Breno Altman: “vejo 60% de chance de segundo turno e 40% de chance de Lula no primeiro turno”
Por Dafne Ashton — Brasil 247
247 – A poucos dias da eleição presidencial, o jornalista Breno Altman avalia que Luiz Inácio Lula da Silva chega à reta final com possibilidade de encerrar a disputa no primeiro turno, embora considere o segundo turno o cenário mais provável. Para ele, a movimentação dos eleitores nos últimos dias, a concentração do voto da direita em Flávio Bolsonaro e a capacidade de mobilização da base lulista serão determinantes para o resultado.
Em entrevista à TV 247, Altman estimou em 60% a possibilidade de a eleição avançar para uma segunda rodada e em 40% a chance de Lula alcançar os votos necessários para vencer já no próximo domingo (4).
“Eu acho que, vamos dizer, 60% de chance de ir para o segundo turno e 40% de terminar no primeiro”, afirmou.
Segundo Altman, Lula deve terminar o primeiro turno à frente de Flávio Bolsonaro, mas o tamanho dessa vantagem ainda depende do comportamento do eleitorado dos demais candidatos. Uma migração acelerada dos votos das candidaturas de direita para Bolsonaro poderia reduzir as possibilidades de definição da eleição na primeira votação.
O jornalista chamou atenção, por exemplo, para o enfraquecimento das demais candidaturas desse campo na reta final. Esse movimento, em sua avaliação, pode concentrar o voto contrário ao PT em Flávio Bolsonaro.
“Um derretimento súbito dos candidatos de direita, que pode acontecer na reta de chegada, favorece o Flávio Bolsonaro”, disse.
A importância de Lula chegar perto dos 50%
Mesmo considerando possível a vitória no primeiro turno, Altman afirmou que a campanha de Lula precisa trabalhar também com a hipótese de uma segunda rodada. Nesse cenário, o percentual alcançado pelo presidente no próximo domingo seria uma variável importante.
Para o jornalista, Lula deveria terminar o primeiro turno próximo dos 49% dos votos válidos caso não consiga liquidar a eleição.
“O presidente Lula tem que bater em 49%. Tem que virar para o segundo turno com 49%”, afirmou.
Altman avalia que uma votação abaixo desse patamar aumentaria a necessidade de buscar novos eleitores para a segunda etapa da eleição, principalmente entre aqueles que se abstiverem no primeiro turno.
Esse é, para ele, um dos elementos que diferenciam a eleição de 2026 da disputa de 2022.
Há quatro anos, Lula conseguiu ampliar sua votação no segundo turno também a partir dos eleitores que haviam escolhido outros candidatos na primeira rodada. Altman lembrou que parte dos votos destinados a candidaturas como as de Ciro Gomes e Simone Tebet migrou posteriormente para Lula.
Em 2026, segundo sua análise, essa reserva eleitoral é menor.
“Desta vez o presidente Lula vai para o segundo turno sem reserva de mercado, ou seja, sem candidaturas outras que possam alimentá-lo no segundo turno. Então ele vai precisar reduzir a abstenção na sua base social”, explicou.
A estratégia, portanto, teria de ser diferente: identificar os setores que não compareceram às urnas e tentar mobilizá-los para uma eventual segunda votação.
“É fazer quem se absteve no primeiro turno votar no segundo turno”, resumiu.
“Petismo de chegada” e “antipetismo de chegada”
Altman identifica dois movimentos simultâneos na reta final: aquilo que chamou de “antipetismo de chegada” e “petismo de chegada”.
O primeiro corresponde à concentração do eleitorado contrário ao PT em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro. À medida que a eleição se aproxima, eleitores de outras candidaturas da direita poderiam migrar para Bolsonaro por considerá-lo o nome com maior possibilidade de enfrentar Lula.
“O voto antipetista na sociedade conflui para o candidato que pode derrotar o presidente Lula. Por isso nós estamos, desta vez, com o primeiro turno com muita cara de segundo turno”, afirmou.
Ao mesmo tempo, ocorre o movimento contrário. Altman chama de “petismo de chegada” a entrada mais intensa da militância lulista na campanha durante os últimos dias.
Essa mobilização, ressaltou, ultrapassa os quadros formalmente filiados ao PT. Inclui movimentos sociais, sindicatos, setores da cultura e eleitores que atuam em defesa da candidatura de Lula em suas relações pessoais, profissionais e nas redes sociais.
Altman citou as manifestações realizadas no Rio de Janeiro, em São Paulo e no Nordeste como sinais dessa movimentação.
