Da tragédia de 1965 ao BRICS: Indonésia recupera protagonismo no Sul Global

0

Por Redação Brasil 247 — Brasil 247

247 – Há 61 anos, na noite de 30 de setembro para 1º de outubro de 1965, começava na Indonésia uma sequência de acontecimentos que alteraria profundamente a história do país e produziria consequências para todo o Sul Global. O chamado Movimento 30 de Setembro, uma ação de setores militares que resultou na morte de seis generais, foi rapidamente derrotado, mas abriu caminho para a ascensão do general Suharto, o enfraquecimento e posterior afastamento do presidente Sukarno e uma gigantesca campanha de repressão contra comunistas, simpatizantes da esquerda e outros grupos considerados adversários.

A ruptura ocorreu apenas dez anos depois de a Indonésia ter sediado um dos acontecimentos fundadores da articulação política do Sul Global: a Conferência de Bandung, realizada em abril de 1955.

É justamente essa dimensão histórica que confere novo significado ao papel internacional da Indonésia no século XXI. Desde janeiro de 2025, o país é membro pleno do BRICS, grupo que se apresenta como espaço de coordenação política, econômica e diplomática de países do Sul Global e defende maior participação das economias emergentes nas instituições de governança internacional.

Bandung colocou o Sul Global no centro do debate

Em abril de 1955, representantes de 29 países asiáticos e africanos reuniram-se na cidade indonésia de Bandung em um mundo ainda marcado pelo colonialismo europeu e pela divisão entre Estados Unidos e União Soviética.

A Indonésia de Sukarno estava no centro desse movimento.

Bandung reuniu lideranças e governos que procuravam afirmar a independência dos países recém-libertados do colonialismo e construir relações internacionais que não fossem determinadas exclusivamente pelas grandes potências.

Entre os protagonistas estavam, além de Sukarno, o primeiro-ministro indiano Jawaharlal Nehru, o primeiro-ministro chinês Zhou Enlai e o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser.

Da experiência de Bandung emergiram princípios como respeito à soberania, não intervenção nos assuntos internos, igualdade entre as nações, coexistência pacífica e cooperação entre os países em desenvolvimento.

A conferência tornou-se uma das principais referências históricas do que posteriormente seria chamado de Sul Global e ajudou a criar o ambiente político que levaria ao surgimento do Movimento dos Países Não Alinhados em 1961.

A ruptura de 1965

Dez anos depois, a Indonésia encontrava-se no centro das tensões da Guerra Fria.

Sukarno procurava equilibrar diferentes forças internas, incluindo as Forças Armadas, grupos nacionalistas, organizações religiosas e o Partido Comunista da Indonésia, o PKI, que havia se tornado uma das maiores organizações comunistas do mundo fora da União Soviética e da China.

Na madrugada de 1º de outubro de 1965, militares ligados ao chamado Movimento 30 de Setembro sequestraram altos oficiais do Exército. Seis generais foram mortos. Os integrantes do movimento declararam ter agido para impedir uma suposta conspiração contra Sukarno.

A ação fracassou rapidamente. Suharto, então general do Exército, assumiu o controle da reação militar e passou a atribuir a responsabilidade pelo episódio ao PKI. A interpretação dos acontecimentos de 1965 permanece objeto de debate histórico, inclusive sobre a extensão do envolvimento da direção comunista na operação.

O que aconteceu depois, entretanto, está amplamente documentado: iniciou-se uma campanha de perseguição em massa contra integrantes do PKI e pessoas identificadas ou acusadas de simpatizar com a esquerda.

Centenas de milhares foram mortos

Nos meses seguintes, militares e grupos civis participaram de uma onda de violência em diferentes regiões da Indonésia.

As estimativas variam, mas historiadores e organizações de direitos humanos situam em centenas de milhares o número de mortos. Algumas estimativas chegam a mais de meio milhão, e outras ultrapassam um milhão. Comunistas, sindicalistas, camponeses, intelectuais e integrantes da comunidade de origem chinesa estiveram entre os grupos atingidos.

