Sei do que estou falando, diz Pedro Alves, que vive o bissexual Fernando em ‘Quem Ama Cuida’
A Gazeta

Ronny Santos-16.set.26/Folhapress
Na história, ele movimenta a relação de Mau Mau (João Victor Gonçalves) e Felipe (Pietro Antonelli). Para o ator, porém, a coincidência importa menos do que as diferenças entre os personagens.
“É engraçado que todos são muito diferentes uns dos outros. Eu não me preocupo de fazer personagens queer em novela porque o que me interessa mesmo é fazer um personagem bom”, disse, à reportagem. “Realmente não me preocupo muito por quem os meus personagens se apaixonam.”
Bissexual, Pedro afirma que sua vivência o ajuda a criar personagens LGBTQIA+. “Eu sei do que eu estou falando, tenho embasamento sobre isso. Quando esses temas me tocam como pessoa, eu consigo jogar eles de uma forma mais natural na hora de atuar.”
Nos capítulos que foram ao ar na sexta-feira (24) e no sábado (25), seu personagem deixa claro que se interessa por homens e mulheres e o ator faz questão de ressaltar a importância desse tipo de representatividade.
“Todo ator no mundo que se propõe a assumir um papel queer LGBT assume uma responsabilidade. E talvez muitos atores não tenham consciência disso”, afirmou. “A gente não pode fazer isso levianamente, tem que saber do que está falando, tem que pesquisar.”
Se em 1995 André Gonçalves sofria preconceito nas ruas apenas por interpretar um homem gay em “A Próxima Vítima”, em 2026 os comentários negativos recebidos por Pedro têm outra origem: Fernando entrou no caminho do casal favorito de parte do público.
“Uma boa parte dos fãs idealizaram o Felipe com o Mau Mau. E eu acho isso ótimo. A TV gera uma emoção e uma comoção no público, e não cabe a mim desvalidar essa emoção”, explicou. “Não posso deixar que isso se torne algo pessoal contra mim, que sou profissional. Eu acho bom que estejam essas disputas de shippers, porque isso aquece a história.”
A exceção entre seus personagens recentes está em “Vermelho Sangue”, cuja segunda temporada acaba de chegar ao Globoplay. Na série, Pedro interpreta Michel, vampiro que o ator brinca ser o único de sua carreira na teledramaturgia que foge à regra. “Ele é bem hétero mesmo”, riu.
Michel também marcou sua estreia como protagonista e já foi apontado pelo ator como o papel mais difícil de sua carreira. Agora, Fernando ameaça tomar o posto. “Com as cenas que eu tô recebendo do Fernando, eu tô entendendo que a gente tá chegando numa parte muito desafiadora também.”
A projeção da novela das nove marca uma mudança recente na trajetória de Pedro. Até o ano passado, ele ainda conciliava a carreira artística com outros trabalhos. Já foi garçom, recepcionista, babá e faxineiro para se manter.
“Esses trabalhos mais corriqueiros, que são trabalhos da maioria dos brasileiros, me ajudaram a ser uma pessoa mais humana. Quando você permeia muitas camadas sociais, tem mais propriedade para entender os sentimentos do personagem”, refletiu.
A última vez que trabalhou como faxineiro foi antes de “Dona de Mim”. “Desde 2025 que eu não faço mais esse tipo de trabalho. Mas tudo na vida é uma montanha-russa, pode ser que amanhã eu volte a fazer.”
Mais do que a projeção profissional, chegar a “Quem Ama Cuida” é especial para o ator, pois o deu a oportunidade de atuar em uma trama escrita por um ídolo: Walcyr Carrasco, autor que acompanha desde a infância.
Pedro cresceu longe do Brasil e encontrou justamente nas novelas uma forma de manter contato com a cultura do país. Entre elas, uma ocupa lugar especial: “Alma Gêmea”, escrita por Walcyr e exibida pela Globo em 2005.
“Foi a primeira novela pela qual eu fiquei completamente apaixonado. Eu lembro que o capítulo saía de noite, para a gente era de madrugada, então eu dava um jeito, antes de ir para a escola, de ir na Globo.com e botar as cenas de ‘Alma Gêmea'”, contou.
Nascido no Rio de Janeiro, Pedro tinha oito anos quando se mudou com a família para a Bélgica. Mais tarde, também viveu em Paris, na França. A distância fez com que a televisão brasileira assumisse um papel que ia além do entretenimento.
“Eu cresci com uma cultura completamente diferente da cultura brasileira, da cultura carioca. Eu tinha oito anos quando fui para lá”, conta. “O momento que eu tinha conexão com o Brasil era através da televisão. Por isso que eu sou muito apaixonado pela TV brasileira”, disse, emocionado.
Pedro começou a estudar atuação ainda na Bélgica, aos 12 anos. Quando terminou a escola e precisou decidir onde continuaria sua formação, recebeu da mãe duas possibilidades: Paris ou Rio de Janeiro. A escolha foi imediata.
“Eu não pensei duas vezes. Falei: ‘Quero fazer teatro no Rio de Janeiro, porque eu quero voltar a saber o que é ser brasileiro e eu quero fazer novela'”, contou.
Mesmo com a carreira concentrada no Brasil, Pedro não vê a mudança para o Rio como um retorno definitivo. O ator continua dividindo a vida entre o país onde nasceu e a Europa, onde cresceu. “Eu sou uma pessoa sem país definido. Amo estar no Rio, amo estar no Brasil, mas também amo estar em Paris ou na Bélgica. Eu me sinto em casa nos três lugares.”
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Fonte: A Gazeta