“Numa eleição muito apertada, em que os indecisos são a questão principal, essa mobilização de chegada, esse petismo de chegada, pode ser suficientemente forte para mobilizar dois ou três pontos percentuais do eleitorado”, disse.
Em uma disputa definida por margem estreita, acrescentou, poucos pontos podem ser suficientes para determinar se haverá ou não segundo turno.
Mudança de estratégia
Para Altman, a melhora recente de Lula nas pesquisas também estaria relacionada a uma mudança na condução da campanha.
O jornalista avalia que, até cerca de dez dias atrás, a estratégia estava concentrada na divulgação das realizações do terceiro mandato e na comparação entre os governos Lula e Jair Bolsonaro.
“A campanha até uma semana atrás, até dez dias atrás, era uma campanha olhando para o retrovisor”, afirmou.
Segundo ele, essa abordagem não estava conseguindo produzir a movimentação eleitoral esperada porque parte da população não percebia sua situação cotidiana da mesma forma que a comunicação governista apresentava os resultados da administração.
A mudança teria ocorrido quando Lula passou a colocar propostas e decisões com impacto direto na vida das famílias no centro do debate eleitoral.
“A campanha deixou de ser feita olhando para o retrovisor e passou a ser feita olhando para a frente”, disse.
Altman mencionou, entre os exemplos dessa mudança, o aumento do Bolsa Família, a proibição das bets e a discussão sobre o fim da escala 6×1.
Na avaliação do jornalista, especialmente o enfrentamento às apostas conseguiu introduzir um tema relacionado ao endividamento das famílias e ao orçamento doméstico, além de permitir diálogo com diferentes grupos do eleitorado.
Sudeste pode definir a disputa
A distribuição regional dos votos também será decisiva, segundo Altman. O jornalista avalia que o mapa eleitoral mantém características semelhantes às observadas em 2022: Lula apresenta sua maior força no Nordeste, enquanto Flávio Bolsonaro registra desempenho mais elevado no Sul e no Centro-Oeste.
Isso deixa o Sudeste no centro da disputa.
“Se o presidente Lula conseguir melhorar sua performance no Sudeste, porque eu acho que não tem mais muito como crescer no Nordeste, o crescimento do presidente Lula pode decidir a eleição”, afirmou.
Entre os estados da região, São Paulo é apontado como a maior preocupação. Além de ser o maior colégio eleitoral do país, o estado tem apresentado dificuldades para as candidaturas da esquerda.
“São Paulo é o grande problema da esquerda brasileira”, resumiu Altman.
A avaliação sobre Minas Gerais é mais favorável à campanha de Lula. Segundo ele, a candidatura de Patrus Ananias ao governo estadual ajudou a criar um palanque e ampliar a presença eleitoral do presidente no estado.
No Rio de Janeiro, Altman considera necessário observar principalmente o comportamento do eleitorado da Baixada Fluminense e do interior.
A matemática eleitoral, portanto, não depende apenas da vantagem nacional registrada por Lula, mas da capacidade de ampliar votos justamente nos estados que concentram grande parte do eleitorado brasileiro.
Uma eleição ainda pouco mobilizada
Altman também chama atenção para uma característica que considera diferente de 2022: o menor grau de envolvimento político visível nas ruas.
Embora reconheça o crescimento da mobilização nos últimos dias, ele afirma que a quantidade de adesivos, bandeiras, manifestações e demonstrações públicas de apoio permanece abaixo daquela registrada quatro anos atrás.
“É uma eleição desapaixonada”, definiu.
Segundo ele, o cansaço de parte do eleitorado com a política pode contribuir para a tentativa de concentrar votos já no primeiro turno. Ao mesmo tempo, essa menor mobilização torna ainda mais importante a capacidade das campanhas de alcançar indecisos e estimular o comparecimento às urnas.
É nesse contexto que Altman situa sua estimativa de 60% de possibilidade de segundo turno e 40% de vitória de Lula na primeira rodada. Não se trata, segundo sua análise, de um cenário definido, mas de uma disputa que ainda pode ser alterada pelos movimentos dos últimos dias.
Caso a eleição siga para uma segunda rodada, o jornalista defende que Lula concentre sua campanha nas propostas para o futuro, em vez de depender prioritariamente da comparação com o governo Bolsonaro ou de denúncias contra o adversário.
“O presidente Lula tem que falar sobre o que pretende fazer no seu quarto mandato”, afirmou.
Para Altman, propostas como o fim da escala 6×1 poderiam ocupar espaço central nesse cenário.
“O decisivo não está na comparação entre os governos. O decisivo não está nos feitos do governo Lula 3, embora tudo isso deva ser tratado. O decisivo está em criar um canto sobre o futuro”, concluiu.
Fonte: Brasil 247