Por Marcio Pochmann — Brasil 247

O Brasil está diante de uma mudança de época que exige mais do que crescimento econômico para reconstruir a capacidade de decidir o próprio futuro. Durante boa parte do século XX, desenvolvimento significou avançar em direção a uma fronteira relativamente conhecida, como industrializar, urbanizar, elevar a produtividade, ampliar direitos, aumentar a escolaridade e reduzir a distância em relação às economias centrais. Hoje, essa referência perdeu nitidez.

A tese central é simples: o futuro deixou de ser uma promessa automática do progresso e precisa voltar a ser objeto de construção política, econômica e social. Isso significa repensar o desenvolvimento em um mundo marcado simultaneamente pela crise climática, pela revolução digital, pela financeirização, pela reorganização geoeconômica e pela transformação das formas de trabalho, produção e sociabilidade.

Durante boa parte do século XX, havia conflitos profundos sobre quem deveria conduzir o desenvolvimento e quem dele se beneficiaria, mas permanecia uma convicção poderosa acerca da possibilidade de o futuro ser melhor que o presente. Essa talvez tenha sido uma das grandes promessas da modernidade. Mais educação deveria significar melhores empregos, assim como mais tecnologia, menos esforço, mais produtividade, maior prosperidade, mais ciência e maior domínio sobre a natureza.

No primeiro terço do século XXI, essa certeza começou a se desfazer. A ascensão da Ásia, sobretudo da China, desloca o eixo da economia mundial, ao passo que a crise climática evidencia os limites da expansão material e a revolução digital amplia extraordinariamente a capacidade de produzir e processar informações, ao mesmo tempo que concentra poder. Paralelamente, a financeirização permite que a riqueza abstrata cresça em meio ao avanço da insegurança social, enquanto a hiperconectividade multiplica a comunicação e transforma atenção e tempo em bens cada vez mais escassos.

Por isso, a pergunta já não parece ser apenas como crescer mais, mas que desenvolvimento ainda faz sentido e quem terá capacidade de orientá-lo. O Antropoceno tornou essa questão incontornável ao revelar que a humanidade não está separada da natureza e que suas próprias ações alteram as condições materiais de continuidade da vida social. O futuro, assim, deixa de ser apenas aquilo que ainda não aconteceu e passa a ser também aquilo que as decisões do presente podem tornar possível ou mesmo impossível.

Para o Brasil, essa transformação chega em um momento contraditório. No século passado, o país realizou uma das mais rápidas mudanças estruturais entre as economias periféricas de passado colonial e escravista. Em poucas décadas, deixou de ser predominantemente rural e primário-exportador para constituir uma sociedade urbana e industrial. Essa transformação, contudo, permaneceu incompleta. Desde os anos 1990, o Brasil perdeu densidade industrial justamente quando uma nova revolução tecnológica começava a reorganizar a economia mundial. A financeirização, a especialização produtiva e a fragmentação das cadeias globais reduziram parte da capacidade nacional de produzir tecnologias e bens de maior complexidade.

Por isso, a saída não está simplesmente em restaurar o desenvolvimentismo do século passado. A indústria contemporânea combina software, inteligência artificial, sensores, dados, novos materiais, automação e serviços especializados. A agricultura depende cada vez mais de genética, máquinas, satélites e informação, ao passo que as infraestruturas física e digital se tornaram inseparáveis.

Diante disso, o Brasil não precisa escolher entre ser potência agrícola, industrial, energética, ambiental ou digital, mas integrar essas dimensões. A emergência climática amplia essa possibilidade, pois poucos países possuem simultaneamente água, biodiversidade, biomassa, terras produtivas, potenciais hidrelétrico, solar e eólico, reservas minerais e capacidade científica.

Mas a abundância também pode ser uma armadilha. O país pode exportar lítio e importar baterias, exportar minerais estratégicos e comprar equipamentos tecnológicos, produzir energia limpa e importar os bens industriais que dela mais se beneficiam e, ainda, exportar biomassa e adquirir materiais sofisticados produzidos a partir desse mesmo recurso.

Nesse caso, o Brasil poderia tornar-se essencial à transição verde mundial e, ainda assim, permanecer tecnologicamente dependente. A diferença entre uma potência ambiental e uma periferia verde reside na capacidade de transformar recursos naturais em conhecimento, tecnologia e produção.

A mesma lógica vale para a relação com a China, cuja ascensão oferece ao Brasil novos mercados, investimentos e possibilidades produtivas, mas também pode aprofundar um padrão conhecido de exportação de matérias-primas e importação de produtos industriais. Trocar o centro da dependência não significa superá-la.

A questão relevante é saber quanto conhecimento, tecnologia, fornecedores, empregos qualificados e capacidade produtiva permanecem no país depois que o investimento chega. O mesmo princípio vale para ferrovias, portos e corredores bioceânicos, pois uma infraestrutura destinada apenas a acelerar a exportação de commodities pode tornar a periferia mais eficiente, mas não necessariamente mais desenvolvida. O desenvolvimento exige encadeamentos produtivos e capacidade tecnológica.

