Lula tem 55% de chances de vencer a eleição, diz Eurasia Group
Por Otávio Rosso — Brasil 247
247 – A Eurasia Group mantém em 55% a probabilidade de vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial de 2026, embora seus modelos de previsão indiquem uma disputa praticamente equilibrada com o senador Flávio Bolsonaro (PL). Segundo a consultoria de risco político, a vantagem atribuída ao petista decorre principalmente do peso da incumbência e da avaliação de que a candidatura do adversário ainda poderá enfrentar novos testes durante a campanha.
A análise foi apresentada por Christopher Garman, diretor executivo para as Américas da Eurasia Group, em entrevista ao Estadão/Broadcast. A consultoria havia reduzido anteriormente a probabilidade de vitória de Lula de 60% para 55% e continua identificando um viés de baixa, embora menos intenso do que na semana anterior.
“Os nossos modelos de previsão eleitoral estão apontando 50% a 50% hoje. Como Eurasia, mantemos 55% de probabilidade de vitória a Lula, porque enxergamos esse peso um pouco maior para vantagem de incumbência e as fragilidades da própria campanha de Flávio Bolsonaro, com risco de novas denúncias envolvendo o candidato”, afirmou Garman.
A avaliação da Eurasia ocorre em um cenário no qual levantamentos recentes apontam vantagem de Lula no primeiro turno, mas uma disputa mais estreita em eventual segundo turno. Pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira (28) mostrou Lula com 39% das intenções de voto, contra 34% de Flávio. O instituto ouviu 2.004 eleitores entre 24 e 27 de setembro, com margem de erro de dois pontos percentuais.
Já o Datafolha registra Lula com 40% e Flávio com 36% no primeiro turno. Na simulação de segundo turno, o presidente aparece com 47%, ante 45% do senador, diferença dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. Nos votos válidos do primeiro turno, o Datafolha calcula 43% para Lula e 39% para Flávio.
Incumbência pesa na análise
Garman explicou que, diante de uma eleição considerada próxima de “meio a meio”, a Eurasia tende a considerar a capacidade de ação de quem ocupa a Presidência. Ele citou medidas anunciadas pelo governo na reta final da campanha, entre elas mudanças envolvendo as apostas on-line, o aumento do Bolsa Família e a renegociação de dívidas.
“Quando estamos em uma eleição que realmente parece meio a meio, damos um viés para o incumbente, porque ele tem capacidade de se mexer e de fazer novos anúncios”, disse.
Segundo o diretor da consultoria, a segunda razão para manter a estimativa de 55% é a avaliação de que Flávio Bolsonaro “ainda não foi plenamente testado”. Para Garman, um eventual segundo turno ampliaria a exposição do candidato do PL a ataques dos adversários.
“Ele será atacado de uma forma mais ampla em um eventual segundo turno, então, ele é uma candidatura que não foi plenamente testada. Por essas razões, damos o viés de vitória ao presidente Lula”, afirmou.
Apesar da projeção da consultoria, Garman ressaltou que os modelos considerados isoladamente não apontam um favorito. Segundo ele, diferentes indicadores produzem resultados distintos: modelos que atribuem maior peso a segurança pública e corrupção são mais favoráveis a Flávio; aqueles baseados na aprovação do governo beneficiam Lula; e os que privilegiam intenção de voto indicam equilíbrio.
“Reconhecemos que em uma leitura fria dos modelos analíticos não há um favorito na disputa hoje”, declarou.
Crise do STF afetou Lula, diz Garman
Na avaliação da Eurasia, a crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal foi um dos principais fatores responsáveis pela deterioração da posição eleitoral de Lula nas últimas semanas.
“A crise do Supremo Tribunal Federal foi um evento que desequilibrou o jogo. O presidente Lula e a campanha dele sofreram claramente mais, o que acabou ampliando o grau de pessimismo do eleitorado e levou até mesmo à queda na aprovação do presidente ao longo desse último mês”, afirmou Garman.
Segundo ele, o movimento fez desaparecer a vantagem que Lula possuía anteriormente nas simulações de segundo turno. A consultoria avalia, porém, que essa deterioração perdeu força nos últimos dias.
“Mantemos a probabilidade de 55% com um viés a Lula, porque as pesquisas dos últimos dez dias mostram que o sangramento do presidente parou, a aprovação dele parou de cair e ele voltou a ampliar o porcentual”, disse.
Medidas do governo podem mudar o eixo da campanha
Para Garman, os anúncios recentes do governo têm importância não apenas por seus possíveis efeitos sobre a avaliação da administração, mas também pela capacidade de retirar a crise no STF do centro do debate eleitoral.
“Mais relevante do que as medidas é a capacidade de deslocar a cobertura da imprensa para fora das denúncias no Supremo para temas mais favoráveis ao presidente Lula”, afirmou.
