Ela começou a cozinhar para o próprio cachorro e criou negócio de bolos de aniversário e ração personalizada para cães
Por Carina Brito — Seu Dinheiro
Bolo de aniversário com cara de confeitaria, refeições com carne de coelho e até receitas com rã. Na Cani Bravo, o cardápio é feito para cães, mas passa longe da ração tradicional.
A empresa aposta em alimentação natural personalizada e doces para pets, com produtos que chamam a atenção até de quem não imaginava que existia uma confeitaria voltada aos animais.
Por trás do negócio está a empreendedora Thays Bié, de 34 anos, que começou a cozinhar para o próprio cachorro durante a pandemia de coronavírus. O que era uma solução para atender às necessidades alimentares do animal virou uma empresa fundada em agosto de 2021, ao lado da esposa e sócia, Mariana.
Hoje, a Cani Bravo combina refeições sob encomenda, bolos de aniversário e petiscos vendidos em feiras gastronômicas.
Antes da Cani Bravo, vieram a costura, as cangas e os cursos online
Natural de Porangatu, em Goiás, Bié já tinha experimentado diferentes formas de ganhar dinheiro. Trabalhou como costureira, vendeu cangas e, pouco antes da pandemia de coronavírus, comercializava cursos online para quem estudava para concursos públicos.
Com a chegada da pandemia do coronavírus, ela precisou abrir mão do emprego fixo para cuidar do filho e, ao mesmo tempo, encontrar uma nova fonte de renda. A primeira tentativa foi vender própolis, em um período em que a preocupação com a imunidade estava em alta. Depois, de olho no crescimento do delivery, decidiu fazer um curso prático de gastronomia.
A ideia inicial era preparar comida para pessoas. Ela chegou a considerar pizzas artesanais, saladas no pote e pratos para festas, mas nenhuma dessas possibilidades parecia ter um diferencial que a motivasse a seguir em frente.
A virada veio dentro de casa. Na época, o cachorro da família tinha oito anos e precisava de cuidados especiais com a alimentação. Bié começou a preparar refeições para ele, pensando em alternativas aos alimentos industrializados.
Os primeiros clientes apareceram por indicação de amigos. Depois, a empreendedora levou os produtos para uma praça perto de casa e começou a oferecê-los a tutores que passeavam com seus cães.
A receptividade foi positiva. Cerca de um ano depois, ela transferiu a produção doméstica para um espaço próprio.
Da loja física à cozinha maior
Com o negócio em andamento, as sócias perceberam que o espaço físico havia se tornado um obstáculo para aumentar a produção.
A empresa mantinha um pequeno ponto comercial, que concentrava o atendimento presencial e as vendas pelo WhatsApp. A solução foi fechar o local e investir em uma cozinha planejada, maior e instalada em uma região mais afastada do centro de Brasília.
A mudança resolveu a limitação de espaço, mas trouxe outro problema: a distância dos clientes que costumavam visitar a loja com frequência.
“Aí foi quando falei: ‘Não, vamos começar a fazer feiras para levar o produto até o cliente'”, conta Bié ao Seu Dinheiro.
A saída foi apostar em um canal de vendas que, à primeira vista, poderia parecer pouco óbvio para uma empresa de alimentação animal: as feiras gastronômicas voltadas ao público humano.
Em agosto deste ano, a Cani Bravo passou a participar de feirinhas gastronômicas noturnas no bairro Noroeste, uma região de maior poder aquisitivo do Distrito Federal, onde a marca já tinha clientes.
Produtos pets se tornam diferencial
Em vez de procurar eventos exclusivamente voltados ao universo pet, Bié decidiu levar seus produtos a um público que, muitas vezes, nem sabia que existia confeitaria para animais.
“Não quis fazer feira pet, porque sinto que a venda não é tão próspera quanto em uma feira em que as pessoas não estão esperando aquilo. É como se eu fosse a cerejinha do bolo da feira”, diz.
A estratégia começa pela apresentação dos produtos. Com bolos e doces que lembram a confeitaria tradicional, a barraca desperta a curiosidade de quem passa pelo local.
“Todo mundo chega à barraquinha pensando que é brigadeiro e bolo para humano. Aí é a hora em que falo: ‘É para pet, é um bolo de carne bovina, não é um bolo de chocolate como se imagina’. E é nessa hora que acabo ganhando vários clientes que não tinham noção de que esse mundo existia”, conta.
Os produtos vendidos nesses eventos têm preços um pouco superiores aos da tabela de encomendas personalizadas, considerando a conveniência de comprar na hora.
Outro aspecto que pesa na escolha é a estrutura dos eventos. A organização da feira fica responsável pelas licenças e pelos encargos legais, enquanto os expositores pagam uma taxa pela ocupação do espaço.