A energia ocupa posição central nessa transformação. Durante milênios, as sociedades dependeram essencialmente dos fluxos naturais. A Revolução Industrial rompeu esse limite ao permitir a utilização, em larga escala, de carvão, petróleo e gás acumulados ao longo de milhões de anos. O início do século XXI, por sua vez, exige um novo movimento, marcado pela ampliação do uso do sol, do vento e da água, apoiado por redes elétricas, sistemas de armazenamento, eletrônica e inteligência computacional.

O Brasil possui condições extraordinárias para essa transição. Mas dispor de energia não significa, por si só, possuir soberania energética. A questão decisiva está no destino do excedente gerado por esses recursos. A renda do petróleo pode ser consumida no presente ou financiar ciência, infraestrutura e tecnologias para uma economia progressivamente menos dependente dos combustíveis fósseis.

Há, portanto, uma oportunidade histórica de usar a riqueza dos estoques para construir a economia dos fluxos renováveis. A transformação em curso, porém, não se limita à produção. Ela também modifica a experiência cotidiana. Toda sociedade possui uma espécie de relógio. A sociedade agrária vivia segundo o tempo da natureza, ao passo que a industrial se submeteu ao relógio mecânico da fábrica e a sociedade digital começa a viver sob o relógio do algoritmo. Ele não apenas marca o tempo, mas classifica, recomenda, compara, notifica e procura antecipar comportamentos.

O trabalhador industrial precisava estar presente durante determinadas horas. O indivíduo hiperconectado precisa permanecer disponível. O relógio saiu da parede, entrou no bolso e passou a disputar espaço dentro da própria mente.

A tecnologia prometia economizar tempo. O paradoxo é que, quanto mais rapidamente realizamos uma tarefa, maior parece ser o número de tarefas à espera. Surge, assim, uma nova desigualdade que avançou para o acesso e o uso do tempo. A informação se generaliza de forma abundante e a atenção fica escassa para uma comunicação instantânea e exposta cada vez mais a conteúdos quase ilimitados, tendo o silêncio se transformado em privilégio. Na sociedade hiperconectada, talvez o novo luxo seja poder não estar disponível.

A inteligência artificial aprofunda essa transformação. Pela primeira vez, máquinas de uso cotidiano participam diretamente da escrita, da análise, da programação e da tomada de decisões. A questão não é impedir a inteligência artificial, mas decidir quanto pensamento desejamos delegar. É justamente nesse ponto que a transformação tecnológica encontra o problema institucional, pois produção, finanças e informação organizam-se em redes globais. As plataformas coordenam bilhões de pessoas, empresas atuam em dezenas de países e organizações criminosas e religiosas também aprenderam a operar em redes.

Enquanto isso, o Estado concebido na era industrial permanece, em muitos casos, dividido em estruturas setorializadas e pouco integradas. O problema não é simplesmente ter um Estado grande ou pequeno, mas saber se ele é capaz de produzir informações, integrar dados, planejar, regular e antecipar riscos.

O Estado desenvolvimentista do século XX atuava na industrialização de uma sociedade ainda marcada por estruturas agrárias. No início do século XXI, o Estado da era digital precisa preservar sua capacidade transformadora e incorporar novas dimensões, especialmente a sustentabilidade ecológica e a atuação preditiva. Isso significa antecipar acontecimentos e tendências como enchentes, transformações demográficas, mudanças no trabalho e dependências produtivas para que a atuação estatal antecipada evite que se convertam em crises.

Nesse novo Estado, a informação deixa de ser apenas recurso administrativo e torna-se infraestrutura estratégica. Por isso, instituições públicas de estatística e geociências, como o IBGE, ganham nova centralidade. O Estado agrário precisava conhecer terras, população e produção. O industrial incorporou empresas, empregos, renda e cidades. O Estado digital precisa compreender também mobilidade, plataformas, fluxos digitais, riscos ambientais, novas formas de trabalho e uso do tempo.

Não parece ser suficiente saber onde as pessoas moram, mas também compreender por onde circulam, assim como é importante superar a medida da renda sem relacioná-la ao custo de vida, à mobilidade e ao tempo. Para além da identificação e acompanhamento da conexão, há a necessidade de conhecer a qualidade e os efeitos dessa conexão.

O desafio brasileiro, portanto, não é apenas voltar a crescer, mas recuperar a capacidade de decisão e construção de uma estratégia capaz de integrar natureza, indústria, energia, dados, ciência e sociedade. No século XX, desenvolver-se significava avançar em direção a uma fronteira relativamente conhecida. Agora, a própria fronteira está em movimento. Talvez seja justamente aí que resida a oportunidade brasileira. O futuro deixou de ser promessa. Por isso mesmo, precisa voltar a ser projeto.

Fonte: Brasil 247

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