Além das mortes, centenas de milhares de pessoas foram presas ou sofreram perseguição.

Sukarno perdeu progressivamente o poder. Suharto assumiu a Presidência e estabeleceu a chamada Nova Ordem, regime que governaria a Indonésia durante mais de três décadas, até 1998.

Uma derrota para o projeto político de Bandung

A transformação da Indonésia teve consequências que ultrapassaram suas fronteiras.

O país que dez anos antes havia simbolizado a emergência política independente da Ásia e da África passou a integrar uma configuração internacional muito diferente daquela defendida por Sukarno.

Nesse sentido, 1965 pode ser compreendido também como uma grande inflexão na história do Sul Global.

Bandung expressara a tentativa dos países recém-independentes de construir autonomia diante das potências. A mudança de regime na Indonésia retirou desse movimento uma de suas principais lideranças e alterou o equilíbrio político do Sudeste Asiático em plena Guerra Fria.

O projeto de cooperação Sul-Sul, porém, não desapareceu. Seus princípios reapareceriam em diferentes formatos nas décadas seguintes, do Movimento dos Não Alinhados ao G77 e, posteriormente, em mecanismos contemporâneos de articulação entre economias emergentes.

Indonésia entra no BRICS

É nesse arco histórico que a entrada da Indonésia no BRICS adquire especial significado.

Em 6 de janeiro de 2025, durante a presidência brasileira do agrupamento, o Brasil anunciou oficialmente a Indonésia como membro pleno. A adesão havia sido aprovada politicamente durante a Cúpula de Joanesburgo de 2023 e foi formalizada depois da formação do novo governo indonésio.

A entrada colocou no BRICS o país mais populoso e a maior economia do Sudeste Asiático.

Ao anunciar a adesão, o governo brasileiro destacou justamente a contribuição indonésia para o aprofundamento da cooperação do Sul Global e sua defesa da reforma das instituições de governança internacional.

A própria Indonésia apresentou sua participação no BRICS como instrumento para ampliar a voz dos países em desenvolvimento nos processos internacionais de decisão.

De Bandung ao BRICS

Há uma linha histórica possível entre Bandung e a atual presença indonésia no BRICS, embora os contextos e as instituições sejam profundamente diferentes.

Em 1955, países da Ásia e da África reivindicavam soberania diante de um sistema internacional ainda marcado pelo colonialismo.

Hoje, as reivindicações concentram-se também na reforma de instituições construídas no pós-Segunda Guerra Mundial, na ampliação da representação das economias emergentes, na cooperação financeira, no comércio, no desenvolvimento e na busca de maior autonomia internacional.

O presidente Lula destacou essa dimensão ao receber a Indonésia como novo membro pleno do BRICS e associar a expansão do grupo à necessidade de fortalecer a cooperação do Sul Global e reformar a governança internacional.

A trajetória indonésia, portanto, encerra uma poderosa contradição histórica.

O país que ajudou a formular em Bandung uma visão de soberania e autonomia para os povos da Ásia e da África sofreu, apenas uma década depois, uma das rupturas políticas mais traumáticas da Guerra Fria e viveu mais de 30 anos sob Suharto.

Seis décadas depois do Movimento 30 de Setembro, a Indonésia volta a ocupar posição relevante na articulação internacional do Sul Global. Agora, como integrante do BRICS, Jacarta participa de um agrupamento que reúne algumas das maiores economias emergentes e busca ampliar o peso político dos países em desenvolvimento na definição das regras da ordem mundial.

De Bandung ao BRICS, a história da Indonésia ajuda, assim, a contar também uma parte fundamental da longa busca do Sul Global por soberania, desenvolvimento e maior influência sobre os destinos do sistema internacional.

Fonte: Brasil 247

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *