Por dentro do George Club, clube privado onde Vorcaro reuniu autoridades em noite de R$ 3 milhões
Por Sara Magalhães — Seu Dinheiro
Duas esculturas de bronze de pastores alemães fazem a guarda da entrada do George Club, em Londres. Atrás delas, uma fachada azul-marinho esconde um dos endereços mais exclusivos de Mayfair, bairro conhecido pelas lojas de luxo, hotéis cinco-estrelas e clubes privados da capital britânica.
Foi ali que, em 25 de abril de 2024, o empresário Daniel Vorcaro reuniu autoridades brasileiras para uma degustação de uísque Macallan e charutos. O encontro aconteceu durante o 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado em Londres entre 24 e 26 de abril e patrocinado pelo Banco Master, então controlado por Vorcaro.
Segundo documentos da organização do evento encaminhados pela Polícia Federal à CPMI do INSS, a experiência no George Club custou US$ 640.831,88 (cerca de R$ 3,2 milhões). A conta incluía a degustação do caríssimo Macallan, serviço gastronômico e entretenimento. Cerca de 40 pessoas participaram do encontro.

Entre os convidados estavam os ministros do STF Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, o então ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, o ministro do STJ Benedito Gonçalves, o advogado Ciro Soares e o deputado Hugo Motta.
Vorcaro, inclusive, chegou a enviar uma mensagem para a então namorada, Martha Graeff, sobre a noite: “Todos os ministros do Brasil, do STF, STJ etc. E euzinho discursando”. O encontro, porém, voltou ao noticiário agora em setembro, depois que mensagens extraídas pela PF revelaram uma fotografia de Paulo Gonet ao lado do empresário, com uísque e charuto, durante a noite londrina.
George club: um clube privado em Londres
O endereço trata-se de um private members’ club, modelo tradicional em Londres no qual o acesso depende de associação e aprovação. O clube fica na Mount Street, em Mayfair, uma das regiões mais valorizadas de Londres. O estabelecimento mantém um processo específico para pedidos de associação e eventos privados.
O George nasceu em 2001, criado por Mark Birley, nome ligado à noite londrina e fundador também de clubes como o célebre Annabel’s. O nome, porém, não homenageia um aristocrata. A inspiração veio de George, o cão dachshund de Birley.

Em 2007, Richard Caring comprou o portfólio de clubes de Birley. Anos depois, ele assumiu ao lado da mulher, Patricia Caring, a transformação do George. O clube fechou para uma reforma de 18 meses e reabriu em junho de 2023. O projeto incorporou o imóvel vizinho e aumentou a área do estabelecimento em cerca de um terço.
O clube dos cachorros
O primeiro sinal aparece antes mesmo de entrar. Os dois pastores alemães de bronze na porta parecem fazer a segurança do estabelecimento. O tema continua no interior. Na recepção, por exemplo, os visitantes podem encontrar George, o dachshund que virou mascote do clube.

No subsolo, uma grande escultura em formato de cabeça de cachorro ocupa a área da escada e leva a uma das principais novidades da reforma: o Hound Bar. A obsessão canina também chega à mesa. O clube oferece um menu específico para os animais que acompanham os membros, incluindo uma preparação chamada de “dog caviar”.

Hockney nas paredes e bronze no bar
Se os cachorros dão ao George uma aparência mais brincalhona, a coleção de arte coloca o clube em outro patamar.
David Hockney é um dos nomes centrais da decoração. Obras do artista britânico que já pertenciam ao antigo George foram incorporadas ao novo espaço. O clube também já abrigou trabalhos de outros artistas importantes, como Tracey Emin. Parte dessas obras, porém, deixou as paredes durante a reforma.

Em 2023, a leiloeira Christie’s realizou uma venda com 71 lotes de trabalhos que decoravam o clube. A coleção arrecadou quase 1 milhão de libras, e o valor foi destinado à Caring Family Foundation, ligada a iniciativas sociais no Reino Unido e no Brasil.
A arquitetura também aposta em materiais pouco discretos. O térreo tem um balcão circular de bronze maciço, enquanto o teto e as paredes recebem mosaicos e vidro dourado. No subsolo, a atmosfera muda: tons de vinho, madeira escura, veludo e elementos inspirados no Art Déco criam um ambiente mais próximo de um bar noturno.

A reforma ainda criou um dos cartões-postais do endereço: uma grande varanda coberta e aquecida, descrita por diferentes publicações como a maior área externa de Mayfair. O espaço funciona até a madrugada e amplia a vocação do George para funcionar tanto durante o dia quanto à noite.

Um clube com regras
O George também mantém um código de vestimenta para os frequentadores. O clube recomenda o uso de blazer à noite. Jeans são permitidos, desde que tenham aparência alinhada e cor uniforme, enquanto shorts de alfaiataria são aceitos para mulheres, mas não versões de jeans ou muito curtas. Jaquetas de couro e tênis também entram no dress code, desde que estejam bem conservados.
O clube também impõe regras para o uso de tecnologia. Chamadas telefônicas não são permitidas e o uso do celular deve ser discreto e reduzido ao mínimo, sempre com o aparelho no modo silencioso. Além disso, fotografias e vídeos são proibidos em todas as áreas do clube.

Quanto custa entrar no George Club
O acesso ao clube custa, e caro. A Sincura Group, empresa especializada em clubes privados de Londres lista atualmente uma taxa de adesão de 1.250 libras (R$ 8.658) e anuidade de 2 mil libras (R$ 13 mil) para a categoria padrão.
Para menores de 35 anos, os valores indicados são 500 libras (R$ 3.463) de adesão e 1 mil libras (R$ 6.926) por ano. Os valores, porém, podem mudar e a aprovação da associação depende do clube. O modelo funciona como uma extensão social dos próprios membros.
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Fonte: Seu Dinheiro