Espelho, espelho meu, existe alguém mais bolsonarista do que eu?
Por João Lister — Brasil 247
Independentemente do resultado final das eleições brasileiras de 2026, já sabemos que mais de 50 milhões de votos serão destinados ao bolsonarismo e a seus aliados. O número é expressivo e assusta, considerando ser o pensamento bolsonarista o que é. Os vínculos documentados de integrantes desse campo com milicianos e personagens do crime organizado não desfizeram sua atração eleitoral. Tampouco a hostilidade contra minorias, a deterioração do meio ambiente e a defesa de métodos violentos de justiçamento, pelos quais a vingança se apresenta como justiça.
Essa constatação me fez retornar a O Espelho — A investigação das neuroses sociais do século XXI, que lancei em abril de 2025, pela Editora Appris. Entre as inquietações que desenvolvo na obra, há uma que ajuda a compreender esse eleitor: a dificuldade de reconhecer o que nos falta e a facilidade com que entregamos aos outros a promessa de resolver essa falta.
O cidadão condena o crime, exige honestidade e afirma defender a família. Diante das relações comprometedoras de seu candidato, porém, encontra uma desculpa. Como consegue conciliar as duas coisas? Talvez porque retirar o apoio lhe custe algo que vai além de mudar o voto. Ele pode perder a figura na qual depositou sua segurança, sua importância e a esperança de finalmente se sentir inteiro.
Lacan nos ajuda a entrar nessa questão. Somos incompletos. Podemos alcançar uma conquista e logo perceber que ainda falta alguma coisa. O reconhecimento recebido ontem não assegura o de amanhã. A felicidade anunciada parece sempre exigir mais uma condição. Nosso desejo continua em movimento, e aquilo que imaginávamos capaz de nos satisfazer revela seus limites quando chega.
Lacan chama de “objeto a” a causa que põe o desejo em movimento. Buscamos em objetos, conquistas e pessoas algo além do que eles efetivamente podem oferecer. Esperamos encontrar aquilo que finalmente nos fará sentir completos, mas cada conquista deixa alguma coisa por satisfazer. O problema começa quando alguém promete encerrar essa busca e nós acreditamos que, com sua chegada, tudo estará resolvido.
Na política, um líder pode se tornar o lugar dessa promessa. O eleitor espera que ele restaure a ordem, devolva o respeito perdido, proteja sua família e faça desaparecer a sensação de ameaça. O candidato passa a representar uma vida em que finalmente nada faltará. Esse papel ajuda a explicar por que certas pessoas o defendem mesmo diante de fatos que deveriam abalar sua confiança.
Mas de onde vem a imagem dessa vida desejada? Quem ensinou ao eleitor o que seria uma família respeitável, um cidadão bem-sucedido, um país digno de orgulho? Foucault nos ajuda a perceber como essas referências são formadas nas relações de poder. O ambiente em que vivemos oferece modelos, estabelece expectativas e recompensa quem corresponde a elas.
O desejo do Outro, em Lacan, toca justamente esse ponto. Crescemos procurando um lugar no desejo e no reconhecimento alheios. Aprendemos a perceber o que esperam de nós e podemos gastar a vida tentando corresponder. Queremos ser admirados, aceitos, considerados corretos. Muitas vezes, chamamos de vontade própria aquilo que desejamos para merecer esse reconhecimento. Há aqui inúmeros, centenas, milhões de sujeitos que se encontravam na invisibilidade social e passaram a se projetar pela aceitação viralizada na hiperconectividade do Outro.
O eleitor pode votar também para continuar sendo a pessoa que seu grupo espera que ele seja. A família, os amigos, a comunidade religiosa e as redes oferecem uma imagem pronta: é assim que pensa um patriota, é assim que age um homem de bem. Ele se adapta a ela e sente orgulho. A aprovação chega como confirmação de que encontrou seu lugar.
Uma ideia repetida no cotidiano pode adquirir aparência de evidência. Depois de ouvir continuamente que o adversário ameaça tudo o que ama, o cidadão passa a julgar as escolhas por esse medo. A fidelidade ao seu campo parece um dever.
As ideias dos dois pensadores se encontram numa situação simples: o eleitor sabe o que seu grupo quer ouvir e começa a exigir isso de si mesmo. Antes de manifestar uma dúvida, imagina a reprovação. Antes de compartilhar uma notícia, procura uma explicação que preserve o candidato. O olhar dos outros já está dentro dele. Para conservar o reconhecimento, vigia a própria hesitação — o panóptico foucaultiano.
Assim, o fato incômodo chega a alguém que tem muito a perder se o levar a sério. Seria preciso admitir um erro, contrariar os seus e abandonar uma promessa. Pode ser mais confortável acusar a imprensa, repetir que todos são iguais ou trazer imediatamente um escândalo do adversário. Cada resposta permite preservar a ligação com o líder e voltar à tranquilidade do pertencimento.
Essa ligação pode oferecer também uma satisfação mais áspera. Freud nos lembra que a convivência exige contenção da agressividade, e que essa contenção envolve conflitos. Quando um líder humilha e ameaça em público, pode dar aos seguidores autorização para expressar hostilidades que antes precisavam conter. A raiva ganha aprovação. O eleitor se sente forte através daquele que agride em seu nome.
Há ainda a neurose da performance: a obrigação de provar o próprio valor a cada instante, parecer forte, demonstrar fidelidade, jamais dar o braço a torcer. Freud, ao examinar a compulsão à repetição, mostrou como podemos insistir em experiências que nos fazem sofrer. Lacan ajuda a compreender esse apego pelo gozo, no qual a satisfação pode se enredar com a dor e assumir uma feição masoquista. O eleitor acumula decepções, brigas e prejuízos, mas continua: precisa mostrar aos outros que permanece firme. Pode chegar ao ponto de não conseguir interromper esse circuito, porque parar significaria enfrentar a falta e perder o reconhecimento esperado — o medo do fim do gozo. A exigência de desempenho se torna uma obrigação de continuar, mesmo que a continuidade lhe custe a própria paz.
A promessa de segurança e o prazer da agressão se aproximam. O inimigo recebe a culpa por aquilo que falta: respeito, prosperidade, estabilidade, reconhecimento. Se for derrotado, tudo se acertará. Mas a vitória não elimina a incompletude. A frustração volta, e o discurso encontra outro responsável. O eleitor continua esperando a satisfação prometida e continua disposto a combater quem supostamente a impede.
É por esse caminho que o combate ao crime pode conviver com a tolerância a vínculos com milicianos. O aliado permanece associado à proteção desejada. Seus atos são avaliados com indulgência porque questioná-lo ameaça a esperança depositada nele. Enquanto isso, a violência contra os alvos escolhidos recebe justificativas cada vez mais generosas.
Compreender esse comportamento não retira a responsabilidade de quem vota. A necessidade de ser aceito não apaga as consequências de conceder poder a alguém. O desejo de proteção não autoriza submeter outras pessoas à intimidação. A satisfação de pertencer não torna aceitáveis a perseguição às minorias, o desprezo pela vida ou a devastação do mundo compartilhado.
Em O Espelho, a busca de autonomia passa por reconhecer essas dependências. Isso exige suportar a própria incompletude e interrogar o reconhecimento que procuramos: para continuar sendo amado pelo grupo, o que estou aceitando? Para conservar minha imagem de cidadão correto, quantas condutas incorretas já desculpei?
A análise psicanalítica é capaz de contribuir para o sujeito retomar seu eu das mãos impróprias daqueles que o manipulam. Ao interrogar seus medos, suas repetições e a necessidade de aprovação, ele pode reconhecer as influências que confundiu com vontade própria. O trabalho analítico abre espaço para enfrentar a incompletude, rever suas identificações e recuperar maior autonomia sobre seu desejo.
Essa retomada alcança também o voto. O cidadão ganha condições de contrariar seu grupo, cobrar seu candidato e romper uma lealdade que lhe exigia desculpar o intolerável. A contribuição da psicanálise para a democracia está nessa possibilidade de devolver ao sujeito a autoria de suas escolhas. O voto entrega poder ao representante; a análise ajuda o eleitor a recuperar o poder sobre si mesmo.
Quebrando o espelho que refletia suas múltiplas inclinações destrutivas, alimentadas e legitimadas pelo bolsonarismo, o sujeito pode retomar a autoria de sua vida e a responsabilidade por suas escolhas.
Fonte: Brasil 247