Altman: “Flávio Bolsonaro errou ao atacar a Igreja Católica”

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Por Dafne Ashton — Brasil 247

247 – O jornalista Breno Altman afirmou que Flávio Bolsonaro cometeu um erro político ao reagir à controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida atacando a Igreja Católica e representantes da instituição. Para ele, o episódio pode provocar desgaste na reta final da eleição, mas exige cautela da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que a disputa não seja convertida em um confronto religioso.

Em entrevista à TV 247, Altman analisou a repercussão da discussão que ganhou espaço na campanha após circular a informação de que haveria uma iniciativa para retirar de Nossa Senhora Aparecida a condição de padroeira do Brasil. O jornalista ressaltou que a informação inicialmente divulgada não correspondia exatamente ao conteúdo da proposta que deu origem à controvérsia.

Segundo Altman, o que existiu foi uma iniciativa apresentada por um deputado ligado ao bolsonarismo que propunha alterar a definição de Nossa Senhora Aparecida de “padroeira do Brasil” para “padroeira dos católicos brasileiros”. O projeto não chegou a ser votado.

Para o jornalista, portanto, é necessário separar a informação incorreta que desencadeou a polêmica do efeito político produzido pelas reações posteriores.

“Nasceu de uma informação errada. A informação correta era uma informação diferente, era uma informação mais atenuada. Não havia um projeto de campanha para retirar Nossa Senhora Aparecida de padroeira do Brasil”, explicou.

“Flávio Bolsonaro vai para cima da Igreja Católica”

Na avaliação de Altman, o ponto eleitoralmente relevante passou a ser a maneira como Flávio Bolsonaro reagiu ao episódio. Segundo ele, o candidato entrou em confronto com integrantes da Igreja e com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), deslocando a controvérsia para uma disputa institucional.

“A questão principal: o Flávio Bolsonaro comete um erro. Esse erro ajuda o presidente Lula”, afirmou.

Em seguida, Altman resumiu qual seria esse erro: “Flávio Bolsonaro vai para cima da Igreja Católica. Ele ataca frontalmente a Igreja Católica. Aqui no Brasil é uma instituição de enorme prestígio”.

O jornalista observou que o peso político e social da Igreja Católica não se limita ao número de brasileiros que se declaram católicos. A instituição mantém presença histórica no país por meio de dioceses, paróquias, organizações sociais e da própria CNBB.

Por isso, na interpretação de Altman, o confronto direto com bispos e representantes da Igreja acrescentou uma dimensão política que não estava necessariamente presente na origem da controvérsia.

“Ele bate de frente com a CNBB, ele bate de frente com os bispos, ele declara uma guerra religiosa e isso enfraquece”, disse.

Altman alerta contra uma “guerra santa”

Ao mesmo tempo, Altman fez uma advertência à campanha de Lula. Para ele, seria um erro transformar o episódio em uma disputa política entre católicos e evangélicos.

O jornalista considera que a campanha presidencial deve evitar qualquer movimento que possa ser interpretado como hostilidade aos evangélicos, segmento que possui peso eleitoral e presença expressiva na sociedade brasileira.

“Não é do interesse da campanha do presidente Lula uma guerra santa. Católicos e evangélicos: esse assunto não é bom para o presidente Lula”, afirmou.

Altman estabeleceu uma distinção entre explorar politicamente o conflito criado pelas declarações de Flávio Bolsonaro e estimular uma divisão religiosa.

“O que é bom para o presidente Lula é essa situação em que Flávio Bolsonaro aparece travando uma guerra religiosa contra os católicos. O presidente Lula não pode aparecer travando uma guerra religiosa contra os evangélicos”, disse.

Segundo ele, Lula vinha tratando o assunto com cautela. Altman citou como exemplo declarações dadas pelo presidente durante entrevista à Band, quando Lula defendeu Nossa Senhora Aparecida sem transformar a questão em ataque a outra religião.

“O presidente Lula é muito cuidadoso com esse tema”, afirmou.

Militância nas redes exige cautela

Altman também diferenciou o comportamento esperado de Lula daquele adotado por militantes nas redes sociais. Para ele, é previsível que setores da militância transformem a controvérsia em instrumento de disputa política, mas o presidente não deveria seguir pelo mesmo caminho.

“Eu entendo que a militância petista, especialmente a chamada webmilitância, vá para a guerra ideológica religiosa. Não tem como conter isso. Agora, o presidente Lula não cairá nessa armadilha”, declarou.

O jornalista argumentou que uma polarização religiosa poderia modificar os termos da reta final da eleição e mobilizar identidades que atravessam as preferências partidárias. Por essa razão, considera necessário impedir que o episódio passe a ocupar o centro da campanha.

“Eu não acho que esse seja o centro principal do debate. Não tem indicações a esse respeito. Precisamos aguardar as pesquisas. Eu não acho que seja o centro do debate. Acho perigoso se for o centro do debate”, afirmou.

Na análise de Altman, a campanha de Lula tem mais a ganhar mantendo no centro da disputa questões econômicas e sociais diretamente relacionadas à vida da população.

Impacto eleitoral ainda precisa ser medido

Apesar de avaliar que o episódio criou dificuldades para Flávio Bolsonaro, Altman ressaltou repetidamente que ainda não existem dados suficientes para determinar sua dimensão eleitoral.

Para ele, as próximas pesquisas poderão indicar se houve movimentação significativa entre eleitores católicos e se a controvérsia produziu alguma alteração nas intenções de voto.

“Esse assunto está ajudando o presidente Lula. Eu não tenho a medição disso. A gente precisa ver a medição dos próximos dias, a medição em pesquisas”, afirmou.

Altman também chamou atenção para a necessidade de não transformar interpretações políticas em dados objetivos antes que pesquisas sejam divulgadas. Ao longo da entrevista, defendeu que levantamentos eleitorais sejam analisados com atenção à metodologia e ao momento em que foram realizados.

O jornalista considera que a própria reação de Flávio Bolsonaro pode indicar preocupação de sua campanha, mas apresentou essa interpretação explicitamente como hipótese, e não como informação confirmada.

“Eu sou capaz de especular, não tenho essa informação, de que pesquisas internas da campanha de Flávio Bolsonaro acenderam um alerta vermelho em relação a isso”, afirmou.

Religião entra na reta final

A controvérsia colocou a religião entre os assuntos debatidos nos últimos dias da campanha, período em que as candidaturas disputam eleitores indecisos e tentam consolidar votos já conquistados.

Altman avalia, contudo, que a entrada do tema religioso não deve substituir assuntos relacionados à renda, ao trabalho e às condições de vida. Para ele, o episódio pode ter consequências eleitorais específicas, sobretudo pela reação de setores católicos, mas seria arriscado transformá-lo no eixo central da disputa presidencial.

Sua análise se concentra, assim, menos na controvérsia original sobre Nossa Senhora Aparecida e mais na reação política produzida depois dela. Na avaliação do jornalista, foi ao confrontar a Igreja Católica e seus representantes que Flávio Bolsonaro ampliou o alcance do episódio.

“O bom para o presidente Lula é que Flávio Bolsonaro apareceu, ainda que seja por algumas horas ou por alguns dias, como inimigo dos católicos e a Igreja Católica se defendeu”, afirmou Altman.

Para ele, cabe agora à campanha de Lula administrar o episódio sem estimular antagonismos religiosos e aguardar as pesquisas para saber se a controvérsia efetivamente modificou o comportamento do eleitorado.

“A divisão religiosa não é boa para o país, evidentemente, e pode não ser boa para a campanha do presidente Lula”, concluiu.

Fonte: Brasil 247

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