Polícia matou apenas negros em três cidades do Rio em 2025

0

Por Mariana Rosetti — Ponte

Entre você e a realidade

Compartilhe este conteúdo

O motoboy Paulo Roberto Siqueira Bastos, de 27 anos, voltava do trabalho em uma lanchonete quando foi baleado durante uma operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro, na comunidade do Castelar, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. O caso ocorreu em 28 de abril de 2026. Segundo familiares, Paulo, que era negro, não apresentava qualquer risco quando foi morto pela polícia.

A morte de Paulo dá continuidade a um padrão registrado no ano anterior. Em 2025, manchetes semelhantes à que noticiou sua morte, “Motoboy é morto durante operação policial”, se repetiram. A semelhança não estava apenas nos títulos: aparecia também na cor da pele de quem morria.

Em Belford Roxo, onde Paulo foi morto, e também em Magé e Maricá, todas as pessoas mortas por agentes do Estado em 2025 eram negras. É o que mostra o Mapa da Desigualdade de 2026, produzido pela Casa Fluminense e obtido com exclusividade pela Ponte.

Das 800 pessoas negras mortas por agentes do Estado, 741 morreram na Região Metropolitana. Nessa região, negros representam mais de 70% das vítimas e cerca de 65% da população.

Leia também: Por que o seu candidato deveria falar de letalidade policial nessas eleições? 

Para Íris Rosa, coordenadora de informação da Casa Fluminense, os municípios em que todas as vítimas mortas por agentes do Estado são negras evidenciam a disparidade no tratamento dado a essa população. “Qual é a política que está orientando a ação desses agentes? Essa é a maior pergunta”, afirma.

Quase uma semana após a operação mais letal da história do Brasil, realizada em 28 de outubro de 2025 nos complexos do Alemão e da Penha, a Folha de S. Paulo publicou uma reportagem sobre o perfil de 115 mortos. A ação das polícias Civil e Militar do Rio deixou 121 mortos, incluindo quatro policiais.

Segundo a reportagem, as vítimas tinham, em média, 28 anos. Embora fotografias do episódio mostrassem vítimas majoritariamente negras, não havia informação oficial sobre cor ou raça nos registros policiais, apontou a Folha.

Leia também: Rio não evitou avanço de facções com operações policiais e impulsionou milícias, diz estudo

O texto, escrito pelas jornalistas Marcela Canavarro, Bruna Fantti e Paula Soprana, relatava que a Polícia Civil recorreu às redes sociais para associar ao Comando Vermelho (CV) pessoas mortas na operação que não tinham antecedentes criminais.

Tiago Neves Reis, 26, teria sido conectado à facção por exibir uma bandeira vermelha triangular em forma de emoji, o que faria alusão ao CV. “Reis não tinha mandado de prisão, não era investigado e não possuía antecedentes”, apontou a matéria. Situação semelhante se deu com outros jovens. 

Leia também: ‘Carreguei mais de 80 corpos’: relatos do terror nos complexos da Penha e do Alemão

A idade das vítimas do Massacre do Alemão e da Penha dialoga com outro dado do Mapa da Desigualdade: pessoas negras vivem menos do que pessoas brancas em todos os municípios da Região Metropolitana. Na cidade do Rio de Janeiro, onde ficam os complexos do Alemão e da Penha, pessoas negras vivem, em média, 10 anos a menos do que pessoas brancas. Em Niterói, que apresenta a maior disparidade, a diferença é de 11 anos.

“O envelhecimento é um privilégio para a população negra”, sintetiza Íris. Para a pesquisadora, esse dado precisa ser entendido a partir do acúmulo de condições que permitem — ou impedem — que alguém envelheça. Embora defenda que a violência policial se consolidou como uma política de extermínio da população negra, essa é apenas uma das dimensões que atravessam esses territórios.

Em uma imagem antiga e pixelada, uma mulher com trajes de banho desabafa irritada: “É sujeira você pegar uma pessoa que mora em Ipanema, uma pessoa bem-vestida, legal, que tem educação, e colocá-la na praia no meio de um monte de gente que não tem educação, que vai dizer grosseria, que vai comer farofa com galinha”, diz ao repórter.

Na sequência, defende que essa população é suja, se recusa a chamá-la de brasileira e a define como uma sub-raça. As imagens são do documentário “Os pobres vão à praia”, exibido em 1989 pela Rede Manchete, que acompanhou a verdadeira saga de moradores do subúrbio para chegar a uma das paisagens que ajudaram a consagrar o Rio como Cidade Maravilhosa: as praias.

