto terá diferentes estágios, com a primeira fase prevendo 10 megawatts para prova de conceito, antes de escalar para até 1 gigawatt de potência total, o equivalente a cerca de um sétimo da capacidade da usina.
Viveros destacou que a escolha por Taiwan como parceiro não é coincidência. O Paraguai é um dos 12 países que ainda reconhecem Taiwan como nação independente e, do ponto de vista econômico, o país asiático tem tecnologia, capital e proximidade com o mercado brasileiro.
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“Não queremos apenas produzir IA para exportar. Não queremos vender energia apenas como indústria extrativa”, afirmou, acrescentando que o país pretende usar a inteligência artificial gerada para elevar a qualidade de vida da população local, além de atrair startups e criar um ecossistema de inovação.
Questionado se o hub pode se tornar o maior do mundo em capacidade de IA, Viveros foi cauteloso, dizendo não ter certeza disso dada a quantidade de novos projetos surgindo diariamente ao redor do mundo. “Mas acho que é grande o suficiente para nós. É algo inteligente de se fazer”, afirmou.
Segurança de dados é pré-condição para atrair investimento
Viveros também tratou da questão da soberania e proteção de dados no projeto, tema que classificou como central para atrair grandes empresas de tecnologia. “As grandes empresas, como Google e Meta, precisam dessa segurança para investir em contratos de longo prazo”, disse. Sobre este aspecto, ele disse que o tratado entre Paraguai e Taiwan vai garantir juridicamente a proteção de todos os dados processados no hub, tanto de clientes internacionais quanto da própria população paraguaia.
Em relação ao impacto econômico, o vice-ministro afirmou que, atualmente, o Paraguai exporta cerca de 50% de sua energia para Brasil e Argentina, movimento que ele quer começar a reverter. Isso será possível porque, disse ele, o país tem uma posição única no mercado global por operar com 100% de energia renovável e conseguir oferecer disponibilidade imediata de até 1 gigawatt de potência firme, sem depender de fontes intermitentes como solar ou eólica.
Regulação de IA no Brasil aguarda aprovação na Câmara
No mesmo painel, a secretária adjunta da Secretaria de Políticas Digitais do Brasil, Marina Pita, tratou do andamento da regulação de inteligência artificial no país e do Projeto de Lei 2338/2023 , que foi aprovado no Senado e aguarda votação na Câmara dos Deputados. Pita afirmou que o governo brasileiro também desenvolveu uma proposta própria sobre o modelo de governança da regulação de IA, com a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) assumindo o papel de harmonizar as regras entre diferentes setores regulados.
Segundo a secretária, o objetivo do Brasil é construir uma indústria de inteligência artificial responsável, sem excluir a participação de outros países no desenvolvimento local. “Estamos falando de soberania, mas isso não exclui outros países do desenvolvimento de IA no Brasil. Queremos todo mundo no país, mas, assim como com os minerais críticos, isso não significa o tipo de exploração que extrai o valor do país, ou seja, o valor tem que ficar no país e nos ajudar a desenvolver o país e também a economia”, afirmou, comparando o tratamento de dados ao debate sobre minerais críticos.
Pita também discutiu os principais obstáculos à aprovação do marco regulatório, citando a discussão sobre direitos autorais e remuneração de criadores de conteúdo cujo trabalho é usado por empresas de IA. De acordo com ela, o governo articula posições de cerca de 20 ministérios diferentes para chegar a uma proposta única, equilibrando demandas conflitantes, como a do Ministério do Desenvolvimento, que pede mais flexibilidade regulatória.
Questionada se alertas recentes de empresas de inteligência artificial, como a Anthropic, sobre os riscos da tecnologia deveriam aumentar a urgência da regulação, Pita disse estar preocupada, mas otimista. “Vejo o presidente Lula falando, acho que ele está na posição certa para tornar isso um diálogo global”, afirmou. Para ela, um ponto central da proposta brasileira é garantir que uma agência tenha acesso para investigar incidentes de IA, em um modelo que comparou ao setor de aviação, no qual, quando há um acidente, a indústria tem acesso às informações para evitar que o problema se repita.
O JOTA Global teve realização do JOTA , com patrocínio de ApexBrasil, DLA Piper e Vale, suporte especial do Einstein Hospital Israelita e parceria institucional da Dinâmica.
Fonte: JOTA