O diretor da Eurasia considera que a campanha petista começou de maneira dispersa, mas passou a apresentar maior foco na reta final. Na avaliação dele, Lula precisa associar as realizações do governo a uma perspectiva de melhora para os próximos anos.
“O sangramento terminou, estabilizou, a campanha do PT está mais aliviada, mas o equilíbrio atual não é tão confortável para o presidente Lula. Por isso, é tão difícil cravar um resultado”, declarou.
Bets e caso de Nossa Senhora entram no cálculo
Garman também citou a repercussão das medidas contra as bets, a renegociação de dívidas e a circulação de informação falsa envolvendo Nossa Senhora Aparecida como acontecimentos que alteraram parcialmente o ambiente da campanha.
“A repercussão da proibição das bets, o alívio da dívida para os consumidores e a fake news sobre Nossa Senhora Aparecida sugerem que Lula entra nessa última semana do primeiro turno com um pequeno ímpeto”, afirmou.
A controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida também chegou ao Judiciário. Nesta semana, decisões relacionadas à circulação de publicações sobre o título de padroeira do Brasil provocaram divergências entre ministros do STF e do TSE, envolvendo questões de liberdade de expressão, desinformação eleitoral e retirada de conteúdo das plataformas digitais.
Para a Eurasia, nenhum desses acontecimentos, isoladamente, representa uma mudança definitiva na eleição. “A soma de todas essas medidas anunciadas pelo governo e a fake news sobre Nossa Senhora Aparecida não são nenhuma bala de prata, mas reforçam a nossa premissa de que numa eleição empatada há vantagem ligeira para Lula pelo poder de incumbência”, disse Garman.
Pesquisas e comparecimento às urnas
Outro elemento de incerteza destacado pelo diretor é a capacidade dos institutos de pesquisa de estimar corretamente quais eleitores efetivamente comparecerão às urnas. Garman afirmou que a Eurasia considera possível que alguns levantamentos estejam subestimando o eleitorado de direita.
Segundo ele, a questão estaria menos relacionada à hipótese do chamado “voto envergonhado” e mais à composição das amostras e ao comparecimento eleitoral.
“O que ocorreu no Brasil em outras eleições é que os institutos não calibram bem quem é que vai comparecer nas urnas e também o fato de que o perfil de quem responde às entrevistas tem mudado, o que é chamado de ‘non-response bias’. Esses são os dois grandes vilões do porquê que as pesquisas erram”, afirmou.
Os levantamentos também mostram rejeição elevada aos dois principais candidatos. Na Quaest divulgada na segunda-feira, 56% dos entrevistados disseram rejeitar Flávio Bolsonaro, enquanto 55% declararam rejeição a Lula.
Eurasia considera decisão no primeiro turno pouco provável
Embora reconheça a possibilidade matemática de definição da eleição já no primeiro turno, Garman avalia essa hipótese como pouco provável. Segundo ele, os candidatos que aparecem atrás de Lula e Flávio ainda concentram votos suficientes para dificultar que um dos dois ultrapasse a maioria dos votos válidos.
“Em uma eleição muito equilibrada entre Lula e Flávio, e alternativos somando 8%, achamos difícil que um candidato consiga chegar a 51% dos votos no primeiro turno”, afirmou.
O Datafolha mais recente reforça essa dificuldade: nos votos válidos, Lula registra 43%, Flávio 39%, Augusto Cury (Avante) 6%, Ronaldo Caiado (PSD) 5% e Renan Santos (Missão) 3%, além dos demais candidatos.
Abstenção amplia incerteza
A Eurasia também acompanha o possível impacto da abstenção. Garman descreveu a eleição como marcada por menor entusiasmo das bases políticas em comparação com pleitos anteriores e afirmou que as duas principais campanhas precisarão trabalhar para mobilizar seus eleitores.
“Essa eleição é marcada pelo desalento e pelo desânimo com as duas candidaturas, com uma certa decepção das respectivas bases. É um cenário bem diferente de quatro anos atrás, quando você tinha cada lado mobilizado e articulado pelo seu candidato”, afirmou.
Na avaliação da consultoria, a composição da abstenção pode ser determinante em uma disputa apertada, mas ainda é difícil antecipar quais grupos deixarão de votar em maior proporção.
Para Garman, portanto, os 55% atribuídos a Lula não representam uma previsão baseada apenas na fotografia atual das pesquisas. O número incorpora fatores políticos que a Eurasia considera capazes de interferir na reta final, como o poder da incumbência, o rumo do noticiário, a capacidade do governo de alterar os temas dominantes da campanha e o grau de exposição de Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno.
“Hoje, uma leitura fiel dos modelos de previsão que usamos para calibrar a nossa aposta aponta para 50% a 50%, mas mantemos 55% a Lula porque enxergamos algumas dinâmicas da campanha à frente”, afirmou.
Fonte: Brasil 247