Leia também: Coluna LASInTec | Quando a pior chacina é sempre a próxima

O trecho repercutiu no TikTok em agosto deste ano, após o perfil Gil Explica relacionar a segregação racial e econômica registrada pelas imagens há quase quatro décadas com os dias de hoje.

No vídeo, com 1,5 milhão de visualizações, ele sustenta que, se antes os ricos defendiam que pobres não deveriam acessar praias em regiões consideradas nobres, hoje basta que façam “estruturas, políticas e projetos para separar essas pessoas, sem precisar falar [que não as querem ali]”.

O resultado dessas estruturas foi capturado pelo Mapa da Desigualdade: 116.820 pessoas (70%) que vivem em domicílios particulares improvisados, ou seja, lugares não destinados à habitação, são negras. Além disso, das 31 mil pessoas em situação de rua na Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ) registradas no CadÚnico, 23 mil (74%) são negras.

Mesmo assim, apenas cinco dos 22 municípios da RMRJ citam ou incluem diretrizes para a população negra em seus Planos Diretores, leis municipais que orientam o crescimento e o desenvolvimento urbano, aponta o estudo.

Leia também: ‘A meta de mortes pela polícia tem que ser zero’: tenente-coronel Adilson de Souza

“Se não existe uma diretriz que incentive os nossos gestores a promoverem políticas voltadas para a população negra e quilombola, isso nunca vai acontecer”, resume Rosa. “Essas pessoas da metrópole têm tido algum tipo de assistência do Estado para conseguir sair dessa condição de vulnerabilidade?”, provoca.

Para Íris, esse dado ajuda a explicar desigualdades observadas na letalidade policial, na longevidade, nas condições de moradia e na distribuição de renda e riqueza.

Os municípios de Cachoeiras de Macacu, Itaboraí, Japeri, Rio Bonito e Tanguá registram ganhos mensais abaixo do piso nacional de 2026: R$ 1.621,00. Os valores são menos da metade do registrado em Niterói, onde a renda média chega a R$ 2.957,44, a maior da Região Metropolitana.

Além de enfrentarem dificuldades financeiras, muitos desses moradores deixam diariamente seus municípios para trabalhar na capital e contribuir para a economia da metrópole.

“Se nós pensarmos que essa política está negligenciando a população que faz o trabalho que gera toda a renda, todo o PIB dessas cidades, e que é uma população concentrada na Baixada Fluminense, que faz esse movimento pendular todos os dias para a capital, nós também entendemos muitos dos outros indicadores”, observa Rosa.

Para Íris, os números também refletem a distância entre o lugar onde muitos trabalhadores moram e aquele onde a riqueza gerada por seu trabalho se concentra. Moradores da Baixada Fluminense se deslocam diariamente para trabalhar na capital, mas essa contribuição não se traduz em renda equivalente nos municípios ondem vivem. “Não é possível que só a Lagoa Rodrigo de Freitas [na zona sul da cidade] trabalhe o suficiente para ter R$ 18 mil de renda”, ironiza sobre um dos metros quadrados mais valorizados do Brasil.

Assine a Newsletter da Ponte! É de graça

É nesse acúmulo de desigualdades — da segurança à renda, da moradia à possibilidade de envelhecer — que Rosa localiza uma das principais conclusões do levantamento: “Sobreviver em alguns espaços da metrópole, para pessoas negras, é um desafio gigantesco”, afirma. Para ela, o Rio de Janeiro tem uma política de segurança pública voltada “para o confronto armado e pouco para subsídios que tornem a vida dessas pessoas possível”.

Que tal entrar de vez para o time da Ponte? Você sabe que o nosso trabalho incomoda muita gente. Não por acaso, somos vítimas constantes de ataques, que já até colocaram o nosso site fora do ar. Justamente por isso nunca fez tanto sentido pedir ajuda para quem tá junto, pra quem defende a Ponte e a luta por justiça: você.

Com o Tamo Junto, você ajuda a manter a Ponte de pé com uma contribuição mensal ou anual. Também passa a participar ativamente do dia a dia do jornal, com acesso aos bastidores da nossa redação e matérias como a que você acabou de ler. Acesse: ponte.colabore.com/tamojunto.

Todo jornalismo tem um lado. Ajude quem está do seu.

Assine

© 2026 Ponte Jornalismo

Design por dárkon vr

Desenvolvivdo por Estúdio Haste

Mantido e Hospedado por Opará Tecnologia

Usamos cookies para melhorar sua experiência de navegação.

Você pode ver mais sobre os dados armazenados e configurados clicando em configurações .

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.

Apenas os cookies necessários ao funcionamento do site serão ativados.

Fonte: Ponte

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *