Depois do “Lula Lá” e do “Lula Livre”, chegou a vez do “Bora, Lula” entrar para a história
Por Henrique Nunes — Brasil 247
No dia 7 de setembro, o produtor de conteúdo Pedro Miranda saiu às ruas e se deparou com um pequeno protesto: num cruzamento de uma grande avenida, dois idosos convidavam os motoristas que transitavam pelo local a buzinar caso apoiassem a mensagem “Fora, Lula”. O influencer se aproximou e, numa provocação bem-humorada, gritou “Bora, Lula” repetidas vezes, para indignação dos eleitores adversários.
Em duas semanas, o vídeo original já somava mais de 6 milhões de visualizações e foi amplamente replicado por outras contas nas redes sociais. Ainda que Miranda tenha sido obrigado a recuar por ter recebido diversas ameaças (o que já era provável), o contragolpe em tom satírico àquele inócuo protesto contra o presidente já não mais lhe pertencia.
Pouco a pouco, o “Bora, Lula” foi ganhando espaço entre a militância, motivando a criação de incontáveis versões de vídeos de apoio à reeleição do candidato petista até se transformar no lema extraoficial da campanha de 2026.
Em comentários nas redes e em postagens de apoiadores, o uso da expressão passou a ganhar força, transformou-se em imagens, cards e vídeos, até chegar à mesa do 342 Artes, coletivo ligado à produtora Paula Lavigne.
Foi aí que a coisa ficou séria. No vídeo produzido para as redes no último dia 18, artistas brasileiros como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Xamã e Malu Mader, além de outros nomes de peso da cultura nacional, repetem a expressão “Bora, Lula” e reiteram o apoio histórico ao candidato petista numa disputa considerada crucial para a democracia brasileira.
As contas oficiais de Lula também aderiram ao movimento, transformando de forma definitiva o “Bora, Lula” numa marca emblemática dos nossos tempos — para usar outro jargão das ruas, é como se o campo democrático dissesse “mete marcha, presidente!”.
Desde então, seu uso já tomou conta de toda a narrativa progressista e ecoa, no início e no fim de atos públicos, com cada vez mais força. Agora, a poucos dias das eleições, disseminar o “Bora, Lula” parece ainda mais imprescindível dadas as circunstâncias apresentadas pelo acirramento das pesquisas.
Oito anos depois
A criação de frases de efeito com o nome de Lula, todos sabem, não é uma novidade. Como esquecer, por exemplo, do resiliente “Lula Livre” que ecoou pelo Brasil e pelo mundo durante os 580 dias em que o presidente esteve mantido em cárcere político numa das maiores farsas judiciais da história do país?
O slogan, que extrapolou as nossas fronteiras e contou com a adesão de celebridades internacionais como Roger Waters, do grupo britânico Pink Floyd, e do linguista e filósofo Noam Chomsky, também se materializou na vigília homônima que fincou morada em frente à Superintendência da Polícia Federal em Curitiba.
Isso sem contar a profusão absurda de materiais gráficos, canções, camisetas e até um verbete próprio na Wikipédia.
Passados oito anos daquela trama golpista, eis que um novo emblema desponta nas ruas, mais uma vez, como síntese de uma luta que acompanha Lula desde os seus tempos de líder sindical.
Sai o “fora” encampado pelas elites conservadoras e entra o “bora” das massas. Um caprichoso recurso da gramática para reacender o lulismo. Para reacender a luta por democracia.
Lula Lá 2.0
Antes do “Bora, Lula” e do “Lula Livre”, um outro lema, este com ainda mais lastro, já mostraria por que o atual presidente é figura tão distinta no cenário político. Em 1989, o refrão da canção “Lula Lá”, escrita pelo cantor e compositor brasileiro Hilton Acioli para o segundo turno da campanha, é considerado por muitos como o maior jingle nacional já feito.
Apesar da derrota, o “Lula Lá” tornou-se um hino de resistência que reapareceria em todas as corridas eleitorais seguintes (inclusive com novas versões em 2002 e 2022) e segue amplamente usado até hoje em eventos progressistas — com ou sem a presença de Lula.
A diferença dos momentos históricos está no contexto político: se em 1989 a mensagem era “sem medo de ser feliz” e em 2018 o grito era contra a prisão ilegal, agora é hora de ir para cima, defender o legado construído durante as gestões petistas e evitar que a democracia seja colocada novamente à prova. “Bora, Lula”, portanto, é um chamado para seguir em frente, ainda que as ameaças estejam sempre à espreita.
Fonte: Brasil 247