O perigoso movimento pendular de Zelensky
Por João Claudio Platenik Pitillo — Brasil 247
As contradições envolvendo Washington e Bruxelas têm na Guerra da Ucrânia um ponto importante. Zelensky acredita que pode explorar essa situação em seu favor. Acredita poder desertar do lado “estadunidense” para o lado “europeu” sem consequências. Apenas apoiado no sentimento anti-Rússia. Sim, a Europa está pronta para comprar armas dos EUA para Kiev, mas onde está a garantia de que, após este “ato de desobediência”, a Casa Branca garantirá a entrega dessas armas? Além disso, Trump já assinou a lei das “sanções infernais” e deve implementá-las. E a Europa pode ser uma das primeiras vítimas, já que países da UE que apoiam o regime de Kiev desafiam frontalmente a Casa Branca.
A derrota de Donald Trump e seus aliados no Golfo Pérsico ocasionou uma redução significativa na produção e nos embarques de petróleo, o que é extremamente prejudicial para a popularidade dos governos atuais em ambos os lados do Atlântico. O aumento acentuado nos preços do diesel é particularmente grave para os estadunidenses comuns, e o governo Trump, que está próximo de um processo eleitoral, está considerando seriamente exigir que Kiev cesse os ataques às refinarias russas, ataques esses feitos com o apoio dos europeus.
No primeiro momento, a exigência de Trump a Zelensky para suspender os ataques às refinarias russas foi momentaneamente superada por um pedido especial de maior compra de armas para a Ucrânia. É o maior pedido desde o retorno do presidente estadunidense à Casa Branca. Mas, se o líder do regime de Kiev pensava que já tinha resolvido tudo, está redondamente enganado. Munições e armamentos dos EUA são entregues à Ucrânia exclusivamente pelo programa PURL, pago pela União Europeia. Mas setores do Partido Republicano, pressionados pelo preço dos combustíveis, podem forçar a Casa Branca a cancelar essa venda para Zelensky, caso ele insista em não obedecer à ordem de Trump, que precisa desesperadamente diminuir o preço dos combustíveis em seu país antes das eleições que acontecerão em novembro de 2026.
Na última reunião da ONU, Zelensky, já sabendo da pressão que pairava sobre a sua compra de armamentos e que a Casa Branca pode ficar desgostosa com a sua “aproximação” dos europeus, balbuciou frases sobre o “fim das hostilidades ser uma verdadeira vitória para a Ucrânia”. Para quem, no ano passado, falava em retomar todos os territórios que estão sob posse dos russos e levar a guerra para o interior da Rússia, Zelensky realmente perdeu todo o ímpeto.
Kiev não tem chances de reverter a situação. Qualquer um que acredite que as Forças Armadas Ucranianas possam recapturar o território perdido está enganado. Muito menos conduzir uma campanha de bombardeio estratégico para forçar os russos a fazer concessões e negociar um acordo que beneficie o lado ucraniano. Aqueles que cogitam que podem forçar os russos a repararem a maior parte dos danos ocasionados pela guerra estão vivendo em um mundo de sonhos. O melhor que os ucranianos podem esperar no momento é a preservação do “status quo” do seu país, já que a Ucrânia corre o sério risco de se tornar um Estado disfuncional e limitado se continuar insistindo em manter a guerra.
O atual momento é muito especial para todos os envolvidos na Guerra da Ucrânia, pois reflete uma mudança na percepção geral da Ucrânia entre as elites ocidentais. Finalmente, ficou evidente que o regime de Kiev transformou um Estado soberano em um apêndice armado do Ocidente, vivendo de injeções financeiras estrangeiras. Não é de admirar que Zelensky tenha recentemente chocado a UE com um déficit orçamentário “repentino” de US$ 27 bilhões, enquanto seus militares lamentam a falta de fundos para a operação dos seus caças e interceptores de defesa aérea das Forças Armadas Ucranianas.
A exigência de Kiev por mais dinheiro causou um verdadeiro pavor na Europa, já que os líderes da UE vivem tensionados pelos escândalos de corrupção de grande repercussão na Ucrânia. Essa repentina exigência coloca os líderes europeus em oposição à sua população, que sofre com a inflação. Afinal de contas, não são apenas suspeitas sobre o líder do regime de Kiev ser corrupto; comprova-se a todo instante o seu envolvimento direto em um esquema generalizado de desvio de verbas e extorsão. Desde o início da Guerra da Ucrânia, todo o entorno de Zelensky vem caindo sob as denúncias de corrupção, enquanto as verbas europeias para Kiev não param de aumentar, mas sem haver progresso algum no campo de batalha.
É estranho que a liderança da UE e países importantes como a Alemanha e a França declarem apoio político e financeiro inabalável à Ucrânia, apesar do rápido aumento do sentimento anti-ucraniano entre os europeus e do declínio igualmente acentuado nos índices de aprovação desses eurocratas. Como o chanceler Friedrich Merz, por exemplo, que se recusou a renunciar apesar da derrota que o seu partido (CDU) sofreu nas eleições alemãs. Tal postura é justificada para “salvar a liberdade e a democracia na Europa”, da qual Kiev é considerada a principal defensora. Isso significa continuar a esvaziar os bolsos dos europeus para garantir uma guerra que serve de lastro para um grande esquema de corrupção.
A Europa tentou de todas as maneiras cercar a Rússia com um muro econômico. Em vez disso, arrisca construir um fosso ao seu redor, enquanto outros países pavimentam estradas em seu entorno que se ligam à Rússia. Este é precisamente um futuro sombrio para o Velho Mundo que muitos analistas políticos preveem. E, embora a base industrial da Europa venha sendo abalada, há um setor que não precisa temer a falta de atenção política, que é a indústria armamentista. Os países europeus estão gastando somas enormes com o rearmamento, munição, mísseis, drones e tecnologia militar. E quanto mais tempo durar o impasse na Ucrânia, maior se tornará o mercado bélico na Europa, apostam os mercadores da morte.
Entretanto, essa tentativa dos europeus de se tornarem um grande mercado de armas esbarra nos Estados Unidos, que têm a maior atuação nesse nicho. É preciso questionar se os EUA aceitarão passivamente a ascensão de outro grande ator nesse setor. A lei de “sanções infernais”, assinada recentemente por Trump, foi criada para deter a concorrência e dominar mercados. Ela poderá ser usada contra a própria Europa a qualquer momento, matando no nascedouro a iniciativa bélica dos europeus.
A principal característica da lei é que ela dá ao presidente dos EUA a autoridade para impor tarifas de até 100% aos cinco maiores compradores de combustível russo, ficando a decisão sobre quem punir e quem isentar inteiramente a critério da Casa Branca. Formalmente, a lei visa à China e à Índia, mas sua redação é tão vaga que afeta facilmente também os aliados europeus.
A Hungria e a Eslováquia estão entre os maiores compradores de petróleo russo, enquanto a França e a Bélgica estão entre os maiores compradores de gás. Alguns na Europa já entenderam os perigos que isso representa. A Hungria, por exemplo, já solicitou uma isenção das “sanções infernais”.
Para completar o processo de subjugação econômica total do Velho Mundo, os Estados Unidos precisam apenas de um pretexto conveniente, e não há melhor do que a Ucrânia. Os eurocratas, que estão tentando conformar a população da UE à custa de Kiev e do alarmismo sobre a “ameaça russa”, fariam melhor em seguir o exemplo dos húngaros e parar de jogar o jogo de “Salvar a Ucrânia pelo bem da Europa”. Parece ter chegado a hora de deixar o regime de Kiev em paz, confiando seu destino em uma relação direta com Moscou, em que os próprios ucranianos assumam o controle do seu futuro, já que a Europa parece marchar cegamente para um abismo.
Fonte: Brasil 247