A vida se decide quando sabemos eleger o que vem primeiro
Por Washington Araújo — Brasil 247
Brasília acordou nesta quarta-feira, 30 de setembro, sob o céu seco de fim de inverno e com o calendário apertado. Faltam quatro dias para que o eleitor escolha quem governará o país até 2030.
Raras vezes a nação esteve tão ocupada com o domingo e tão distraída das próximas décadas.
Passei os últimos dias refletindo sobre o documento do Escrever o Futuro porque ele toca numa ferida mais funda que a disputa eleitoral.
Fala de instituições e, sobretudo, de tempo. O tempo tornou-se o bem mais maltratado da nossa época.
A tirania do agora
Vivemos sob a ditadura do instante. Byung-Chul Han, em O aroma do tempo, descreve uma época que perdeu a duração: os dias se desfazem em estímulos sem começo, meio ou fim.
Pensar além do mês seguinte virou luxo de sonhadores.
Essa preguiça cobra juros altos, sempre de quem esteve ausente da decisão: uma escola precária hoje produzirá adultos despreparados daqui a vinte anos.
Shoghi Effendi, que dirigiu a comunidade bahá’í mundial entre 1921 e 1957, descreveu dois processos simultâneos em curso no mundo moderno.
Um, de desintegração, derruba velhas estruturas e espalha descrença. Outro, de integração, avança em silêncio e ergue as bases de uma ordem mais justa. Em 1936, escreveu que o mundo caminha para o seu destino e que a interdependência entre os povos já se tornara fato consumado.
Um homem que pensava longe
Poucas vidas me ensinaram tanto sobre pensar longe quanto a de Shapoor Monadjem, amigo de mais de quatro décadas. No Irã de meados dos anos 1950, ainda jovem, graduou-se em engenharia e foi trabalhar em importantes empresas petrolíferas persas. Cuidava de energia, e a sua própria vinha de um idealismo imbatível, consumido pela visão de um outro mundo possível e pela percepção de que a ordem mundial, já então, era “lamentavelmente defeituosa”. Recém-casado, deixou tudo e veio para o outro lado do mundo, um Brasil de que quase nada sabia: a primeira Copa do Mundo, em 1958, ele a acompanhou já em solo brasileiro. Viveu em Goiânia e em cidades de São Paulo, dirigiu grandes empresas e, aposentado, foi para Maringá, onde comprou uma fazenda e trocou os gabinetes refrigerados dos arranha-céus pelo trabalho no campo. Era o conselheiro que todos procuravam, de direito e de fato, e que devolvia a cada aflição uma sabedoria teórica e prática. Idealizou e fundou o Escrever o Futuro, a caminho de três décadas de serviço altruísta ao Brasil.

Um conselho para o tempo longo
A carta que ele ajudou a inspirar lê o Brasil com a lente de Shoghi Effendi.
Propõe que os candidatos à Presidência se comprometam, desde o primeiro dia de governo, a convocar um Conselho para o Futuro: cem brasileiros escolhidos entre mil convidados, referendados em plebiscito, afastados de eleições por dez anos. Em doze meses, formulariam uma visão de país e um conjunto integrado de reformas.
O mérito maior da ideia está em inverter a ordem habitual do debate.
Antes do instrumento, a finalidade.
Antes de saber quem manda, saber o que desejamos construir juntos.
A vida é curta. Pequena, só se quisermos
Sêneca lembrava que recebemos tempo suficiente para grandes realizações e que somos nós que o desperdiçamos. Freud, em Sobre a transitoriedade, argumentou que a finitude aumenta o valor das coisas belas.
No consultório, aprendi que muita gente foge do longo prazo porque ele a obriga a encarar a própria morte.
Convivi com gente que plantou árvores cuja sombra jamais a alcançaria e fundou escolas para netos de desconhecidos.
Com ela aprendi que a grandeza de uma vida se mede pela distância que suas escolhas conseguem percorrer.
Quem ocupa posições de poder carrega essa exigência em dobro e precisa distinguir o essencial do meramente importante.
A agenda do dia grita. A do século fala baixo e espera ser ouvida. Simples assim..
A brancura da toga
Eleger vem do latim eligere: escolher, separar, pôr à frente. A vida, a dos indivíduos e a das nações, se decide quando sabemos eleger o que vem primeiro.
A outra palavra da estação guarda uma lição ainda mais severa. Candidato vem de candidatus, aquele que se veste de branco, e este de candidus: alvo, puro, sincero, a mesma raiz de cândido. Pensando nos dias de hoje parece que essas duas palavras se divorciaram de suas origens por completo.
Na Roma antiga, quem pleiteava um cargo esfregava giz na toga até torná-la candida, alvíssima, para se apresentar ao fórum como alguém de intenções limpas, sem mancha a esconder.
Vinte séculos depois, a toga ficou no guarda-roupa da história e o giz virou marketing.
Um candidato digno do nome precisa de mãos limpas e também de um olhar limpo, livre da miopia que enxerga apenas o próximo mandato.
A sujeira mais grave da vida pública talvez seja essa: sequestrar o futuro dos outros em troca de quatro anos de poder.
O Conselho para o Futuro reúne candidatos no sentido mais antigo da palavra. Seus integrantes são chamados pela limpeza da trajetória e renunciam de antemão, por uma década, a qualquer cargo eletivo. Vestem a toga branca e abrem mão do fórum.
Aos que pedem nosso voto, a pergunta é direta: sua toga resiste a um compromisso que ultrapassa o próprio mandato?
A cada um de nós, outra: quanto do nosso tempo dedicamos ao país que nossos netos herdarão?
O relógio do mandato marca quatro anos. O relógio da nação marca gerações. Cabe a nós decidir qual deles vai governar o Brasil.
Fonte: Brasil 247