Alimentação natural sustenta o negócio; confeitaria aproveita as sobras
A operação da Cani Bravo se divide em duas frentes: alimentação natural para cães e confeitaria pet.
A primeira é a base financeira da empresa. As refeições substituem a ração seca tradicional e são produzidas sem conservantes, sempre sob encomenda, para evitar perdas de ingredientes.
A maior parte da demanda, cerca de 80%, vem de tutores que procuram refeições personalizadas, seguindo prescrições elaboradas por veterinários nutricionistas escolhidos pelos próprios clientes.
São dietas pensadas para cães com necessidades específicas, como alergias alimentares, controle de peso ou outras restrições. Dependendo da prescrição, os ingredientes podem incluir desde músculo bovino até tilápia, carne de coelho e carne de rã.

O preço varia conforme a composição da dieta. Refeições mais simples, com ingredientes como músculo bovino, chuchu e abobrinha, custam em média R$ 500 por mês. Já as que levam ingredientes mais específicos, como tilápia, quinoa, couve-flor e batata-baroa, podem chegar a R$ 1.000 mensais.
Os outros 20% da demanda são atendidos pelas chamadas Dietas da Casa, opções desenvolvidas por uma veterinária nutricionista contratada pela empresa.
Disponíveis nos sabores filé bovino, filé de peito de frango e filé suíno, elas são vendidas em feiras e na modalidade de pronta-entrega, com preços a partir de R$ 8,10 por 100 gramas.
Já a confeitaria atende a ocasiões especiais, como aniversários de pets. “A confeitaria é bem lucrativa porque rende muito tudo o que a gente faz, e eu reutilizo pequenas sobras da parte de alimentação natural. É como se fosse uma forma de não ter desperdício na nossa cozinha”, explica Bié.
A batata-doce, por exemplo, pode ser reaproveitada na produção de bolos e doces, que recebem acabamentos semelhantes aos da confeitaria para humanos.
Na avaliação da empreendedora, a confeitaria é uma frente bastante rentável justamente porque permite aproveitar esses ingredientes.
Os bolos de aniversário começam em R$ 20, e o tamanho P, vendido a R$ 50, é o mais procurado da categoria.
Falta de mão de obra desafia a rotina
Apesar de ter encontrado diferentes canais de venda e organizado a produção em um espaço maior, a Cani Bravo ainda enfrenta dificuldades para montar uma equipe estável.
A rotatividade de funcionários é um dos principais gargalos da operação. Segundo Bié, a empresa tem dificuldade para manter profissionais por períodos mais longos, mesmo com contratação formal.
“Infelizmente, mão de obra é assim para todo empreendedor que eu conheço no setor. As pessoas passam 60 dias, menos de 90, e pedem para sair. E, assim, nem a gente querendo pagar mais, com carteira assinada, tudo muito bonitinho… Tem sido uma dificuldade enorme”, conta.
Por enquanto, a rotina de produção fica principalmente nas mãos das duas sócias. Nos períodos de maior demanda, elas contam com a ajuda de um cozinheiro formado em gastronomia, que trabalha como freelancer cerca de duas vezes por semana.
Para encontrar profissionais, Bié recorre às redes sociais, a grupos locais de vagas de emprego em Brasília e a grupos de WhatsApp de mulheres empreendedoras do setor gastronômico.
A dificuldade de estruturar uma equipe também está ligada aos planos de crescimento da empresa.
Faturamento de R$ 81 mil e planos de franquia
No último exercício, a Cani Bravo faturou R$ 81 mil, atingindo o limite anual de receita permitido ao microempreendedor individual (MEI). Então, a empresa precisou contar com o apoio de uma contabilidade especializada para fazer a transição para o porte de microempresa (ME).
Ao mesmo tempo, as sócias começaram a estudar uma possível expansão nacional por meio de franquias, em conversas com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).
A ideia é transformar os processos que já foram estruturados em um modelo que possa ser replicado por outros empreendedores. Mas, antes de dar esse passo, Bié reconhece que será necessário resolver o desafio de formar uma equipe própria.
“A gente está estudando junto ao Sebrae como expandir de uma forma segura, como franquear o que já conseguimos padronizar. Mas não vamos conseguir chegar a esse passo sem antes estruturar uma equipe dentro da cozinha”, afirma.
A empreendedora já teve uma experiência com a formação de outros negócios do setor. Em capacitações realizadas em Brasília, ajudou a montar três cozinhas pet independentes, que continuam em atividade.
“Quando a gente for replicar para o nosso modelo de franquia, a gente sabe que vai dar certo”, diz Bié.
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Fonte: Seu Dinheiro